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Fotografia: NBC

Crítica. Brooklyn Nine-Nine despede-se com introspetiva

A última temporada deixa-nos exatamente onde deve. Menos seria um vazio. Mais seria o caminho para a série se perder na sua mensagem.

O primeiro episódio da oitava e última temporada de Brooklyn Nine-Nine estreia esta quarta-feira, dia 8 de setembro na televisão portuguesa. A série de comédia focada numa esquadra da polícia nova-iorquina regressou a meio de agosto deste ano, após vários episódios reescritos e com a promessa de um foco distinto daquilo que deve ser o papel das forças policiais no mundo.

*O texto que se segue contém spoilers da oitava parte de Brooklyn Nine-Nine*
Melissa Fumero, Terry Crews e Andre Braugher durante a produção desta temporada. | Fotografia: Twitter

Fazer uma temporada de uma série de comédia acerca da vida de polícias parece quase irónico neste momento. Mesmo tendo passado um ano desde o acontecimento que despoletou a questão (que já merece debate há muito tempo) da brutalidade policial, a memória continua demasiado fresca e, pior, as mudanças ainda não foram feitas.

Junho de 2020 marcou o mundo, na realidade e na ficção. Para várias séries focadas na daily life das forças policiais, esta marca foi um ponto final: séries como Cops ou Live PD foram imediatamente canceladas.

O mesmo destino não se aplicou a Brooklyn Nine-Nine. Ainda no mês que marcou o homicídio de George Floyd, Terry Crews (sargento Terry Jeffords na série) admitiu que quatro episódios da nova temporada teriam guiões totalmente distintos dos inicialmente previstos. A série quis adotar um novo rumo – a abordagem do papel que os polícias “bons” têm neste cenário e que mudança podem estes representar num sistema corrupto.

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Peralta e Boyle executam o high-five perfeito para o distanciamento social. | Fotografia: Reprodução/NBC

Foi exatamente isso que o primeiro episódio desta temporada, que encerra a partilha dos dilemas de Jake Peralta (Andy Samberg) e os seus colegas de trabalho, procurou explorar. Sem esquecer, de todo, a menção honrosa ao outro assunto do ano: a pandemia de Covid-19, que obrigou a equipa a interromper as gravações da temporada durante uns tempos.

O pré-junho de 2020

Brooklyn Nine-Nine é admitida como uma série de comédia, o que não invalida que explore assuntos sérios sem os tornar numa piada de circunstância. Aliás, na opinião de vários fãs de sitcoms, a chapada de luva branca” é maior quando nos apercebemos que nos estamos a rir de algo de que nunca nos devíamos ter rido, e Brooklyn Nine-Nine é capaz de ser quem nos dá essa chapada.

Ao longo das anteriores sete temporadas, a trama demonstrou maioritariamente o dia-a-dia do peculiar detetive Jake Peralta, dando sempre o espaço devido a todas as outras personagens para mostrarem quem são e por que motivo ali estão. O elenco foi capaz de nos colocar diante de uma impressionante diversidade, não expectável numa série cujo tema central é uma força policial.

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Capitão Holt no seu escritório. | Fotografia: Reprodução

Começando pelo nerd de ascendência judaica já referido, passamos para duas detetives de ascendência latina (sendo que os hispânicos representam cerca de 19% da população total dos Estados Unidos, de acordo com os censos realizados em 2020), Amy Santiago (Melissa Fumero) e Rosa Diaz (Stephanie Beatriz). De destacar que a última não só é uma mulher hispânica, como é uma mulher bissexual, o que soma à representação LGBTQ+, onde também temos o Capitão Raymond Holt (Andre Braugher), um homem negro e homossexual, que viu as duas características representar entraves à carreira.

Brooklyn Nine-Nine explorou as diferenças e semelhanças das personagens com a utilização de uma comédia não ofensiva (conceito que parece não caber na cabeça de vários comediantes portugueses, já agora). É claro que tal só é possível quando sabemos perceber qual é o limite daquilo que se pode usar como punch line – às vezes recorrendo a humor autodepreciativo (embora isso seja mais uma coisa à Charles Boyle, o amoroso, estranho e apaixonado-pelo-Peralta-como-melhor-amigo detetive, representado por Joe Lo Truglio).

A esquadra 99 da NYPD parece ser ou uma utopia, ou o futuro – deste lado, preferimos acreditar no segundo. Perdoem-me a referência, mas a personagem Gina Linetti (Chelsea Peretti) é o mais próximo que consigo arranjar para definir o conceito cunhado pela Dua Lipa de “future nostalgia”.

