Quem é Clarissa Ward, a correspondente da CNN que cobriu a ressurgência talibã?

A jornalista regressou do Afeganistão no sábado num avião da força aérea americana com 300 refugiados a bordo

Clarissa Ward, correspondente da CNN no Afeganistão, regressou este domingo (22) aos Estados Unidos. A equipa do canal partiu no sábado num avião superlotado da força aérea americana, com mais de 300 passageiros afegãos. Em entrevista a Brian Stelter para a CNN, a jornalista confessa-se “exausta” e “em choque“, enquanto relata os anseios expressados pelos refugiados a bordo.

Ward tornou-se figura pública na sequência da cobertura da tomada do país pelas forças Talibã, quando o abandono das tropas americanas despoletou uma queda precipitada do regime vigente, liderado pelo Presidente Ghani. A jornalista tem feito relatos dos acontecimentos em Cabul nas últimas semanas, num país atormentado pelo medo do retorno a um Estado fortemente repressivo.

Relatos de Clarissa Ward pintam cenário de medo

As reportagens de Clarissa Ward no terreno têm pautado os dias dos telespectadores nas últimas semanas, com relatos de tensões nas ruas e caos no aeroporto. “Sorrindo tranquilamente, os Talibã conquistaram uma cidade de 6 milhões de pessoas em poucas horas, sem dispararem quase nenhum tiro“, reportava a jornalista no dia da tomada de Cabul.

Esta é uma cena que eu achava que nunca veria. Dezenas de soldados Talibã e, logo atrás de nós, a embaixada dos EUA“, relata no mesmo dia (16), parada em frente aos próprios militares no local. “Eles estão a cantar Morte à América, mas parecem amigáveis ao mesmo tempo. É completamente bizarro.”

Enquanto o mundo tem os olhos fixos nos Talibã, a verdadeira história não está nas ruas, mas nos que têm demasiado medo para sair, garantiu Ward. Os Talibã prometem preencher o vazio de poder deixado por Ghani e proporcionar um regresso amenizado à ideologia Talibã, com menos restrições para a vida digna das mulheres, após 20 anos de guerra com as tropas da NATO e aliados afegãos.

Na quarta-feira (18), a equipa de Clarissa Ward reportou que estavam a ser disparados tiros perto do aeroporto de Cabul. O aeroporto tem sido palco de cenas de caos nos últimos dias, com civis afegãos, ex-aliados dos Estados Unidos no conflito e membros de embaixadas estrangeiras a tentar deixar o país. Centenas de pessoas afluem para a pista em desespero, descrentes de promessas vãs.

Há combatentes Talibã a guardar o aeroporto? Sim, vimo-los fisicamente, a disparar contra a multidão para a dispersar“, conta. “Logo ali, há centenas de pessoas reunidas que tentam desesperadamente sair do país. Não é claro se têm a documentação em ordem ou foram declinadas“, afirma, enquanto se escutam tiros à distância.

Durante a transmissão ao vivo, um cidadão que alega ter trabalhado com as forças americanas denuncia, agora, o abandono dos aliados. “Tentámos entrar no aeroporto, mas não nos deixaram. Dizem que sem visto [Green Card], nada feito. Não podemos ficar aqui, todos os dias Joe Biden diz que os trabalhadores afegãos que trabalharam com os americanos têm de ir para a América”.

“Tentei fazer a inscrição [pedido de asilo], mas é impossível! Requerem uma carta de recomendação de 2021″, que ateste que trabalharam em conjunto, mas “essas empresas fecharam em 2014!”, acrescenta.

Mas mesmo para quem conseguiu a obtenção do visto, a passagem tem sido frequentemente interdita pelas forças Talibã no aeroporto – ou impossibilitada pela escassez de aviões de aliados com disponibilidade para levar refugiados. O Qatar tem resgatado alguns afegãos de Cabul para os levar para fora do país, mas diz ter atingido a sua capacidade de acolhimento – e transbordo.

Soldados na pista do aeroporto de Cabul disseram-me que há 10 mil pessoas aqui processadas e prontas para ir, mas não há lugar para onde as levar, porque o Qatar se recusa a aceitar mais afegãos [no avião] “, conclui a correspondente da CNN.

Ward confronta poder americano e despoleta ódio da direita conservadora

Clarissa Ward tem sido crítica da forma como o poder americano decidiu abandonar o Afeganistão nalgumas das suas intervenções, ao não deixar espaço para que fossem levados e acolhidos refugiados afegãos.

