MotelX 2021
Cartaz da 15.ª do MOTELX / Fotografia: MOTELX

MOTELX. João Monteiro: “É um género cíclico, sempre que há crises grandes ele ergue-se”

Falamos com os diretores e produtores do festival que regressa a Lisboa a 7 de setembro.

Em vésperas de voltar ao Cinema São Jorge mais uma edição do MOTELX, Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, que decorre entre os dias 7 e 13 de setembro, o Espalha-Factos esteve à conversa com João Monteiro e Pedro Souto, os diretores que há 15 anos tentam normalizar e dar espaço ao género em Portugal. Tentamos perceber como tem evoluído esta aceitação e de que forma o festival pode ou não ter contribuído para isso.

O género de terror está associado a um nicho, a um pequeno grupo de fãs, mas esta tendência tem se alterado. Para João Monteiro, o segredo está agora “mais a nível dos criadores”. “Nos últimos 20 anos, o cinema de terror tem andado numa espécie de diálogo surdo entre os fãs que fazem os filmes e os fãs que os vão receber e agora é outra gente, que não cresceu a ver filmes de terror, mas de repente descobriu que são o maior veículo para expressar as suas ideias. Agora temos esse melhor dos dois mundos”, explica um dos diretores do festival.

A questão que então se coloca é se, de alguma forma, o MOTELX tem contribuído para este aumento do interesse no género nos últimos anos em Portugal. Pedro Souto revela que, logo desde o início, o festival, “enquanto espaço dedicado só a pensar ou a viver o cinema de terror, foi já um primeiro passo para essa questão”. “Na altura havia sempre uma espécie de timidez, tinhas um grupo de amigos e um dizia – ah eu gosto de filmes de terror – e de repente junta-se toda a gente no MOTELX e começam esses fãs a trazer esses amigos que não eram tão fãs e passaram a ser, e a conhecer. Era um microcosmos que agora se espalhou”, acrescenta.

Um Fio de Baba Escarlate é um dos trabalhos que comprova a crescente importância do género em Portugal, ao arrecadar o Prémio MOTELX – Melhor Longa de Terror Europeia, bem como um Méliès d’argent. Realizado por Carlos Conceição, o filme acompanha a “pacata vida de um serial killer em Lisboa” e torna-se na quarta produção nacional a entrar na grande competição do festival.

No que toca às curtas entregues para candidatura ao festival, os programadores dizem não ter sentido grande diferença no número recebido. Este ano, o Prémio de Melhor Curta é de cinco mil euros, o maior atribuído a curtas em território nacional. Com o apoio da Santa Casa da Misericórdia, esta secção procura “a promoção, incentivo e exibição de filmes de terror produzidos em Portugal”.

Segundo os diretores, persiste a ideia generalizada de que também a pandemia contribuiu para uma maior procura pelo género. “Não só nos streamings, mas mesmo nas salas, os filmes de terror foram aqueles que tiveram maior sucesso quando elas abriram outra vez e até já ganharam festivais de classe A”, confirma João Monteiro.

Representação feminina e a Guerra Colonial são destaque no festival

A 15.ª edição do evento pauta-se ainda por uma outra diferença, que reside no facto de dar destaque à representação feminina no género. Como apontado na divulgação do festival, “as grandes personagens icónicas do cinema de terror têm uma característica comum difícil de não reconhecer: são todas representações masculinas. Lembremo-nos do período clássico, com monstros sobrenaturais como Drácula ou Frankenstein, até ao período moderno, inaugurado por Norman Bates, passando mais tarde por Freddy Krueger, Hannibal Lecter, chegando ao contemporâneo Jigsaw”.

Para João Monteiro, este foco e esta procura pela mulher como criadora e como protagonista de filmes de terror tem lugar agora devido aos filmes com que começaram a delinear a programação. “Os filmes que começamos a ver para a programação normal acabavam por dizer exatamente isso”, que a mulher tem um papel importante, reconhece. O diretor destaca, neste contexto, Black Medusa, “um filme realizado por dois homens e um filme ultra feminista” e em que está presente a mulher enquanto figura central.

