Live from the Centre of the Earth estará no IndieMusic, secção do IndieLisboa
Fotografia: Live from the Centre of the Earth (Iain Forsyth, Jane Pollard)

IndieLisboa. Filipa Henriques: “Programar uma secção de música é uma aprendizagem constante”

O IndieLisboa já começou e dura até 8 de setembro nas principais salas de cinema de Lisboa. São 276 filmes no total – divididos por doze secções.

As películas serão exibidas ao longo das próximas duas semanas no Cinema São Jorge, Culturgest, Cinema Ideal e Cinemateca Portuguesa, sendo as sessões de Cinema ao Ar Livre exibidas no espaço do Jardim Biblioteca Palácio Galveias.

Uma das secções mais aguardadas do festival é a secção IndieMusic, onde a ligação entre o cinema e a música acontece. Constituída por 16 filmes – incluindo quatro produções nacionais – a secção este ano confere um “maior foco a histórias individuais“, sobrevoando na ecleticidade que lhe é reconhecida por vários géneros de cinema e da música. Documentários, filme-concerto, filmes de descoberta e até um mockumentary fazem parte do alinhamento da secção.

Para sabermos mais sobre a secção IndieMusic deste ano, o Espalha-Factos sentou-se à conversa com Filipa Henriques que, desde 2018, faz parte da equipa que efetua a programação para esta secção e que se encontra ligada ao festival, de uma forma ou outra, desde do ano de 2015.

O IndieMusic tem-se tornado numa das secções mais importantes do IndieLisboa. Como é que tem sido a evolução da adesão do público aos filmes desta secção?

Eu faço parte da programação desde 2018 e a secção do IndieMusic tem crescido imenso em termos de espectadores – que é a métrica mais fiável para medires se é bem-sucedido ou não. No entanto, o IndieMusic somos eu, o Carlos Ramos – que é um dos diretores do festival – a Helena César e o Mário Lopes. E a evolução do IndieMusic tem muito a ver com a evolução que cada um de nós vai tendo, não só individualmente, mas também uns com os outros. Programar uma secção de música é uma aprendizagem constante porque estás sempre a descobrir muitas coisas. Nós vemos muitos filmes de muitos músicos, que vão dos mais abrangentes, até músicos completamente desconhecidos. Por isso, acho que a evolução pode ir mais por aí e menos pelo número de espectadores.

Não te sei dizer números concretos, mas sei que nos últimos cinco anos [o número de espectadores] tem crescido e isso também tem muito a ver com o esforço que existe por parte do festival de aliar a secção do IndieMusic às festas do IndiebyNight – os concertos, as festas temáticas relacionadas com os filmes – que é uma coisa que corre muito bem e que infelizmente, neste momento, por causa da pandemia, está um bocadinho adormecido. [O IndiebyNight] É uma maneira de cativar as pessoas. Também, em termos de espectadores, uma coisa que tentamos fazer sempre é criar um balanço entre a presença de artistas abrangentes e artistas menos abrangentes e isso também ajuda a trazer espectadores. Se a programação for só filmes de descoberta, obviamente que isso tem um impacto no número de espectadores.

Fazer esse balanceamento parecer ser uma tarefa complicada. Por exemplo, a secção IndieMusic deste ano traz The Nowhere Inn (Bill Benz) – o mockumentary da St. Vincent, que é uma artista relativamente conhecida – mas depois também inclui filmes como Mimaroğlu: The Robinson of Manhattan (Serdar Kökçeoğlu), que já é um filme de descoberta. Como é que se chega a um ponto de equilibro entre filmes de descoberta e filmes que possam ser mais abrangentes para esta secção?

A nossa maneira de programar é muito orgânica e democrática. Nós [os programadores] debatemos os filmes de maneira muito franca. Acontece que, quando são filmes de descoberta, têm que ser bons, não é? Os filmes, apesar de serem sobre artistas menos conhecidos, têm de ser filmes que nos cativam. E a diferença é exatamente essa. Obviamente que, ao longo do ano, se chegarmos a uma determinada altura e não tivermos nenhum filme âncora, temos que se calhar repensar um bocadinho a secção. Mas se for um filme que nos apaixone, entra, como é o caso do Mimaroğlu: The Robinson of Manhattan.

O Ilhan Mimaroğlu é um artista turco que tem um percurso maravilhoso. Colaborou com o Charles Mingus, foi muito experimental, muito à frente do tempo dele. E portanto era um filme que fazia todo o sentido porque o IndieMusic também é isso – há essa parte de descoberta. E eu acredito que temos espectadores que também já esperam esses filmes da nossa programação.  Mas pronto, tem de se balançar com filmes como o The Nowhere Inn ou o The Sparks Brothers, do Edgar Wright, que também são filmes que obviamente nos apaixonam. Se não, não fariam parte.

De facto, a secção do IndieMusic é um excelente local para a descoberta (e redescoberta) de novos artistas. Como é que os programadores se sentem face à receção do público perante estes filmes de descoberta?

