Souvenir é um dos filmes apresentados no IndieJúnior 2021. Fotografia: D.R.

IndieLisboa. Questões de género e inclusão em destaque no IndieJúnior

Secção infantil foi a que mais sofreu com a pandemia, numa programação com muito a oferecer a miúdos e graúdos

Domingo, 22 agosto, 11 horas da manhã. Uma voz infantil de menina ecoa pela Sala Manoel de Oliveira, o salão por excelência do Cinema São Jorge: “Preparados para imaginar? Desliguem os telemóveis e fiquem em silêncio, a sessão vai começar“, pede, gentilmente, a voz sem corpo. O público reduzido da sessão cumpre com o pedido.

A programação de 2021 do IndieLisboa – Festival de Cinema Internacional continua a apostar no público infantil. O IndieJúnior foi a secção do festival mais prejudicada pela pandemia, que impediu que se cumprissem muitas das atividades planeadas para escolas. Já com 18 anos de existência, o festival não deixa a maioridade interferir na missão que desde início carrega: educar as crianças para o gosto pelo cinema.

A grande novidade da 18ª edição dedicada aos mais novos é a criação do cinema de colo, uma subsecção dedicada a bebés e crianças até aos 3 anos de idade, inédita em Lisboa. A programação deste ano conta ainda com mais de 40 filmes — de animação e não só —, oficinas, atividades para famílias e um debate sobre autismo e inclusão.

O cinema de colo é a grande novidade da 18ª edição do IndieJúnior. Fotografia: Divulgação

Hoje assistimos à seleção de curtas da subsecção Lugar das Memórias, dirigida a crianças com mais de 10 anos e respetivas famílias. São seis curtas-metragens, cinco das quais em cinema de animação, de uma seleção particularmente especial.

A atividade Eu Programo Cinema, organizada pelo festival com alunos do 6.º ano de escolas parceiras, foi uma das resistentes aos estragos da pandemia. Foram as crianças que ajudaram a escolher os filmes hoje apresentados.

Os Sapatos de Louis ajuda-nos a compreender a experiência de uma criança autista

O filme que origina o tema para o debate é o primeiro a surgir no ecrã. Os Sapatos de Louis, de uma equipa de animadores franceses, conta a história de uma criança autista, que tem de se apresentar aos colegas numa escola nova.

Louis faz-nos entrar dentro do seu palácio mental, onde tudo é meticulosamente organizado num caderno da escola com letra miudinha. “Não faz sentido olhar as pessoas nos olhos“, diz, a cabeça a apontar para baixo. É ele o narrador do próprio pensamento, para nos fazer entender um pouco melhor o que é viver na cabeça dele — e de uma criança com autismo.

O cenário é um mundo mágico e amoroso, com diferentes texturas, criadas pela profundidade tridimensional do digital, e rasgos abruptos de luz e cor. Da aventura, Louis extrai uma lição clara: “um molde é bom, mas só para os waffles!”. Na vida, temos de aceitar a diferença.

É muito importante [no IndieJúnior] mostrarmos temáticas que não tenham uma digestão fácil, que depois possam ser debatidas com professores e pais“, diz Jéssica Pestana, programadora da secção infantil do festival.

Com o cinema, temos este poder de nos pôr no lugar do outro. Como seria se fossemos nós? Esta questão da empatia é muito importante de trabalhar nas crianças”, acrescenta. Por isso, temas de inclusão são uma presença comum nesta edição, onde a componente lúdica não pode faltar. 

RaparigasRapazesmix e O Príncipe Adormecido colocam questões de género em cima da mesa

RaparigasRapazesmix, de Lara Aerts, é uma curta documental holandesa sobre a vida de uma criança intersexo — isto é, que nasceu com características sexuais femininas e masculinas —, contada na primeira pessoa. A protagonista, Wen Long (os pais referem-se a ela por pronomes femininos durante o filme), é uma criança feliz e integrada. Porém, muito consciente dos estereótipos de género que a rodeiam e que são atribuídos a meninas e meninos desde cedo.

Wen não se conforma com esta diferenciação rígida, seja num passeio reflexivo pela praia ou na reveladora ida a uma loja de brinquedos. Nem poderia ser de outra forma: quando as crianças são divididas em meninos e meninas, ela sente que não tem pertença.

Wen quer que toda a gente saiba o que significa ser intersexo, para não ter de estar sempre explicar. Para ela, não significa fazer parte de uma terceira categoria, mas ser ambos os sexos ao mesmo tempo e navegar cada um como alguém exterior. Uma missão que a realizadora leva à letra, ao deixá-la apresentar-nos o seu mundo. “Se és intersexo, escolhes se és rapaz ou rapariga. Não precisas, mas podes. Eu sou apenas eu!“, exclama Wen para a audiência.

A vertente formativa do festival não se esgota com RaparigasRapazesmix. Cultivar o gosto pelo cinema na infância passa por apresentar diferentes estéticas às crianças, mas também passar boas mensagens, garante Jéssica Pestana. Outro dos destaques da programação deste ano é O Princípe Adormecido, de Nicolas Bianco-Levrin, uma curta de animação na sessão para mais de 3 anos, onde é a princesa que resgata o príncipe.

IndieJúnior é a secção mais prejudicada pela pandemia

A secção do IndieLisboa mais atingida pela pandemia foi o IndieJúnior, garante a organização. As restrições limitaram severamente as atividades com as escolas, que se tiveram de adaptar. Em maio, ocorreu uma primeira mostra da programação nas escolas parceiras, mas teve de ocorrer online.