Na terça-feira (17), a jornalista confrontou John Kirby, representante do Pentágono, em direto na CNN, questionando-o se os combatentes afegãos e outros aliados dos Estados Unidos no terreno podem confiar que não serão abandonados pelo Governo americano após a tomada de poder pelos talibãs. Kirby garantiu que o processo de aplicação dos documentos existe, está em marcha e que o governo pretende retirar todos os aliados afegãos do país nas próximas semanas.

Sou eu que tenho de olhar estas pessoas nos olhos“, atirou Ward, interrompendo Kirby. “Para a maioria das pessoas afegãs com quem falo, John, isso vai soar a promessas vazias. Posso ter a tua palavra? Estas pessoas estão a depender de ti, estão a depender da América. As suas vidas estão ameaçadas. Pedem apenas a garantia de que não serão abandonadas e de que [os Estados Unidos] vão assumir a responsabilidade.

Ted Cruz repreendeu Ward nas redes sociais pela cobertura dos acontecimentos em Cabul. “Há algum inimigo da América que a CNN NÃO aplauda? E a usar burka, nem mais!”, escreveu o Senador Republicano na sua conta twitter, referindo-se à abaya (vestimenta tradicional, larga e preta, usada por mulheres islâmicas em certas partes do mundo árabe) que Ward tem usado nas ruas da cidade.

A imagem que tornou Clarissa Ward viral nas redes sociais era parcialmente falsa

A jornalista começou por se tornar viral nas redes sociais no dia da queda de Cabul, quando surgiu numa imagem editada que comparava as mudanças na sua indumentária com meros dias de diferença, antes e depois da tomada da capital pelos Talibã. Na primeira fotografia, aparecia com a cabeça destapada e, na segunda, com o cabelo e o pescoço totalmente cobertos e vestida com uma abaya.

A própria já veio desmistificar a controvérsia como sendo parcialmente falsa: a imagem que andou a circular pelas redes sociais mostrava uma emissão num espaço privado e fechado, onde é permitido às mulheres ter a cabeça descoberta, e a outra, uma emissão na via pública. Ward esclareceu, via Twitter, que já antes da reivindicação da cidade pelos Talibã andava na rua com a cabeça coberta, mas que de facto passou a ter maior atenção em cobrir a totalidade do cabelo e em usar a veste tradicional.

Clarissa Ward faz reportagens em cenários de guerra há mais de 15 anos e é a chefe dos correspondentes internacionais da CNN em funções desde 2018. Em 2019, Ward esteve em território controlado pelos Talibã para um conjunto de reportagens exclusivas e passou algum tempo numa madrassa (escola religiosa islâmica) e numa clínica administrada pelos combatentes na cidade de Pashma Qala.

Ward esteve envolvida na cobertura dos conflitos da Síria, Iraque, Afeganistão, Myanmar e Irão para o canal, e muitos mais ao longo da carreiraFoi eleita Correspondente do Ano pelo Prémio Gracies 2019 e já ganhou dois prémios Peabody, entre outras distinções. É ainda autora do livro On All Fronts: The Education of a Journalist [Em todos as frentes: a educação de uma jornalista], em que narra a sua carreira como repórter de guerra.

As Mulheres jornalistas na linha da frente

Parte do reconhecimento internacional pelo trabalho de Clarissa Ward dá-se por esta ser jornalista e mulher, num cenário considerado fortemente hostil e restritivo para as mulheres. Na segunda-feira (16), o destaque da reportagem de Ward ia para um momento em que os Talibã lhe pedem que “se meta de lado” e deixe de fazer questões, por ser mulher.

Ainda assim, Ward reconhece ter algum acesso privilegiado ao exercício da profissão, motivado pela sua ocidentalidade. Enquanto os Talibã falavam com Ward no dia da tomada da cidade, do outro lado dela, mulheres jornalistas afegãs começavam a ser retiradas dos seus empregos.

Os “estudantes de teologia” alegaram vir a ser lenientes em alguns aspetos e, sem abdicar da sua ideologia, deixar as mulheres trabalhar (o que não se verificou no regime Talibã em vigor até 2001, que foi fortemente repressivo para as mulheres).