Independentemente de ficção apenas ou realidade iminente, continuamos a aceitá-lo de bom grado. Tudo porque nos dá, no mínimo, alguma esperança de que as forças de segurança não sejam assim para sempre (neste caso específico, reportando aos problemas da polícia norte-americana, sobre a qual a série se baseia).

O pós-junho 2020

Sabemos que vários episódios da oitava temporada foram reescritos e, embora desejosos de poder ter visto aquilo que viria, sabemos que não é o momento. O tom cómico cai e o sit também, logo após a abertura. A nine-nine não é a mesma e a pandemia não é o único motivo.

Há várias considerações a fazer acerca do papel que cada um desempenha neste episódio inicial que, não sendo o único a abordar o tema, é aquele em que percebemos de imediato como a direção da série mudou. Esta é a última temporada de Brooklyn Nine-Nine, tem menos episódios do que o costume e fecha exatamente onde e como deve: com a perceção do que foi e representou durante anos na televisão nacional e internacional, por vezes passando por apologista das forças policiais, mesmo quando estas não estão corretas.

Daí a abordagem do tema nesta última temporada, embora circunstancial, ser tão importante para que o grupo de detetives deixe a sua marca no mundo televisivo. Preferencialmente, uma marca positiva.

Rosa Diaz é a primeira personagem acerca da qual são introduzidas alterações diretamente relacionadas com os eventos do último ano. A detetive deixou o cargo na esquadra ao entender não ser capaz de ajudar as vítimas destes problemas enquanto está dentro do sistema e enquanto é parte do problema.

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A Capitã Lamazar (Rebecca Wisocky), da 74, também jura que é uma polícia boa. | Imagem: NBC

Do outro lado do espectro, Peralta tenta provar à ex-colega e parceira de todas as horas que é possível ser “um polícia bom, mas bom mesmo, não daqueles polícias que são maus e dizem que são bons”. É a perceção de que isso não é possível, e de que mesmo alguns dos “polícias bons” fazem cedências pela excessiva burocracia, corrupção e exigências, que faz com que não abandonemos a temporada logo no início: é realista.

Enquanto os dois detetives se concentram na tentativa de ajudar (mais) uma mulher negra agredida por dois agentes na rua, Boyle está num dilema introspetivo e representa na perfeição aquilo que muito se tem discutido nos últimos meses: o ativismo performativo.

O Sargento Jeffords é quem Boyle escolhe para, de alguma forma, “compensar” por todos os males que as pessoas negras norte-americanas passaram ao longo dos séculos (inclusive com  uma compensação monetária de dez mil dólares por acidente. Oh, Boyle, Boyle, dinheiro não compra tudo!). Esta representação atribuída a Boyle é uma chamada de atenção bastante direta a todos nós e, novamente, cumpre o serviço da chapada de luva brancaporque é que nos estamos a rir de Boyle quando nós somos diariamente, nas redes sociais, esta pessoa?

Já no escritório principal do piso, o capitão da nine-nine lida com um desgosto que, característico a Holt, não é transparente (apenas para Amy, que conhece o chefe melhor do que ninguém ali dentro). O racismo sistémico dentro dos órgãos policiais é prejudicial para os civis, mas não significa que o capitão de uma esquadra da polícia lhe possa escapar – o medo da pandemia, somado ao medo pela sua vida por ser simultaneamente uma vítima de racismo e parte do sistema que perpetua essa discriminação fez com que a sua vida pessoal sofresse em detrimento da profissional. Embora de forma bastante distinta, compreendemos como a vida pessoal perdeu espaço no último ano.

All Cops Are Bastards? Ou há mesmo “the good ones”?

A questão pode e deve colocar-se, mas a resposta não está em Brooklyn Nine-Nine, uma série ficcional cujo propósito foi, até agora, fazer comédia de situação. Não há muito que um elenco e uma produção possam representar, com a devida seriedade, do mundo real e de como as mudanças serão feitas. Mais importante do que isso, não é essa a tarefa que lhes compete (embora, aqui entre nós, não nos queixaríamos se trocassem o governo pela equipa da 99.)

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O sindicalista Frank O’Sullivan (protagonizado por John C. McGinley) é um dos problemas com os quais o elenco lida. | Imagem: NBC

A trama começa a despedida com uma reflexão pertinente e, mesmo que nos deixe tão cedo, deixa-nos exatamente onde deve. Menos seria um vazio. Mais seria o caminho para a série se perder na sua mensagem.

Brooklyn Nine-Nine tem a estreia da oitava temporada em Portugal marcada para esta quarta-feira (8), às 22h10, no canal TVCine Emotion. A parte final conta com dez episódios.

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