Post Mortem-Day30

MOTELX. O que vem depois de uma guerra, pandemia e morte

'Post Mortem' é um filme de terro húngaro, parte da secção Serviço de Quarto da edição de 2021 do MOTELX

Post Mortem foi projetado na honrosa sala Manoel de Oliveira, do Cinema são Jorge na quarta-feira (8), como parte integrante dos vinte e um filmes da secção Serviço de Quarto, que traz à programação os melhores filmes de terror feitos nos últimos dois anos. morte morte

Lançado em 2020, Post Mortem é um filme do realizador húngaro Péter Bergendy, que tem no seu currículo obras como Vault (2018) e The Exam (2011). É formado em psicologia, com tese de especialização em psicologia de filmes de terror. Durante a promoção do filme, foi tido como o primeiro filme de terror húngaro e é também um espelho dos tempos de pandemia em que vivemos.

Após a I Guerra Mundial e a Gripe Espanhola, no inverno gélido de 1918, uma pequena aldeia húngara, cujos habitantes pensavam que já nada de pior lhes podia acontecer, conhece aquilo que pode ser mais aterrorizador que a morte. Vítimas da guerra e da pandemia ficam agora reféns dos espíritos que não conseguem nem partir, nem ficar e conhece assim o horror que pode significar um não-lugar.

A figura principal do filme é Tomas (Viktor Klem), um jovem fotógrafo apresentado logo no início como um soldado que escapou à morte na guerra por um triz. A partir daí, fica próximo de um homem que o salva e que tinha como profissão a fotografia errante post mortem, que se torna assim o ofício do próprio jovem.

Em mais um percurso por feiras e locais onde possa desenvolver o seu trabalho, Tomas chega a esta aldeia e cruza-se com uma menina que vai mudar o rumo da sua história e com quem desenvolve uma profunda e inexplicável conexão, a órfã Anna (Fruzsina Hia), de apenas dez anos, que tem como único elemento da família uma tia muito doente.

Foto: divulgação

Uma aldeia com poucos habitantes revela os seus segredos mais profundos e tenebrosos logo na primeira noite do antigo soldado. Rapidamente Tomas vê-se confrontado com a presença de espíritos dos quais não consegue fugir e, com a revolta dos habitantes da aldeia que nem sempre o recebem bem, passa a sentir-se refém e responsável por salvar aquele lugar.

A cinematografia é marcada por imagens muito sombrias, resultado do retrato do rigoroso inverno húngaro e as paisagens marcadas pela neve, dias com poucas horas de luz, casas com condições degradantes, famílias marcadas pela tristeza e dor de perderem quase todos os seus elementos. Assim como a fome e a falta de recursos que todo o mundo vivia neste ano de ressurgimento após dois golpes tão duros.

Anna surge aqui como a personagem que, até pela sua idade e pela maneira como fala de todas as coisas de mal que já lhe aconteceram, pode bem ser a única esperança que ainda resta no mundo. Ao contrário de Tomas, bem mais ansioso, expectante e receoso.

Foto: divulgação

As mulheres da aldeia, carregadas pelo luto e pela falta de horizonte para um futuro que só tem como consolo não poder ser pior, representam a desconfiança, a defesa da honra, talvez a única coisa que lhes sobra defender.

Este foco nas relações humanas acaba por quebrar o tom de terror das cenas em que espíritos e mortes inesperadas assombram o ecrã. Num balanço que nem sempre é tão bem conseguido. Contudo, é um filme que aparece numa altura em que o contexto histórico de uma pandemia nos deixa talvez mais conectados e ligados a toda a história.

Outro ponto a favor é o da fotografia post mortem como mote da narrativa e como fio condutor da história, sendo uma prática que nos é tão distante e que consegue aqui fazer todo o sentido e ajudar-nos a entender melhor cada personagem, mortos e vivos, e perceber como a questão da passagem “para o outro lado” era na altura um tema tão marcante e repleto de misticismo.

Desde o seu lançamento o filme ganhou já importantes prémios em festivais de cinema europeus, principalmente nas categorias Melhor Filme e Melhor Realização. Também o ator principal foi galardoado no Sombra Festival Prize. Post Mortem fará com certeza parte de um dos melhores filmes do género nos últimos dois anos.

Já a 15.ª edição do MOTELX vai continuar a assombrar-nos até ao dia 13 de setembro.

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