La Casa de Papel 5 Pt1 Netflix
Fotografia: Netflix/Divulgação

Crítica. ‘La Casa de Papel’ não surpreende, à exceção de final explosivo

Cinco novos episódios antecedem o início do fim da aventura de um dos mais famosos grupos de ladrões

O volume 1 da última temporada de La Casa de Papel chegou à Netflix esta sexta-feira, dia 3 de setembro. Cinco novos episódios antecedem o início do fim da aventura de um dos mais famosos grupos de ladrões do streaming. No entanto, à exceção de um final explosivo e inesperado, a nova parte pouco de novo apresenta, assemelhando-se mais a um déjà vu das primeiras temporadas da série espanhola.

*O texto que se segue contém spoilers da quinta parte de La Casa de Papel*
La Casa de Papel 5 Pt1 Netflix
Fotografia: Netflix/Divulgação

A nova temporada da trama criada por Álex Pina inicia com um recuo que contextualiza o que vai passar-se de seguida. Por um lado, Lisboa (Itziar Ituño) é retirada da custódia da polícia e infiltrada com sucesso no Banco de Espanha, algo que traz esperança ao grupo. Por outro, a insistente Alicia Sierra (Najwa Nimri) descobre o esconderijo do Professor (Álvaro Morte), um recuo no jogo de xadrez que o deixam a ele e ao plano do assalto entre a espada e a parede. A única coisa que faltava saber era o plano da inspetora com a captura do cérebro da operação.

Uma linha de pensamento repetitiva

Apesar de não se conhecerem na totalidade os planos de Alicia, que também ela se encontra entre a espada e a parede desde que a sua conduta foi revelada ao país, não seria difícil de adivinhar o que estava para vir – e veio. Com um nível de astúcia equiparado ao nível de loucura que possui, a inspetora rapidamente se encarga de tentar descobrir o plano do grupo para retirar o ouro do Banco de Espanha e não demora a perceber os passos que vão tomar, deitando por terra a ideia de retirada do ouro.

Para além disso, como já era de desconfiar desde a temporada anterior, a inspetora não demora a gabar-se da sua conquista. Como forma de se precaver contra qualquer tentativa da polícia de obter os louros pela captura do Professor, protege-se com a gravação de um vídeo em que obriga o refém a especificar que foi apanhado por Alicia Sierra.

No entanto, ainda a nova parte não tinha começado e já sabíamos que, se ainda era possível a equipa obter sucesso, precisava do “pai da operação” e, para isso, também de Sierra. A partir daqui, a história apenas se torna repetitiva: o Coronel Luis Tamayo (Fernando Cayo) fabrica provas contra a polícia, que a tornam a culpada de todas as más ações da operação, e Alicia é obrigada a procurar ajuda na pessoa que tornou refém. Parece familiar?

Por outro lado, todos sabíamos que, sendo esta série La Casa de Papel, a gravidez da inspetora não podia ser um acaso. Para além disso, muitas eram as teorias de que tal seria mesmo a chave para virar o jogo entre Sierra e o Professor. Sem surpresas, foi exatamente isso que se confirmou. Numa altura em que a mulher tinha tudo para mudar as regras a seu favor, depois de ter apanhado também dois dos braços direito do refém, acontece-lhe aquilo que ela menos desejava: rebentam-lhe as águas. Deste modo, gera-se aqui uma analogia algo contraditória: uma mulher refugiada num local escuro, numa altura em que o próprio bando vive momentos sombrios, a dar à luz, um momento que costuma ser de esperança e brilho. Apesar de tudo, o momento não traz nada de novo.

La Casa de Papel T5 Netflix
Fotografia: Netflix/Divulgação

Mas não é só no que toca a Alicia Sierra que a linha de pensamento se torna repetitiva. De facto, na sua maioria, a nova parte parece um autêntico déjà vu daquilo que foi o início da série de Álex Pina, com o assalto à Casa da Moeda. Voltamos a ter tentativas de revolta falhadas dos reféns, liderados por Arturo Román (Enrique Arce), planos para enganar a polícia no telhado do edifício, aproveitando os reféns mascarados, e planos completamente extraordinários e quase irrealistas para os driblar.

Quanto à parte mais técnica, só uma coisa de novo se destaca: todos os planos do novo volume parecem bem mais escuros do que aquilo que se via anteriormente, talvez para ilustrar exatamente a situação sombria em que a equipa se encontra. Não se equipara, como é óbvio, a uma escuridão extrema ao estilo Game of Thrones, mas para os mais atentos a diferença acaba por transparecer. Noutro aspeto, os throwbacks ao passado dos personagens não são algo estranho na narrativa de La Casa de Papel. Contudo, na nova parte parecem aparecer em maior quantidade, por vezes sem que se perceba a razão para tal ou o seu sentido. É de esperar que venham a ser importantes no segundo volume.

Pontas soltas por ligar no segundo volume

Já é habitual que Álex Pina deixe sempre a narrativa em suspense no final da temporada, o que costuma abrir o apetite dos fãs para aguardarem de forma ansiosa pela nova parte, que vão devorar mal estreie. Porém, no meio de tantos throwbacks sem razão aparente e vontade de adensar a guerra e a confusão, as pontas soltas só somaram neste início da quinta temporada.

