Dia Internacional da Música Estranha. 10 discos “estranhos” para descobrires

Conhece estes dez discos que apresentam uma experiência sonora fora do comum para alargar os teus horizontes musicais

Hoje (24 de agosto) celebra-se mais uma edição do Dia Internacional da Música Estranha, uma data concebida pelo músico Patrick Grant, em 1998, para incentivar as pessoas a expandirem os seus horizontes musicais. De certa forma, o objetivo é aumentar a literacia musical, utilizando-a como uma ferramenta para quebrar barreiras que possam existir na sociedade e estimular a criatividade artística das pessoas.

Para ajudar nesta missão, o Espalha-Factos publica uma lista com dez discos que apresentam uma experiência sonora fora do comum. Pode-se dizer que são “estranhos”, mas pensamos que a forma correta de dizer é que são dez discos que podes agora descobrir para alargar os teus horizontes musicais.

Kingdom Come – Galactic Zoo Dossier

Arthur Brown é uma das personagens mais fascinantes da história da música. Se nunca viram o vídeo da sua banda, The Crazy World of Arthur Brown, a atuar num episódio de Top of the Pops em 1968, do que estão à espera? Serve quase de resumo para perceber a excentricidade e a influência que o artista viria a ter em artistas como Alice CooperOzzy Osbourne ou King Diamond  e a ser um pioneiro do shock rock. 

Arthur Brown
Arthur Brown formou os Kingdom Come depois de a sua banda anterior ter terminado. Fotografia: Ron Howard/Redferns

Após o término dos The Crazy World of Arthur Brown, o artista formou uma nova banda, os Kingdom Come, lançando em 1971 o seu disco de estreia, o extremamente bizarro e fascinante Galactic Zoo Dossier. O conceito do disco? A existência de um zoo espacial habitado por animais extraterrestres. No seu rock progressivo, Galactic Zoo Dossier é um disco cheio de composições fascinantes, povoado por imagens de marca do género para à altura: órgãos gigantes a povoarem as faixas, composições pomposas cheias de riffs bem construídos e trocas de ritmos influenciadas por jazz. Nota-se a influência dos King Crimson neste disco, mas com um toque de estranheza dado pela excentricidade e teatralidade de Brown enquanto vocalista. É daquelas vozes que se gosta ou se odeia.

E para quem apreciar, Galactic Zoo Dossier é uma audição extremamente interessante, sendo um disco extremamente consistente e sólido de progressivo, que consegue incutir uma pequena sensibilidade pop à sua estranheza. E pode sempre servir como porta de entrada para explorar o mundo e legado vasto que Arthur Brown tem enquanto músico.

Einstüerzende Neubauten – Haus der Lüge

Haus der Lüge é o nome do quinto longa-duração da banda alemã Einstüerzende Neubauten, um dos grupos mais fascinantes e interessantes da história da música industrial. A banda é conhecida por juntar instrumentação orgânica a sons industriais, incutindo sons de ferramentas, de peças de sucata e metais nas suas faixas.

Ouvir um disco dos Neubaten é transportar-nos para uma fábrica gélida e Haus der Lüge, lançado em 1989, não é exceção. É um disco recheado de toques experimentais mas, à altura, era também o mais próximo que a banda tinha estado de fazer um disco puro de synthpop. Veja-se a groove incrível de ‘Feurio!‘ ou ‘Haus der luege epilog‘, que juntam o melhor do mundo experimental da banda com a sua capacidade melódica para criar momentos memoráveis. É o post-industrial a funcionar a todos os cilindros.

E para os fãs de coisas mais experimentais, não desesperem. Os doze minutos colossais de ‘Fiat Lux‘ sobrevoam a música ambiente e o experimental, criando uma das melhores faixas do grupo. Com as samples de protestos a surgirem, é uma experiência auditiva e fascinante, que quase soa a um pedaço de história a ser ouvido em formato de música. Felizmente, o disco não termina por aí, e tanto ‘Schwindel‘ e ‘Der Kuss‘ prosseguem o desenvolvimento sonoro de ‘Fiat Lux‘, fechando o álbum numa nota alta e experimental, encapsulando o tipo de experimentação sonora que podemos esperar dos Einstüerzende Neubauten.

