Evangelion

‘Rebuild of Evangelion’: fugir da solidão e escapar para a realidade

Depois de muito tempo à espera, Evangelion: 3.0+1.0 Thrice Upon a Time estreou na semana passada, na Amazon Prime. O último filme da tetralogia Rebuild Evangelion é a conclusão da nova versão do anime icónico dos anos 90, mas que não se esquece das suas versões alternativas.

Lançado em 1996, Neon Genesis Evangelion fala de Shinji, AsukaRei, três crianças que recebem a responsabilidade de pilotar os EVA – robôs gigantes (mechas) – para combater contra os Anjos – monstros gigantes que ameaçam a Humanidade.

Depois dos polémicos 26 episódios originais, um filme intitulado The End of Evangelion (1997) trouxe outro desfecho, porém não serenou os ânimos. Os novos quatro filmes são uma nova versão da narrativa, refletindo a verdadeira visão do criador Hideaki Anno, agora sem as restrições tecnológicas da altura.

Thrice Upon a Time é um filme que não pode ser visto sem se assistir aos três anteriores “episódios” e, na verdade, o projeto Rebuild é melhor quando experienciado de seguida, como se tratasse de uma minissérie. Por isso, vamos analisar em termos mais gerais esta tetralogia e apresentar um veredito que resume a odisseia de ficção científica.

Sendo este o terceiro e, até ver, derradeiro final para a saga Evangelion, será que os fãs podem ficar satisfeitos? É este o desfecho que pode trazer paz a três décadas de teorias? Sim e não.

Maior poder de fogo

Um dos principais pontos de interesse da nova tetralogia é a sua força técnica. Evangelion já não é um anime que passou na televisão sem se saber no que ia dar e com orçamento limitado. É uma franquia milionário e conhecida em todo o mundo. Por isso, Rebuild é uma evolução fantástica da saga, em termos audiovisuais.

A imagem em alta definição, a qualidade e o impacto sonoros e a animação retocada são arrepiantes. As cenas de ação são uma fusão extraordinária de animação 2D e 3D. Os desenhos dos principais inimigos, os Anjos, ficam cada vez mais abstratos e, paralelamente, mais ambiciosos do ponto de vista técnico. E tudo é acompanhado por uma banda sonora épica.

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No entanto, Evangelion não se define apenas por lutas entre mechas. Os momentos mais pensativos, mais silenciosos e psicológicos também absorvem o espectador, fruto de enquadramentos meticulosos e um jogo de cores e de luz inteligente.

A edição também é crucial para contar uma história que raramente explica tudo o que está a acontecer. E, para além de funções narrativas, também há cortes e transições que simbolizam o estado psicológico das personagens e ajudam a dar mais força emotiva a certos momentos.

Rebuild of Evangelion é, simplesmente, um colosso audiovisual, com algumas das sequências de animação mais ambiciosas dos últimos anos. Um autêntico regalo para a vista.

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Justiça para as personagens

A tetralogia também apresenta a melhor e mais definitiva conclusão para a saga. O final é mais claro nas suas intenções e apresenta uma mensagem mais animadora do que as outras duas tentativas. Contudo, não é apenas por isso que Thrice Upon a Time encerra Evangelion corretamente.

Todas as personagens são tratadas com Justiça e terminam o seu percurso narrativo individual. Se, nos finais anteriores, era o protagonista, Shinji, a ser o foco quase total das atenções, desta vez os vários pilotos dos EVA’s recebem a atenção devida. Até personagens mais secundárias têm direito a um enfoque substancial, valorizando-as e dando mais motivos ao espectador para estar investido no desfecho da história. Sim, parar o apocalipse é motivo suficiente para estarmos preocupados, mas se soubermos quem são as pessoas que vão sofrer e como vão sofrer, tudo ganha mais força.

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As personagens femininas também são retratadas com mais respeito e os seus respetivos arcos emocionais são muito mais individuais e não tão dependentes do protagonista. A relação de Shinji com Asuka continua tóxica (é esse o objetivo), porém é muito menos gratuita do que nos outros dois finais e tem uma escrita muito mais matura.

É, aliás, a maturidade do criador Hideaki Anno enquanto contador de histórias que faz com que Rebuild of Evangelion tenha um foco muito maior no que quer contar e como o quer contar do que os outros dois finais.

Isso não significa que os abandone. Se é possível ver apenas os quatro filmes Rebuild e compreender a história, os fãs de longa data vão ser recompensados. O último filme chama-se Thrice Upon a Time por uma razão.

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Instrumentalidade (Ficção) vs Individualidade (Realidade)

A mitologia de Evangelion é uma espécie de mistura entre o Cristianismo e H.P. Lovecraft. Um dos principais debates filosóficos de toda a saga é se a Humanidade deve aceitar um caminho de Instrumentalidade: um projeto que juntaria todas as almas numa existência coletiva, uma espécie de paraíso homogéneo em que todos são iguais e complementam-se.

O que percebemos é que esse paraíso é na verdade um inferno, em que, por um lado, perdemos as individualidades que tornam cada humano e, no fundo, cada ser vivo importantes e, por outro, fugimos às dor, ao falhanço, à solidão, a tudo o que nos provoca mágoa.

Rebuild of Evangelion aceita a dor e assume que sem ela a vida não teria o mesmo valor. É uma escolha que todas as personagens e, principalmente, Shinji tem de fazer. Continuar a fugir da Realidade, para viver no seu mundo isolado de tudo e todos os que o possam magoar.

A mensagem derradeira de Evangelion celebra as incertezas da existência, os percalços que encontramos pelo caminho e as pessoas e experiências que nos dão força para continuar. Para fugirmos da solidão, temos de escapar para a Realidade.

Se este é o simbolismo “interno” da narrativa, há ainda um meta comentário que aplica os mesmo princípios. Hideaki Anno sofreu de depressão ao longo da sua vida. O criador de Evangelion sentiu a mais profunda solidão antes e depois da série, incluindo até há poucos anos, enquanto já terminava esta tetralogia.

A conclusão das personagens é também a conclusão do seu criador. Um homem que podia ter rejeitado o mundo de vez, mas que escolheu libertar-se para a realidade que o rodeia.

É esse apelo que também é feito ao Japão, um país tão ferido por casos de depressão e de isolamento extremo do resto da sociedade.

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25 anos desde a estreia, Evangelion mantém-se atual e provocativo. Esta nova tetralogia dá um final definitivo e satisfatório aos fãs, mas promete ser debatido durante muitos anos.

Rebuild of Evangelion é uma grande proeza audiovisual, com personagens icónicas e temáticas tão épicas quanto íntimas. É, no fundo uma cápsula do que faz a saga ser dos animes mais marcantes de sempre.

A obra-prima de Hideaki Anno tem imperfeições, porém não é por ser imperfeita que deixa de ser uma obra-prima.

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Rebuild of Evangelion
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