Filmes de descoberta é sempre arriscado. Pode correr bem, pode correr mal, mas nós tentamos sempre ter uma análise daquilo que achamos que é uma coisa que é mais ou menos abrangente. Há filmes que nós gostamos imenso e que sabemos que vão correr mal –  mas isso não é critério para os deixar de exibir. Nós procuramos sempre ter um alinhamento eclético. Este ano, por acaso, está a tender um bocadinho mais para a eletrónica do que o habitual, que é algo que não acontece muito no IndieMusic.

A ideia, então, passa por uma linha de programação que tenha tanto artistas desconhecidos como mais abrangentes e que toque em vários espectros da música, que não se fique só por um. Até porque cada um de nós tem um gosto concreto em termos musicais, e obviamente que isso influencia a maneira como nós depois vemos os filmes. E programar esta secção é um processo de aprendizagem constante na medida em que estás sempre a descobrir artistas novos. Para mim, pessoalmente, e acredito que para os meus colegas também, é também um trabalho de aprendizagem nesse sentido e, para qualquer pessoa que seja minimamente curiosa pela música, pela sua história e pela maneira como isto tudo se processa, é incrível fazer parte deste comité.

O IndieMusic, à semelhança de outros anos, apresenta também quatro projetos portugueses: a longa-metragem Já Estou Farto! (Paulo Antunes) e as curtas Caudal (Luís Sobreiro), Eram 27 Dias e Paraste (Jota Assis e Noiserv) e We Were Floating High (Tiago Gomes), refletindo também o destaque dado pelo IndieLisboa à cinematografia nacional. De que forma é que o IndieMusic se relaciona com as produções nacionais?

O acompanhamento que o IndieLisboa faz do cinema nacional é muito mais abrangente do que apenas o IndieMusic. Existe uma série de iniciativas – para além dos filmes que estão em competição nacional e mesmo filmes portugueses que vão a competição internacional. Existe o Fundo de Apoio ao Cinema, existem as Lisbon Screenings, que é um evento de indústria organizado paralelamente com a Portugal Film em que se promove o cinema português, particularmente o de novos realizadores e filmes ainda em estado de work in progress, a programadores internacionais.

E depois nós [no IndieLisboa] tentamos fazer sempre um acompanhamento grande e manter realizadores. Se exibirmos um realizador uma vez, estarmos sempre atentos ao trabalho que ele está a desenvolver. Ou seja, procura-se fazer um trabalho de proximidade, não só com os filmes, mas também com os realizadores. De dezasseis filmes [no IndieMusic], temos quatro portugueses que é uma coisa, para filmes focados em música, muito boa.

É provável também que alguns destes trabalhos se calhar não conseguiam chegar a tanto público como chegam enquanto parte da secção IndieMusic.

Sim, depois existe essa componente em termos de filmes sobre música portuguesa. Por exemplo, o documentário Já Estou Farto! (Paulo Antunes), que é sobre o João Pedro Almendra, vocalista dos Ku de Judas e que também fez parte da primeira iteração dos Peste & Sida. Um filme desses é feito para, de alguma maneira, manter viva a memória dessa música e nunca são filmes que tenham muito espaço para serem exibidos. Obviamente, nós [o IndieLisboa e o IndieMusic] também temos essa função – de alguma maneira, eternizar movimentos como o punk de Alvalade, mas não só. E portanto, faz todo o sentido que façam parte do IndieLisboa e do IndieMusic.

A edição de 2021 do IndieLisboa vai abrir com o documentário Summer Of Soul (…Or, When The Revolution Could Not Be Televised) (Ahmir “Questlove” Thompson), um filme que, ao retratar o Harlem Cultural Festival de 1969, retrata também problemas de racismo sistémico. De que forma é que a presença de documentários como este no IndieLisboa estabelecem o festival como incentivador para a criação de um espaço educacional e de consciencialização social?

Como sociedade, ainda estamos a aprender a ver e a compreender a história negra, e a aceitar que a deixamos na gaveta durante muito tempo. Felizmente, isso está a mudar e estamos mais conscientes do racismo sistémico, que é algo em que todos temos de trabalhar. E é verdade que essa consciência tem vindo a ficar muito mais ativa porque temos sido bombardeados com conteúdo nas redes sociais de uma maneira muito forte.

E obviamente que 2020 é um ano marcado pela pandemia, mas também foi um ano que vimos o estrangulamento de um homem [George Floyd] a correr as redes sociais e que criou esta consciência em muitos de nós. Perceber a gravidade da situação e a forma agressiva como as coisas acontecem fez-nos ficar, de alguma forma, mais conscientes. Fez-nos criar algum tipo de empatia. Somos seres humanos e isso é normal. No entanto, aquilo que acontece é que nós estamos muito habituados a ver a dor negra e esquecemo-nos da felicidade negra também, que é algo muito característico das comunidades.

O Summer of Soul é um filme que dá voz a essa alegria. É muito importante perceber que há coisas que têm de mudar mas também é importante percebermos que, no meio de tanta dor, existe um sentido de comunidade muito grande, que é no fundo o que este filme representa.

