A Cidade dos Abismos
Imagem: Divulgação

IndieLisboa 2021. Cinema puramente experimental em ‘A Cidade dos Abismos’

'A Cidade dos Abismos' teve a sua estreia mundial na 18.ª edição do IndieLisboa

A Cidade dos Abismos, a primeira longa-metragem da dupla brasileira Priscyla Bettim e Renato Coelho, teve a sua estreia mundial no IndieLisboa na última quinta-feira, dia 26 de agosto. O filme, que contou com nova sessão no evento esta quinta-feira (2), está em competição na secção Silvestre do festival, categoria dedicada a “obras que rejeitam fórmulas consagradas”.

A Cidade dos Abismos, com uma forte componente experimental, é um cocktail molotov dos momentos mais expressivos do cinema brasileiro, do surrealismo de Mário Peixoto às cores saturadas da pornochanchada’ e da ação política ousada do Cinema Novo, dando aos protagonistas muitas vidas possíveis. O filme foi escrito por Priscyla Bettim, que se estreia na realização de longas-metragens ao lado de Renato Coelho, ambos doutorados em Multimédia.

Na trama, Maya (Sofia Riccardi) é acompanhada por Glória (Verónica Valenttino), a melhor amiga, a um consultório clandestino. Ambas mulheres trans, a primeira vai colocar silicone, mas uma chamada leva-a a mudar de ideias. Quando saem, é noite de Natal e chove. Refugiam-se num bar, cujo dono é um refugiado nigeriano chamado Kakule (Guylain Mukendi). Lá, refugia-se também Bia (Carolina Castanho), farta dos constantes desentendimentos com o namorado. É desta forma que os caminhos destas personagens se vão cruzar.

O filme inicia com duas mulheres a subirem a escadas de um prédio a meia luz. O elevador não funciona e tudo parece um pouco sinistro e à margem da lei. No entanto, não se percebe para onde as duas mulheres se estão a dirigir, nem com que propósito. O sentimento que esta cena desperta, de ambiguidade e um certo jogo com as expectativas do espectador, é o que se sente ao longo de todo o filme.

Para além disso, há uma constante oscilação entre a realidade e o sonho que, por momentos, nos faz parecer que estamos num filme de David Lynch, que até poderia ser interessante se não fosse tudo demasiado teatral, esotérico, misterioso, estranho e inquietante. O ponto forte do filme talvez seja o retrato de uma cidade de São Paulo fria, cruel, indiferente e marginalizada, na qual os protagonistas, que vivem à margem não por decisão própria, têm de se confrontar com a sua pequenez perante as instituições. Contudo, por vezes, o fio condutor da história perde-se com sequências demasiado lentas e demoradas, prolongando-se para lá do clímax emocional e terminando bem depois de cumprirem o seu “papel”.

Um outro ponto interessante é o contraste entre o dia e a noite que até determinado ponto faz sentido, uma vez a noite tem a capacidade de acentuar a paranoia e desconfiança sentida pelas personagens. Já as cenas durante o dia não fazem muito sentido e, sem acrescentar muito à narrativa, dão a sensação de que a longa-metragem é muito mais longa do que na realidade é. Isto mostra que a dupla de realizadores estava muito mais preocupada com a forma da obra do que com a narrativa.

A Cidade dos Abismos é uma homenagem a todos aqueles que são esquecidos, não só pelas instituições, como também pela restante sociedade e cuja a precariedade imposta não está relacionada com o seu valor enquanto seres humanos. No entanto, a história acaba por se perder com o excessivo experimentalismo envolvido.

A Cidade dos Abismos
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