Quisemos manter este trabalho que fazemos há anos: há escolas que vem desde o início do festival, mas não é a mesma coisa, ver os filmes na escola ou ver os filmes em sala. E nós privilegiamos essa experiência de ver os filmes nas melhores condições possíveis“, lamenta Jéssica Pestana. 

A produção nacional também foi fortemente prejudicada. Embora os programadores tenham o cuidado de dar destaque ao cinema de animação nacional, este ano não há nenhuma curta portuguesa de animação na mostra infantil.

A pandemia é um empecilho, mas pode dar azo a impulsos criativos. E se Deus criasse o mundo no computador, em teletrabalho? Contos do multiverso, curta-metragem de animação dinamarquesa da subsecção Laços de Família (mais de 3 anos), é outro dos destaques da edição com que os pais se podem identificar. Deus tem de criar o mundo num programa parecido ao paint, enquanto é constantemente importunado por diabos e anjinhos que pedem a sua atenção.

O adiamento do festival para Agosto, em que as crianças estão de férias, impediu nova exibição junto do público escolar. Mas mantém-se as atividades para as famílias. A seguir à sessão onde será exibido Contos do Multiverso, no sábado, dia 4 de setembro, haverá um evento ao ar livre, no jardim do Palácio Galveias. O evento contará com a atuação ao vivo do coletivo Baileia, de música para crianças.

Diferentes plasticidades para educar o olhar

Afinal, o que é isto de cultivar o gosto pelo cinema? Como se introduzem diferentes estéticas às crianças? Qualquer que seja a idade do espectador, ver um filme de animação convida a sonhar. Mas há várias formas de plastificar esse sonho. O interesse está na diversidade de materiais usados, nas diferentes técnicas de animação e formas de contar histórias. E para despertar o gosto pelo artístico, é preciso expor as crianças à diferença, aponta Jéssica.

“Acho que as crianças hoje em dia estão muito habituadas a um ritmo de cinema diferente, que é o que está disponível nas salas mais comerciais — para mim não há mal nenhum isso, mas acho importante educarmos para outro tipo de cinema, outros ritmos, dar a conhecer o que se faz noutro tipo de países, outro tipo de animação, outras estéticas”, afirma a programadora. Propostas diversificadas que encontramos no IndieJúnior e nas curtas da sessão Lugares da Memória de hoje.

Orgiástico Hiper-Plástico, do dinamarquês Paul Bush, é um filme em stop motion (técnica de animação em que as imagens são captadas através de repetidas paragens e recomeços, para criar a ilusão de movimento em objetos inanimados) sem voz, nem narrativa. É uma confusão atordoante de cores e sons, feita com centenas de pequenos objetos de plástico, numa mensagem contra o desperdício.

No espetro oposto da velocidade imposta por Orgiástico Hiper-Plástico, Souvenir é uma lenta descida ao âmago da emoção, onde também se brinca com materiais e texturas. Uma carpete pode ser um campo de sonhos; recortes de papel, um grande mar azul. As personagens principais, um pai uma filha que ele deseja que nunca cresça, são bonecos de plasticina vestidos com tecido.

Souvenirs, lembranças, recuerdos. Estes são os objetos que nos avivam a memória, de viagens passadas ou momentos bem passados. No filme, são as caixinhas que acompanham o velho pai, perdido nos caminhos da saudade um sentimento tão português capturado pelas animadoras espanholas Cristina Vilches Estella e Paloma Canonica. É a plasticidade dos materiais que invoca a magia: uma linguagem universal que une idades numa história contada sem uma única palavra.

De pequenino se torce o pepino

O cinema de colo, para bebés e crianças até aos 3 anos, é a grande novidade da 18ª edição do festival lisboeta. “Ele nasce de uma necessidade, ou de uma perceção nossa de que não há muitas atividades para crianças até aos três anos, que não podem entrar numa sala de cinema“, explica Jéssica Pestana. O resultado são múltiplas sessões ao fim-de-semana, de vinte minutos cada, numa sala de cinema adaptada aos bebés.

Não se trata de uma sala de cinema convencional“, descreve a programadora. “Não há cadeiras, mas uma espécie de almofadas para os bebés e para os pais“. O som, a projeção e a cenografia em volta são adaptados, para criar um ambiente que se assemelha ao ar livre.

O que tentamos é que seja uma experiência sensorial. É um primeiro contacto com o cinema, mas não é o cinema convencional a que estamos habituados. O que queremos é com as cores, as luzes, o som e todos os elementos que fazem parte do cinema, criar o ambiente para esse primeiro contacto não oficial”, acrescenta.

O cinema de colo é a grande novidade da edição. Foto: Divulgação

Para o público do IndieJúnior em geral, o grande objetivo é dar a conhecer às crianças filmes a que, de outra forma, não teriam acesso. A formação de novos públicos faz-se com a criação do gosto. E a criação do gosto faz-se com o conhecimento de muitas coisas. Só ganhamos gosto tendo termo de comparação. Se só tivermos conhecimento de uma forma de fazer as coisas, não sabemos se gostamos ou não, porque não conhecemos”, explica Jéssica Pestana.

Para os jovens e adultos que se temem presos ao síndrome de Peter Pan, o conselho da organizadora é não desesperar. “Eu adoro animação! Se não trabalhasse para aqui, também vinha de penetra“. Os adultos também podem ver o IndieJúnior e cada vez parecem ser mais os que o fazem. Na cerimónia de abertura do IndieLisboa com a exibição de Summer of Soul, o diretor, Carlos Ramos, congratula haver cada vez mais “gente de vinte anos” interessada na vertente infantil.

Para miúdos e graúdos, temas como a inclusão, a aceitação e a diferença são transversais. Podes ver os horários da programação do IndieJúnior 2021 no site do festival.