Em primeiro lugar, é de destacar um dos retornos mais aguardados nesta quinta temporada: a continuação dos throwbacks ao passado de Berlim (Pedro Alonso), a razão por detrás do presente assalto. Desde a primeira temporada de La Casa de Papel, não demorou muito a que o personagem se tornasse um dos mais acarinhados pelo público.

A grande questão que se levanta é que, até ao momento, ainda não foi possível perceber o sentido do regresso ao passado do irmão do Professor, onde o grande foco é o filho, Rafael. Será de esperar que a personagem interpretada por Patrick Criado venha a ser importante para o desfecho da história, sobre a ameaça de, por outro lado, se tornar uma desilusão – desilusão apenas, porque uma perda de tempo, nunca, tratando-se de Berlim.

A segunda ponta solta passa facilmente despercebida, mas pode vir a alterar fortemente o rumo dos acontecimentos. No decorrer dos últimos minutos do quinto episódio, no meio da extrema confusão que reina, Sierra surge abalada no esconderijo do professor e, na deslocação à casa de banho, agarra num alicate de cutículas que esconde e leva consigo. A verdade é que a inspetora nunca pareceu tão fácil de vergar como Raquel se demonstrou, nem parece estar totalmente contente com a amizade que parece começar a formar com o grupo, mas falta perceber se realmente terá a capacidade para ainda voltar a pôr em causa todo o plano.

A inconsistência de Estocolmo e de Gandía

Estocolmo sempre foi uma personagem que, apesar de determinada e facilmente adorada, revelou vestígios de alguma inconsistência como membro do grupo de ladrões. De recordar que a personagem interpretada por Esther Acebo apareceu logo na primeira temporada como secretária e amante de Arturo Román e, durante o assalto, se apaixona repentinamente por Denver (Jaime Lorente).

Depois da saída livre da Casa da Moeda, Mónica é já parte do grupo de ladrões. Contudo, a inconsistência da personagem começa a notar-se no segundo assalto, com a entrada de Arturo no Banco Central. Quando achamos que já não há volta a dar a Estocolmo, a mulher surpreende e, num ato de loucura e inconsciência, acaba por salvar a vida a DenverLisboa e Palermo. No entanto, logo depois, a inconsistência regressa e, até ao final do novo volume, continua a dececionar. Ao fim ao cabo, fica a ideia de que realmente, como lhe diz o antigo amante, a personagem não tem a capacidade mental necessária para ser um membro do grupo.

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A segunda grande inconsistência e provavelmente o maior erro dos primeiros cinco episódios da quinta temporada é o fio condutor da história de Gandía (José Manuel Poga). Durante a quarta temporada, o chefe de segurança do Banco Central prende Tóquio e tortura-a. Apesar de apresentar sempre uma suposta posição de superioridade relativamente aos ladrões, o militar acaba extremamente ferido na zona da coluna.

Posto isto, Gandía é libertado do edifício através de negociações, por precisar de ser operado de urgência, de modo a não correr o risco de ficar com o braço paralisado. A verdade é que, depois de um curto avanço temporal, a personagem volta a entrar no banco com o exército, fardado e armado, para se juntar à guerra. Sendo a lesão tão grave, seria necessária uma explicação mais profunda sobre o que realmente aconteceu ao segurança.

O final inesperado de Tóquio

Se há algo de surpreendente na nova parte de La Casa de Papel, é sem dúvida tudo o que se liga com Tóquio. Ao longo de toda a série, parece que as coisas foram feitas para que adorássemos a personagem, por mais asneiras que fizesse, não fosse ela a narrar a história. No entanto, este novo volume parece ainda intensificar mais esse apelo aos sentimentos em relação à personagem – no final, entende-se a razão.

Logo no primeiro episódio, após o regresso de Lisboa ao Banco Central de Espanha e a captura do Professor por parte de Alicia Sierra, o foco não demora a prender-se à personagem de Úrsula Corberó e ao seu passado, já não totalmente desconhecido. No entanto, desta vez, com a chegada de Miguel Ángel Silvestre ao elenco, na pele de René, o primeiro amor da personagem. Através de vários recuos no tempo, conhecemos toda a história e entendemos que o novo volume de episódios é dedicado à jovem.

La Casa de Papel 5 Pt1 Netflix
Fotografia: Netflix/Divulgação

Na verdade, já todos esperavam que Tóquio fosse uma das personagens de topo na trama até ao final. A maioria das teorias de fãs indicava até que a personagem poderia vir a ser a única sobrevivente do último assalto, ou que de alguma forma acabaria por assumir tudo. Ou Álex Pina tinha tudo programado, ou numa das várias vezes que reescreveu o final da história decidiu fazer todas as teorias cair por terra.

Em cinco episódios que pouco de novo têm, tinha realmente de ser uma das personagens mais surpreendentes a trazer a surpresa aos fãs. O brilhantismo com que Silene Oliveira se despede da produção da Netflix será, sem dúvida, um dos melhores momentos da temporada final, que ainda esperamos que possa vir a trazer mais novidade e emoção nos cinco novos episódios e não apenas a repetição de uma mesma fórmula pelo conforto que é saber que vai vender.

Os últimos episódios de La Casa de Papel estreiam a 3 de dezembro na plataforma de streaming.

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