Polvo – Today’s Active Lifestyles

Math rock é um dos estilos de rock mais interessantes de se ouvir e descobrir. Em grande parte, isto é devido às suas composições polirrítmicas, onde os grupos exploram compassos de tempo pouco comuns. Um dos marcos do género é o disco Today’s Active Lifestyles, segundo disco da banda de Chapel Hill, Carolina do Norte, Polvo.

Today’s Active Lifestyles é um disco extremamente influenciado pelo noise rock e pelo post-hardcore, servindo muito de ponte entre estes géneros e o midwest emo que viria a surgir na segunda parte da década de 90. O trabalho de guitarras deste disco é o seu principal trunfo e faz-se notar. É estranho e arrebatador, extremamente cru, notando-se a influência de Steve Albini na produção e sonoridade do disco. As faixas ‘Lazy Comet‘, ‘Stinger (Five Wigs)‘ ou ‘Time Isn’t On My Side’ são bons exemplos disso, enquanto que músicas como ‘Sure Shot‘ ou ‘Tilebreaker‘ mostram como a banda consegue incutir um toque mais acessível ao seu rock bem ruidoso.

Para fãs de rock, este disco é uma audição essencial e pode muito bem servir de porta de entrada para a exploração de outras bandas de math rock e dos géneros que este influenciou.

Swans – The Great Annihilator

Swans - The Great Annihilator
Fotografia: Bandcamp do artista

Liderados pelo extravagante cantautor multi-instrumentalista Michael Gira, os Swans são um dos grupos mais experimentais do cânone do rock. Contando com uma vasta discografia e, acima de tudo, extremamente eclética, é difícil estabelecer um ponto de entrada para começar a explorá-la. No entanto, o nono disco da banda, The Great Annihilator, lançado em 1995, é talvez a porta mais fácil de abrir, dado que se aproxima mais de gothic rock do que outros trabalhos da banda.

Em The Great Annihilator, a banda cria uma atmosfera extremamente escura e apocalíptica, e não é só através da sua sonoridade. Liricamente, Gira aborda vários dos seus tópicos favoritos como a morte, religião e sociedade a partir da sua posição enquanto narrador primário do disco. E musicalmente, o goth rock deste disco continua adornado com os toques habituais de no wavenoise rock do grupo, como observável na faixa ‘Mother_Father‘, ‘Alcohol the Seed‘ ou ‘Telepathy’.

Há toques de dronefolk em algumas faixas, como ‘She Lives‘, ‘Blood Promise‘ ou a beleza etérea de ‘Warm’, que servem de equilíbrio com os momentos mais agressivos do disco. A influência do post-punk também é bastante notável neste disco, particularmente em músicas como ‘I am the Sun‘ ou ‘Celebrity Lifestyle‘, sendo que esta última parece saída de um disco dos Sonic Youth do final da década de 80.

Megafone – Megafone I

Megafone foi um dos projetos musicais que o grande João Aguardela nos deixou. Contando com quatro discos, intitulados de Megafone IMegafone IV, a ideia do projeto era misturar ritmos eletrónicos com o conceito de portugalidade. Escolhemos para incluir nesta lista, como porta de entrada para este universo, o trabalho de estreia do projeto, Megafone I.

João Aguardela
João Aguardela, o mastermind por trás de Megafone.

Megafone I encontra-se recheado de samples de música tradicional portuguesa e mergulha-nos numa mistura entre o tradicional e o moderno, numa relação simbiótica que Aguardela faz funcionar. Os ritmos das músicas são influenciadas pelo drum and bass e pelo big beat, apresentado uma energia quase caótica mas cheia de sentido. Cada tema é uma experiência nova e refrescante, pronta a atirarmos para um campo lamacento onde vamos iniciar a próxima rave. Imaginem a banda sonora de um filme experimental e de culto que se passasse no interior do país: a banda sonora seria esta. Perturbador e fascinante ao mesmo tempo, o projeto Megafone é um dos tesouros que não podemos esquecer da história da música portuguesa. E quanto mais amor dermos à memória de João Aguardela, na verdade, melhor é – que falta faz por cá.

Current 93 – I Have a Special Plan for This World

I Have a Special Plan for This World é o único trabalho desta lista que não é um LP. Nem é um EP também. É, sim, um single de formato longo, constituído apenas pela faixa com o tal nome: I Have a Special Plan for This World. O single é da autoria da banda britânica Current 93 e foi lançado no ano de 2000.