A repórter afegã Shabnam Khan Dawran, pivot da RTA (Rádio e Televisão do Afeganistão) e editora da Tolo News, foi afastada do seu posto pelos Talibã. A jornalista tem sido vocal sobre os motivos do afastamento e teme agora pela sua vida. Rostos de mulheres não podem ter representação visual na media, segundo a interpretação dos Talibã da sharia lei islâmica.

Shabnam Khan Dawran, jornalista afegã afastada pelo novo regime . | Fotografia: D.R.

Shabnam não é caso único, muito pelo contrário. “Por muitos anos, trabalhei como jornalista para levantar a voz dos afegãos, especialmente das mulheres afegãs, mas agora nossa identidade está a ser destruída”, protesta Aaisha (nome fícticio), em declarações ao The GuardianAaisha é uma de dezenas de mulheres jornalistas no país que receia pelo seu futuro numa profissão não mais livre e num Afeganistão onde “anulam a sua identidade”, adianta ainda o mesmo jornal.

No mês passado, o fotógrafo da Reuters Danish Siddiqui foi morto pelas mãos do Talibã enquanto reportava o confrontos entre as forças afegãs e o Talebã na província de Kandahar. Além dos jornalistas mortos em trabalho, dezenas de mulheres jornalistas, em particular, foram vítimas de ataques, ameaças ou deixaram o país no ano passado, revela um relatório da Human Rights Watch de abril citado pelo Business Insider.

Além dos perigos de vida, há outros riscos associados a esta filtragem da informação. “É comum que as histórias de mulheres afegãs sejam decididas por homens afegãos ou jornalistas internacionais no exterior. E embora a nossa presença nos média afegãos seja celebrada como um exemplo de empoderamento das mulheres, não recebemos muita atenção ou espaço para definir as história que importam cobrir”, diz Zahra Joya, jornalista afegã na linha da frente do conflito, ao The Guardian.

Apesar de anos de desenvolvimento e progresso nos média afegãos, Joya sente que as mulheres enfrentam ainda discriminação por causa de sua etnia e sexo nas redações maioritariamente populadas por homens. Por isso, em novembro do ano passado, fundou a Rukhshana Media, um site de notícias que conta histórias de mulheres do Afeganistão, escritas por mulheres do Afeganistão.

As mulheres jornalistas correm maior risco de assassinato no país, devido às questões que cobrem e ao papel público que representam enquanto mulheres. Um risco tremendamente acrescido pela tomada de poder dos talibã, caso se venha a verificar o afastamento geral das mulheres jornalistas.

Na quinta-feira (19), ocorreu um protesto nas ruas de Cabul, com várias mulheres e raparigas a encabeçar a marcha, em nome da identidade nacional afegã, no dia em que se comemora a Independência Nacional. Houve agitação por parte dos Talibã, mas deixaram as manifestantes passar.

O que está a acontecer no Afeganistão?

No domingo (15), as forças Talibã entraram na capital. Em apenas dez dias – de 6 a 16 de agosto -, 26 das 34 províncias do Afeganistão passaram para controlo Talibã, até ao golpe final da captura de Cabul, a semana passada. O presidente em funções, Ashraf Ghani, fugiu do país, alegadamente para impedir que houvesse sangue derramado.

O acordo da administração Trump com os Talibã em fevereiro do ano passado garantia que as forças americanas deixariam o país, colocando um fim a uma guerra muito custosa para os EUA em termos humanos e financeiros. Biden manteve a promessa, iniciada por Obama, em 2014, e definiu 31 de agosto como a data de saída oficial. Mas com as forças do governo afegão fragilizadas por deserções no seio de um exército que nunca o foi verdadeiramente, e a perda de cobertura aérea estrangeira, os Talibã rapidamente expandiram o seu domínio sobre o país.

O governo apoiado pelos Estados Unidos vivia ameaçado desde a intervenção militar americana que depôs o regime talibã em 2001. Os Talibã governaram o país por cinco anos até à operação Assegurar a Liberdade, ordenada pelo Presidente George W. Bush em consequência dos ataques da Al-Qaeda contra as Torres Gémeas, iniciar uma campanha bombista, com apoio britânico, sobre o país.

Os Talibã retiraram-se, mas a guerra entre os ultraconservadores islâmicos e as tropas estrangeiras com o apoio da NATO não cessou, causando a morte de milhares de civis afegãos ao longo de duas décadas. Em 2021, as Nações Unidas estimam que tenham falecido 1600 civis, um aumento de 47% relativamente ao ano anterior – antes da retirada americana e queda do governo eleito.

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