Shiva Baby
Fotografia: Divulgação/ IMDb

IndieLisboa2021. O sofrimento da entrada na vida adulta em ‘Shiva Baby’

Shiva Baby, a primeira longa-metragem da jovem canadiense Emma Seligman, estreou esta quarta-feira (25) no IndieLisboa. O filme faz parte da Competição Internacional do festival, secção composta por “primeiras, segundas ou terceiras obras nunca antes mostradas em Portugal”.

Desenvolvido a partir de uma curta-metragem, Emma Seligman inspirou-se nas suas próprias experiências para escrever Shiva Baby, em entrevistas a jovem cineasta afirmou que o que a inspirou foi “contar a história de uma jovem mulher que tem de se confrontar ou encarar as diferentes versões de si mesma que foi pressionada a ser”. O trabalho de estreia da realizadora e argumentista foi lançado o ano passado e esteve em exibição no Festival de Toronto e no South by Southwest.

O filme retrata um dia na vida da jovem Danielle (Rachel Sennott), quando vai com os pais a uma shiva (período de uma semana de luto da religião judaica e também uma oportunidade para homenagear quem faleceu). Lá ela vê-se confrontada com uma ex-namorada, um sugar daddy secreto, que vem acompanhado pela mulher e a filha bebé, e múltiplos parentes bisbilhoteiros.

Quem é que nunca desejou fugir das típicas reuniões familiares, onde todos fazem imensas perguntas constrangedoras? Pois é isso mesmo que se passa nesta comédia ácida. A partir  do momento em que entra na casa onde a cerimónia está a acontecer, a protagonista parece que está num jogo, pois tem de enfrentar um crescente de desafios passando de fase em fase até conseguir chegar ao final “viva”.

Danielle tem de lidar com as expectativas dos pais, com as perguntas dos familiares em relação à sua vida pessoal e profissional ou até mesmo sobre os seus hábitos alimentares, com a ex-namorada Maya (Molly Gordon), com a qual nitidamente ainda tem coisas para resolver, e ainda com o sugar Daddy secreto e que ela deseja que assim continue, Max (Danny Deferrari) com quem tinha estado nessa manhã e descobre que é amigo dos seus pais e que para além disso, é casado e tem um filha bebé.

Shiva Baby
Fotografia: Divulgação/ IMDb

Se a ti só te apetece fugir imagina à protagonista. Seligman é genial a transmitir a sensação de sufoco, pressão e tensão que a protagonista está a viver. Com uma banda sonora de thriller misturada pelas muitíssimas conversas paralelas que acontecem durante aquela cerimónia, o caos é absoluto.

“Quis prender o público sem entediar ninguém por estarmos sempre no mesmo local. Retratei a ansiedade dela e quis explodir isso na tela com a música”, afirma a realizadora.

A ação do filme acontece quase toda num único espaço, contribuindo também para o sufoco sentido pela personagem de Rachel. Neste tipo de filme de um único cenário, a condução da câmara depende do ritmo da montagem para funcionar, e neste filme isso é feito de forma quase perfeita, transmitindo para o espetador a sensação de perigo que o segredo da protagonista seja descoberto, enquanto ela se passeia pela casa lotada.

Durante a narrativa vários temas contemporâneos são abordados, como sexualidade, feminismo, distúrbios alimentares, questões de género, mercado de trabalho, morte, maternidade, adultério, entre outros. Estes assuntos são apresentados como uma avalanche e ao mesmo tempo, nunca de forma aprofundada e sem possibilidade de reflexão. E esta é precisamente a intenção da realizadora para nos sentirmos assoberbados, chegando mesmo a experiência cinematográfica a ser cansativa e desgastante.

Shiva Baby é um filme sobre a passagem para a idade adulta e tudo o que isso implica, como lidar com as expectativas que temos para nós próprios, mas principalmente lidar com as expectativas que os outros, em particular os pais, têm para nós, a que por vezes nos sentimos quase obrigados a corresponder e nos levam a uma sensação de perda de identidade, de não sabermos o nosso lugar no mundo, quase aflitiva. Mas o filme reforça que, embora por vezes não tenhamos a possibilidade de fazer tudo o que aspiramos, temos sempre a liberdade para descobrir quem somos e o que queremos.

O filme irá ser exibido novamente no dia 2 de setembro, no grande auditório da Culturgest.

Shiva Baby
7