A partir desta ideia, os programadores começaram a perguntar-se porque é que não estavam habituados a ver filmes de terror com protagonistas femininas que não sejam a vítima. “Há os rape and revenge, mas não há tanto o de serial killer – e em masculino há ao pontapé, há inclusive cultos de adoração para serial killers masculinos. Isso tem a ver com a questão da representação”. Deste modo, por não ser normal ver uma mulher neste papel, o objetivo da nova edição é o de provocar “uma perturbação do olhar, que faz pensar o que são os últimos 100 anos, e permitir ao público pensar sobre isso também, porque está relacionado com o próprio género enquanto testemunha do momento”.

Ainda na secção que dá protagonismo à figura feminina, incluem-se “dois filmes realizados por homens precisamente para perceber também o ponto de vista feminino através de um realizador homem”, explica Pedro Souto. Tratam-se das longas-metragens, Audition, de Takashi Miike, e Serial Mom, de John Waters.

 

Outro tema em destaque na programação do MOTELX é o da Guerra Colonial, por ocasião dos 60 anos do início do conflito armado entre Portugal e as ex-colónias, que decorreu entre 1961 e 1974. Os dois filmes de Joaquim Leitão sobre a guerra, Inferno (1999) e 20,13 Purgatório (2006), estão enquadrados na secção Quarto Perdido, dedicada a clássicos.

Os programadores esperam que esta projeção em sala, em filme e num ambiente de festival deixe os espectadores surpreendidos. João Monteiro destaca “Purgatório, um filme muito menos visto que o Inferno, é o que mais toca o terror e então é capaz de ser ainda mais raro porque é um filme que se passa durante a guerra. Não é um tema fácil”.

Joaquim Leitão e Tino Navarro vão estar presentes numa conversa, onde se vai poder perceber também quais são, na verdade, as dificuldades da representação deste tema em produtos nacionais. Para Pedro, a questão não pode ficar só em não haver recetividade a este tema, ainda muito recente e traumático. Acredita, por outro lado, que temos de pensar: “Será que também é devido ao dinheiro de um filme de guerra que é mais caro? Nós desconfiamos mais da outra razão por ser um tema tabu, mas isso vai ser interessante discutir”.

As motivações passados 15 anos

Com o MOTELX a atingir a 15.ª edição, é importante perceber as motivações que fazem com que Pedro Souto e João Monteiro continuem a lutar para normalizar e dar espaço ao género em Portugal. O primeiro destaca, em primeiro lugar, “a questão: será que existe cinema experimental de terror? Será que existe em quantidade suficiente para fazer um programa especial sobre ele?”. O diretor sublinha ainda que, este foco, para além de dar espaço à visão de novos autores, ajuda a “desafiar o espectador e quase recuperar aquela coisa muito física de sentirmos adrenalina, medo”.

No entanto, Pedro faz uma ressalva: “Com o passar do tempo é normal que comecem a sentir menos medo. O cinema experimental pode acrescentar aqui uma segunda hipótese, porque pode entrar em excessos de coisas não narrativas, propostas visuais muito bizarras ou surrealistas e é um caminho muito interessante e, dali, de certeza que vão sair novos cineastas”. Bertrand Mandico é uma das provas do que defende o programador, autor que este ano tem a longa-metragem After Blue na secção Serviço de Quarto.

Por sua vez, João Monteiro entusiasma-se com “o passado e fazer estas sessões especiais, mostrar os filmes noutro contexto e olhar os filmes sobre novas perspetivas”. “Há filmes que tem qualquer coisa que permanece”, afirma.

Ao todo são sete dias e mais de 70 filmes que vão fazer parte do MOTELX, Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, de 7 a 13 de setembro, no Cinema São Jorge, em Lisboa. Para aceder às sessões não é necessário certificado digital, mas é obrigatório o uso de máscara e a lotação das salas estará de acordo com as normas da DGS em vigor.

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