Ao longo dos 22 minutos que constituem faixa, somos presenteados por uma atmosfera completamente misteriosa, criada através de drones sintéticos e manipulação de field recordings que, quando associados à narração de David Tibet (membro fundador do grupo) do poema de Thomas Ligotti, torna a audição de I Have a Special Plan for This World numa experiência inigualável. É como se tivéssemos a ouvir uma cassete perdida no tempo, presa num pesadelo niilista constante sem fim à vista. É quase tão perturbador quanto a capa do disco, que chama logo à atenção para aquilo que nos espera. Algo totalmente dissonante e que nos deixa em constante estado de ansiedade face àquilo que estamos a ouvir.

I Have a Special Plan for This World é um dos projetos mais interessantes e bizarros que os Current 93 têm para oferecer na sua longa, vasta e muito interessantíssima discografia.

Have a Nice Life – Deathconsciousness

Have a Nice Life é um duo americano formado por Dan Barrett Tim Macuga. Oriundos de Middletown, Connecticut, o grupo lançou o seu disco de estreia Deathconsciousness no ano de 2008. Originalmente, o disco ganhou pouca tração mas ao longo dos anos, através do passa-a-palavra em fóruns online, tornou-se um álbum de culto, obtendo um estatuto de quase mítico para os fãs de música mais depressiva e negra.

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Tim Macuga e Dan Barrett são os Have a Nice Life.

Deathconsciousness não é um álbum de fácil audição. Em primeiro lugar, porque abre logo com uma faixa de oito minutos de drone puro, ‘A Quick One Before the Eternal Worm Devours Connecticut‘, que imediatamente apresenta a atmosfera apocalíptica e depressiva que ombreia todo o disco. Em segundo lugar, porque este é um disco gravado de forma muito crua, e nota-se. Há muita sujidade na mistura, soando bastante lo-fi. E se isto podia ser visto como um problema, em Deathconsciousness, não o é – simplesmente ajuda na criação de toda a palete sonora do trabalho. E este é um trabalho vastamente eclético na sua sonoridade.

Há momentos em que o disco foge para um post-punk crú, como é o caso da faixa orelhuda ‘Bloodhail‘ ou as barulhenta ‘Deep, Deep‘ ou ‘Waiting for Black Metal Records to Come in the Mail, enquanto que noutros foge para um shoegaze progressivo, servindo as guitarras distorcidas e barulhentas para criar clímaxes libertadores, como é o caso de ‘The Big Gloom‘ ou ‘I Don’t Love‘, servindo de contraste para os vocais abafados que vão surgindo. Roça o limite do assustador em vários momentos, sentindo-se a dor do protagonista do disco. Há espaço também para momentos mais industriais, como o caso de ‘Hunter‘ ou ‘The Future‘, que nos embalam nos seus ritmos lentos e sintetizadores distantes, fazendo sentirmo-nos como se estivéssemos num comboio em movimento numa cidade destruída. É um espaço para reflexão criado pela sua ambiência, não haja dúvidas.

E se ficarem a achar que o disco já ofereceu tudo o que havia para oferecer quando, ao final de mais de 70 minutos de música, inicia a sua última música, estão bem enganados. Há poucas palavras para descrever a que soa ‘Earthmover‘, que é uma daquelas canções que nunca nos esquecemos da sua primeira audição. É uma experiência, para dizer no mínimo. Tal como este disco que, na sua escuridão imensa, traz alguma das coisas mais belas que um fã de música pode ter a possibilidade de ouvir.

2 8 1 4 – 新しい日の誕生 (Birth of a New Day)

新しい日の誕生 (Birth of a New Day) é o nome do segundo disco dos 2814, duo constituído pelos produtores Luke Laurila (t e l e p a t h テレパシー能力者) e David Russo (HKE), dois dos principais nomes associados ao género de vaporwave. Mas se os discos de vaporwave costumam basear-se na arte de samplingBirth of a New Day foge a isso, baseando-se a sua composição em loops de melodia que criam cada faixa, sendo notável a influência de William Basinski neste tipo de construção para as faixas.

