Antero de Quental. Quem foi o poeta que marcou o dia 11 de setembro em Portugal?

O poeta português faleceu a 11 de setembro de 1891.

Antero de Quental foi uma figura incontornável da poesia em Portugal. Para além disso, revelou-se também um homem fundamental nos movimentos artísticos e na política oitocentista portuguesa. No final da vida, foi a angústia que mais o acompanhou, e acabou por suicidar-se a 11 de setembro de 1891.

Antero Tarquínio de Quental nasceu a 18 de abril de 1842 nos Açores – mais precisamente, em Ponta Delgada. Nascido numa família de fidalgos de São Miguel, dizia-se inspirado por Alexandre Herculano, mas também absorveu influencias do avô, amigo íntimo de Bocage. Dos Açores embarcou para Lisboa, aos dez anos de idade, mas foi em Coimbra que acordou o seu lado mais ideológico e combativo, enquanto frequentava o curso de Direito.

Ficou ali conhecido como o “Príncipe da Mocidade”, pelo seu espírito revolucionário e envolvimento nas lutas académicas. Foram lá que se formaram as grandes amizades que iriam moldar o futuro das artes e da cultura em Portugal no século XIX, como Eça de Queiroz que, no ensaio Um Génio Que Era Um Santo, descreve a importância que o autor teve: “Deslumbrado, toquei o cotovelo de um camarada, que murmurou, por entre os lábios abertos de gosto e pasmo. – É o Antero! (…) Nesse tempo ele era em Coimbra, e nos domínios da inteligência, o Príncipe da Mocidade.”

Para além de Antero e Eça, nomes como Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Teófilo Braga Manuel de Arriaga tornaram-se a base para a Geração de 70, grupo de jovens intelectuais portugueses que, em Coimbra e Lisboa, manifestaram um descontentamento com o estado da cultura e das instituições nacionais e tinham o intuito de mudar Portugal através das artes e literatura, e do qual Antero Quental foi a figura de maior profundidade reflexiva.

Sensibilidade da obra poética e ensaísta

À luta e perseverança, Antero de Quental juntou sensibilidade e profundidade aos seus sonetos e acabou, assim, a dar os primeiros passos para o Realismo em Portugal. O movimento surge após o Romantismo, gerado a partir das ideias de Proudhon, Quinet, Taine e Renan.

António Feliciano de Castilho, escritor romântico português, no livro do também romântico Pinheiro Chagas, critica a geração de 70. “Muito há que eu me pergunto a mim donde proviria esta enfermidade que hoje grassa por tantos espíritos, de que até alguns dos mais robustos adoecem, que faz com que a literatura, e em particular a poesia, ande marasmada, com fastio de morte à verdade e a simplicidade“.

Em resposta, Antero publica a famosa carta a que chama Bom Senso e Bom Gosto, onde se defende veemente das críticas. “Levanto-me quando os cabelos brancos de V. Exa passam diante de mim. Mas o travesso, o cérebro que está debaixo e as garridas e pequininas cousas que saem dele confesso não merecerem nem admiração, nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto com a gravidade numa criança. V. Exa precisa menos cinquenta anos de idade, ou então mais cinquenta de reflexão”, escreve. Estava assim iniciada a Questão Coimbrã.

Para além da poesia, como a publicada em Odes Modernas, o poeta português escreveu também importantes ensaios filosóficos. Os ideais socialistas marcaram o seu caminho e foram eles que o fizeram chegar a Paris, onde viveu durante algum tempo, entusiasmado pelos ideais de Prodhon e pelo que se vivia na capital parisiense. Quando regressa a Lisboa, leva o ideal socialista ainda mais longe e atua junto do proletariado na defesa das ideias que tinha adquirido.

Em 1871, está por detrás das Conferências do Casino, onde participam vários nomes da Geração de 70. Antero de Quental abre o evento com “O Espírito das Conferências” e, dias depois, apresenta as suas “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, hoje famosas. Antes da sexta conferência, o evento é proibido pelas autoridades governamentais, o que só alimenta o lado mais político de Antero. É um dos membros fundadores do Partido Socialista Português e do jornal O Pensamento Social, como o seu amigo José Fontana.

Contudo, a força e luta pela conquista e mudança não duraram para sempre, e os últimos anos de Antero são marcados pela doença e, consequentemente, por uma forte crise existencial e um ceticismo em relação a tudo que houvera até então defendido. O escritor abandona o realismo e entra numa fase mais filosófica e espiritual que o leva a publicar uma segunda edição das Odes Modernas, menos revolucionária.

A angústia que o levou à morte

Os últimos anos da vida de Antero de Quental são marcados por uma forte degradação da sua saúde mental, com uma grave doença nervosa que se manifesta a partir de 1873. A situação agrava-se com o falecimento dos pais, após os quais Antero toma duas decisões que mudam o rumo da sua vida: adota as filhas de um antigo colega de Coimbra, Germano Meireles, e isola-se em Vila do Conde, na casa que é hoje um museu.

Em 1891, atormentado pela doença e pelo isolamento em que vivia, o poeta acaba por cometer suicídio com um tiro na cabeça em Ponta Delgada, lugar onde havia nascido. Como lembra Ana Maria Almeida Martins, do Instituto Camões, Antero “havia escrito na carta autobiográfica enviada a Wilhelm Storck, o tradutor alemão dos Sonetos, em Maio de 1887: «Morrerei, depois de uma vida moralmente tão agitada e dolorosa, na placidez de pensamentos tão irmãos das mais íntimas aspirações da alma humana e, como diziam os antigos, na paz do Senhor – Assim o espero»”.

O suicídio de Antero de Quintal é até hoje alvo de vários estudos e leituras, a morte precoce de um homem de ideias fortes, que lutou contra pensamentos e valores instituídos na sociedade, e que nos deixou uma obra incrível que nos relembra da importância de pensar e lutar pela mudança, e cujo legado é melhor resumido por estas palavras de Fernando Pessoa em 1915, numa carta escrita em inglês para William Bentley (reunida em Correspondências – Volume I):

“Propriamente falando, não houve literatura portuguesa antes de Antero de Quental;
antes dele houve ou uma preparação para a literatura futura,
ou literatura estrangeira escrita em língua portuguesa.”