Candyman
Candyman | Fonte: NOS Divulgação

‘Candyman’ é um exercício brutal de cinematografia e uma lição sobre opressão

Candyman, um dos mais ansiados filmes de 2021 chegou, finalmente, aos cinemas portugueses no dia 26 de agosto.

Com realização de Nia DaCosta (Little Woods) e argumento e produção de Jordan Peele, que ganhou êxito enquanto realizador com os clássicos instantâneos Nós e FogeCandyman é uma versão contemporânea do clássico de culto dos anos 1990, o Candyman original. Yahya Abdul-Mateen II (nomeado para o Emmy de Melhor Ator Secundário pela minissérie Watchmen) protagoniza a o mito de Candyman, desta feita contado através de uma lente precisa e necessária, reveladora dos tempos em que vivemos e onde o terror não se cinge ao domínio da ficção.

A ação do Candyman de 1992 passa-se em Cabrini-Green, um bairro social em Chicago, onde toda a mitologia em que é envolta esta personagem icónica começou a desenvolver-se. É recomendado que esse filme não esteja em falta a ver o Candyman de 2021, sendo que o cerne do que se passa no filme original acaba por ser recuperado, de maneira inteligente e criativa, para que os nós da história se desenlacem agora. Em 2021, Cabrini-Green é considerada uma zona “chique” da cidade, com galerias de arte e bons restaurantes. A gentrificação tomou este bairro de assalto e grande parte dele está irreconhecível.

Yahya Abdul-Mateen II é Anthony McCoy, artista visual que passa por uma espécie de bloqueio criativo. Mudou-se recentemente com a sua namorada Brianna (Teyonah Paris), uma curadora de arte, para o antigo bairro social. Instigado pelo irmão de Brianna, que conta a história Cabrini-Green, é despertada em Tony uma curiosidade intensa. Segue-se muita pesquisa sobre o passado da região e, finalmente, Tony volta a pintar.

O que ele descobre desvenda décadas acumuladas de uma mitologia baseada em opressão e violência étnica, dando vida à lenda de Candyman. O que se segue é Tony numa espiral psicótica ornamentada por obras de arte produzidas por ele, com base nesta lenda urbana. A sua obsessão por Candyman causa pânico às pessoas à sua volta, que começam a questionar se este mito não será mesmo realidade.

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Yahya Abul-Mateen II | Fonte: NOS Divulgação

Candyman é um exercício brutal de cinematografia e uma lição sobre opressão secular, mas há detalhes narrativos que se escapam

A narrativa de Candyman é envolvente e a sua importância irrefutável. A sua construção é exímia e o ambiente em que estamos envoltos durante as quase duas horas de filme é absolutamente cativante. Mas o filme peca, em alguns momentos, por deixar para trás alguns elementos que poderiam ser essenciais para tornar a história ainda mais rica. Passamos a conhecer um trauma de infância de Brianna, revelado numa sequência em flashback, que poderia explicar a sua inserção no mundo das artes e a sua aversão por lendas urbanas; é-nos revelado um grande segredo do passado de Tony que, apesar de se perceber o porquê da sua subtileza, poderia ser expandida para que a história se tornasse ainda mais impactante.

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A brilhante cinematografia de Candyman | Fonte: Nos Divulgação

O grande trunfo da história está na beleza da cinematografia. Há cenas de cortar a respiração – reinventa-se a maneira de contar uma história macabra e gráfica através do recurso a planos gerais e movimentos de câmara que guiam os olhos. Os décors são igualmente fabulosos e a maioria dos planos são verdadeiras obra de arte. Outra faceta onde o filme ganha outra dimensão é, precisamente, a crítica social premente no filme. Jordan Peele, argumentista e produtor deste Candyman, é conhecido por criar uma simbiose entre ficção e realidade nos seus filmes, inserindo neles uma componente de violência étnico-racial.

Jordan Peele não é moralista, usa antes os seus filmes como veículo para expor séculos de supremacia branca e opressão direcionada à comunidade negra. Em Candyman, não é diferente: enquanto o primeiro filme acaba por se basear em estereótipos compactuados por uma grande camada da população americana (a menina branca indefesa e o homem negro viril), a versão contemporânea desprende-se desta lente, oferencendo antes uma lição sobre anos de violência direcionada a comunidades negras e desfavorecidas – neste âmbito, Candyman é menos subtil do que Foge ou Nós, mostrando a dura realidade da brutalidade policial sem qualquer pudor.

A magia do storytelling na criação de um mito

storytelling é outro ponto forte em Candyman, muito graças à realizadora Nia DaCosta. “Em Little Woods, Nia conseguiu brincar com a ideia de questões sociais de uma maneira incisiva, mas não-didática ao mesmo tempo, permitindo que o público se aproximasse de personagens em situações desesperantes. Ela acabou por ser a escolha perfeita para Candyman. A quantidade de vida que ela conseguiu incorporar, e a maneira como ela moldou o filme é fenomenal“, revela Win Rosenfeld, o outro argumentista de Candyman.

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Teyonah Paris e Nia DaCosta | Fonte: NOS Divulgação

Para Nia, não foi um desafio trabalhar com Jordan Peele: “Ele sabe trazer questões sociais ao de cima no género de terror como ninguém. Juntos, rompemos com convenções do que é o terror, do que significa, do porquê de ser importante“, sublinha.

storytelling presente Candyman serve-se deste mito urbano criado por uma comunidade desfavorecida – é assim que a grande maioria das lendas nasce. “As lendas podem dar às comunidades um mecanismo para enfrentar realidades que são demasiado duras para suportar. É uma maneira de lutar contra os terrores do dia-a-dia“, ressalta Nia DaCosta. É assim que nasce Candyman: através de uma necessidade de escape e de entretenimento para fazer face à brutalidade policial e ao racismo enfrentado em Cabrini-Green. Mas Candyman (2021) não é só isso. Há todo um mundo que se estende por trás da figura icónica, conseguido através de um storytelling fenomenal.

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‘Candyman’ é um exercício brutal de cinematografia e uma lição sobre opressão
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