O resultado final que surge em Birth of a New Day é uma experiência sonora e auditiva como poucas outras. As músicas criam a imagem de um futuro distópico, carregado de néons. Um mundo onde a tecnologia está presente em todo o lado e caminhamos na rua ao lado de arranha-céus enquanto a chuva cai um pouco todo à nossa volta. Aliás, o disco todo soa a isso: uma pessoa a caminhar por uma cidade futurista, solitária, enquanto contempla cada novo local que lhe surge no formato de cada faixa individual.

Birth of a New Day é um disco conceptual em toda a sua existência, extremamente relaxante na sua paleta sonora e que possui toda uma vibe retro futurista que vale muito a pena explorar. Música ambiente para transcendência noturna, se o podemos indicar dessa forma.

The Caretaker – Everywhere at the end of time

The Caretaker
Fotografia: Bandcamp do artista

Everywhere at the end of time é o projeto mais fascinante da carreira do produtor britânico Leyland Kirby. Corresponde ao 11.º lançamento do artista e encontra-se dividido em seis discos – cada um descrevendo uma diferente fase da doença de Alzheimer.

Falar da experiência que é ouvir Everywhere at the end of time consegue ser complicado, porque é algo difícil de exprimir em palavras. Primeiro, porque não é um trabalho para se ouvir de uma só assentada – é feito para ser digerido ao longo do tempo, interiorizando progressivamente os sentimentos que cada nova fase apresenta. Com cada disco e, consequentemente, com a entrada numa nova fase, a sonoridade do trabalho vai ficando progressivamente mais escura, começando mais na base da eletrónica e terminando mais na base do noise, soando progressivamente mais vazio e distante, prendendo-nos em nós mesmos com cada nova fase.

Emocionante e arrebatador, Everywhere at the end of time é muito mais do que um trabalho musical. É um ensaio sobre a memória e sobre a vida, capaz de nos fazer sorrir e chorar com as suas faixas. É uma obra de arte na sua totalidade e, pode-se bem dizer, é também o É o magnum opus de Kirby enquanto produtor.

clipping. – Visions of Bodies Being Burned

Visions of Bodies Being Burned é o nome do mais recente disco dos clipping., grupo de hip hop californiano formado pelo rapper Daveed Diggs e pelos produtores William Hutson e Jonathan Snipes. O trabalho serve como continuação do seu disco anterior, There Existed an Addiction to Blood, apresentando uma estética de horrorcore abrasiva e sendo cada faixa um conto de terror individual que, quando juntos, criam mais um excelente projeto de um dos grupos mais interessantes do hip hop da atualidade.

clipping.
William Hutson, Daveed Diggs e Jonathan Snipes formam os clipping.. Fotografia: Cristopher Cichocki/Sub Pop

E apesar da produção abrasiva, os instrumentais soam extremamente polidos e bem construídos. Há mesmo beats fenomenais neste disco que raramente te dá algum espaço para respirar. Por um lado, o rap e flow de Diggs é hipnotizante e serve perfeitamente as histórias que vão sendo narradas. Por exemplo, na música ‘She Bad‘, a junção do beat abstrato, marcado por sintetizadores dissonantes e gravações ambiente, com a narração de Diggs, cria uma espécie de viagem por uma casa assombrada que culmina num hook fenomenal sempre que voltamos ao refrão da faixa.

Aliás, há vários hooks bem pronunciados ao longo do disco que mostram como o grupo consegue ser experimental e acessível ao mesmo tempo. A faixa ‘Say the Name‘, com os seus toques de Nine Inch Nails bem presentes, ‘Check the Lock‘, com um beat que podia ter sido diretamente retirado de Yeezus de Kanye West, ou a influência de noise em ‘Make Them Dead‘, são outros belos exemplos desse jogo tão bem feito pelos clipping. entre a sua estranheza e a sua capacidade para retirar melodia dessa estranheza. E sem esquecer a surpresa de ‘Enlacing‘, uma explosão sonora libertadora com um dos melhores refrões do disco e uma das melhores performances de Diggs enquanto vocalista neste trabalho.

Meta fórmico, dissonante, Visions of Bodies Being Burned é uma audição que nos agarra em todas as suas canções. Nos seus toques alegóricos, cria uma experiência completamente arrebatadora para o ouvinte, convidando-o progressivamente a afundar-se mais neste caldo que soa a como se um slasher film fosse transformado num projeto integral de música.