IndieLisboa
Cerimónia de abertura IndieLisboa 2021 © Mariana Lambertini

IndieLisboa. Sessão de abertura apresenta ‘Summer of Soul’ e o festival de ’69 esquecido

A sessão de abertura da 18.ª edição do IndieLisboa teve lugar ontem no Cinema São Jorge.

Sábado (21) à noite, e a agitação está finalmente de volta à Avenida da Liberdade. Perto das 21h, já eram muitas as pessoas que chegavam ao Cinema São Jorge para a abertura do IndieLisboa – festival icónico da vida cultural lisboeta. A prová-lo estava uma Sala Manoel de Oliveira esgotada (com lotação adaptada às medidas em vigor), em pleno mês de agosto.

Mãos desinfetadas, temperatura medida à entrada do cinema, máscaras no rosto, salas a 50% e o festival atinge a maioridade em mais uma edição inevitavelmente marcada pelas restrições da pandemia.

As luzes apagam e no ecrã surge Mafalda Melo, diretora do festival, mãe há poucos dias e ausente fisicamente da cerimónia, mas sem deixar de dar o seu apoio e agradecimento. Ao palco da sala principal do Cinema São Jorge subiram a seguir os outros membros da direção, Carlos Ramos e Miguel Valverde, o único responsável presente em todas as edições.

Assumem as consequências e as dificuldades de realizar, mais uma vez, uma edição com uma logística mais complexa e mais imprevisível. Desejos para 2022? Que o festival possa ser novamente em abril e maio, como era habitual. “Esta edição foi difícil e fácil de construir ao mesmo tempo”, inicia Miguel Valverde.

Este ano, o destaque vai para Sarah Maldoror (1929-2020), na secção Retrospetiva, e para Camilo Restrepo, na Foco Silvestre. E foram estes os nomes mais ouvidos nesta primeira noite de um festival que se estende até 6 de setembro. Miguel Valverde ressalva que “Sarah é uma mulher cheia de poder, que fez muito pelas mulheres no cinema e na sociedade”, e tem aqui o seu trabalho destacado numa retrospetiva praticamente integral da sua obra, programada com a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema que, segundo os diretores do festival, está a gerar também muito interesse internacional.

A outra figura do 18.º Indie – Festival Internacional de Cinema é Camilo Restrepo, o realizador colombiano que acredita num cinema de emoções. Miguel Valverde sublinha que “a obra dos dois fazia sentido junta, que um fosse o foco e o outro, a perspetiva”.

Carlos Ramos elogiou o festival como generalista, sem preconceitos e amarras e lembrou a secção mais prejudicada pela pandemia: o Indie Junior. Com o impedimento de sessões durante o período escolar, há dois anos que falham as sessões para as escolas, que contavam, habitualmente, com cerca de 10 mil crianças, num projeto que é acima de tudo de “literacia para o cinema, com uma missão de formação”. Para provar a sua importância, Carlos Ramos sublinha que, agora, “temos jovens com 20 anos que começaram no Indie Junior e continuam a vir ao festival”.

Após a afirmação da importância deste acordar para a cultura, foi chamada ao palco Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura e Relações Internacionais da Câmara Municipal de Lisboa, que apoia o festival. “É um festival que tem marcado a vida cultural lisboeta”, lembrando também a importância de uma educação para o cinema e para as artes e da “criação de público para o cinema e cultura”.

Summer of Soul (…Or, When the Revolution Could Not Be Televised)

Às 21h40 teve início o filme de abertura, visto pela primeira vez em sala. Antes, os diretores tiveram ainda oportunidade de explicar o porquê desta escolha. “No ano em que temos a retrospetiva da Sarah Maldoror, conhecida sobretudo pela dimensão mais militante do seu cinema associada às lutas contra o colonialismo, esta pareceu a escolha ideal para marcar a herança cultural negra e lutar contra a invisibilidade” com a projeção de um filme sobre um um festival que foi, antes de tudo, uma revolução cultural.

Miguel Valverde lembra ainda, em jeito de coincidência, que o Harlem Cultural Festival ocorreu em 1969, ano em que Maldoror realizou o seu primeiro filme. “Em dois continentes diferentes, a celebração da vida, da liberdade, de pessoas juntas num quadro de igualdade e não de discriminação”.

Chegou então Summer of Soul, com as suas imagens inéditas, escondidas por mais de cinquenta anos, e que podemos agora ver graças ao músico Ahmir Thompson – mais conhecido por Questlove -, membro da banda The Roots. Durante duas horas, somos transportados para o palco montado no parque de Harlem e a vida passa a ter o ritmo do Soul, R&B e Gospel, numa verdadeira aula de cultura musical afro-americana que perdura até hoje.

Organizado e apresentado por Tony Lawrence, o Harlem Cultural Festival foi filmado por uma equipa chefiada pelo produtor Tulchin. Robert Fyvolent adquiriu o material e iniciou um processo de recuperação e restauro que nos permite usufruir hoje deste pedaço inigualável de memória.

Foram selecionadas imagens, de um total de 40 horas, que foram depois misturadas com depoimentos de espectadores do festival, todos eles muito jovens na altura, e também de músicos que descrevem as suas performances, como se tivessem ocorrido ontem.

Em todos ficou a sensação de que, até verem estas imagens, “sabiam e não sabiam” que aquele festival aconteceu e que não fora fruto da sua imaginação, de tão perfeito que o descrevem. Um reavivar de memória digno de um grande ecrã. Nem que fosse apenas pela emoção captada na descrição de quem lá estava quando confrontado com as imagens, este trabalho já valeu a pena.

A década de 1960 nos Estados Unidos ficou marcada pelas lutas pelos direitos civis, a contestação contra a guerra do Vietname e pelos assassinatos de John F. Kennedy (1963), Malcolm X (1965), e Martin Luther King Jr. (1968), um ano antes do festival. Enquanto o Harlem fervilhava ao som da Soul, o homem pisava a lua, e nenhum destes acontecimentos foi esquecido neste trabalho exímio de trazer à memória uma celebração da música e da vida, que talvez surja exatamente no momento em que mais precisamos dela. Por isso mesmo, só temos que agradecer a quem não deixou que estas imagens permanecessem para sempre numa cave esquecida – mais vale tarde que nunca.

Para quem perdeu esta sessão especial, haverá outra projeção no domingo, 29 de agosto, na Culturgest. E há mais a não perder no IndieLisboa, que continua espalhado por Lisboa, no Cinema São Jorge, Culturgest, Cinemateca, Cinema Ideal e Biblioteca Municipal Palácio das Galveias até ao dia 6 de setembro.