Summer of Soul
Fotografia: Divulgação

E o IndieLisboa é um festival muito consciente e muito atento aos assuntos da agenda da atualidade. E acaba, ao ser um veículo de promoção de cinema independente muito importante, por ter um papel muito significante para a criação de uma consciência social maior. Eu acredito que isso seja um trabalho ou uma função muito intrínseca ao cinema. O cinema pode existir como uma forma de clarificar informação, de a tornar mais democrática, mais transversal, e de fazer compreender questões mais complexas de uma maneira mais orgânica. E o Indie tem uma série de atividades que potenciam esse papel educacional, como é o caso do IndieJúnior, que no Porto existe como festival e em Lisboa como secção, ou do Cineclube, que, durante o ano, leva filmes às escolas com as quais temos protocolo, para ajudarem na ideia de formação de público também. Este ano, por exemplo, o IndieJúnior tem um filme que se chama Os Sapatos do Louis que vai ser exibido e acompanhado por um debate sobre o autismo, que também é um assunto que precisa de desconstrução porque existe um estigma muito grande em torno deste. E este ano o Indie traz também uma retrospetiva quase integral da Sara Maldoror à semelhança do que aconteceu o ano passado com o Ousmane Sembène, que são dois dos pioneiros do cinema africano. Tentamos que o Indie tenha, obviamente, um lado muito atual de consciencialização.

A secção IndieMusic deste ano inclui filmes como o Mimaroğlu: The Robinson of Manhattan (Serdar Kökçeoğlu), que já referiste, ou Nueve Sevillas (Gonzalo García Pelayo, Pedro G. Romero), que nos permitem conhecer melhor outras culturas e realidade para além da nossa. Como é que o cinema pode, ao fazer-nos entrar em contacto com outras culturas através de projetos como estes, contribuir para a criação de uma sociedade mais compreensiva e aceitadora?

A compreensão, ou pelo menos, a ideia de compreensão em sociedade, tem muito a ver com a nossa capacidade de sermos empáticos. E como é que podes ser mais empático? Se as histórias forem pessoalizadas, certo? Ou seja, se souberes de uma pessoa concreta ou ouvires um testemunho concreto de alguém que esteja a passar por situações racista, por exemplo, nós temos a capacidade de sermos imediatamente mais empáticos. Isso é que nos faz ser mais compreensivos. E portanto, eu acho que no papel do cinema – nestes casos que referiste, não sei se estes filmes fazem tanto esse paralelo. Mas por exemplo, há outro filme que faz parte do IndieMusic, o Different Johns (Robert Carr), sobre o John Cohen, que era um músico que fez um trabalho de investigação e de acompanhamento muito grande da música folk americana e fazia parte da Beat Generation. Era assim uma pessoa muito interessante. E a forma como o filme nos mostra como ele lida com estas comunidades também nos faz ter mais empatia. Está a pessoalizar a história. A única maneira de nos tornar mais humanos é percebermos que aquelas histórias são também humanas e eu acho que o cinema tem muito esse papel.

Um dos filmes mais aguardados da competição do IndieMusic este ano é Ney à Flor da Pele (Felipe Nepomuceno), uma antologia visual da carreira de Ney Matogrosso. De que forma é que este tipo de documentários permitem ao público estabelecer uma maior ligação com o artista e com a sua carreira e vida?

É assim, depende muito de como os filmes são feitos. O filme sobre o Matthew Herbert, o A Symphony of Noise (Enrique Sánchez Lansch) é um bom exemplo disto. É um filme que é muito sobre o processo criativo do Matthew Herbert. E quando ouves um disco, ou se vires um concerto dele, tu rapidamente percebes que ele é um artista multidisciplinar e muito criativo mas que também que existe ali algum tipo de obsessão com o esquisito. E quando ouves um disco, ganhas essa curiosidade – digo eu, eu normalmente ganho – para perceber como é que aquela música chegou de A a B e de como é que foi a construção daquele disco. Fico curiosa e gosto de perceber as coisas. E neste caso [do A Symphony of Noise] percebes o processo criativo deste músico, que envolve uma desconstrução muito grande daquilo que é a música. E percebes isso se prestares atenção a qualquer trabalho dele. É óbvio que um bom filme sobre o processo criativo de um músico traz-te a explicação, ou pelo menos parte dela, daquilo que é o seu processo criativo e aproxima-te mais dos artistas.

Por fim, queria perguntar-te: se tivesses de escolher uma lista de cinco filmes da 18.ª edição do IndieLisboa para recomendar os leitores do Espalha-Factos a ir ver ao cinema, quais seriam?

A lista dos dezasseis filmes a competição na secção IndieMusic da 18ª edição do IndieLisboa pode ser encontrada abaixo:

Longas

  • A Symphony of Noise (Enrique Sánchez Lansch / Alemanha)
  • Crock of Gold: A Few Rounds with Shane MacGowan (Julien Temple / Reino Unido, EUA)
  • Different Johns (Robert Carr / França, Alemanha, Perú, EUA)
  • Já Estou Farto! (Paulo Antunes / Portugal)
  • Live from the Centre of Earth (Iain Forsyth, Jane Pollard / Reino Unido);
  • Mimaroğlu: The Robinson of Manhattan Island (Serdar Kökçeoğlu / Turquia, EUA)
  • Ney à Flor da Pele (Felipe Nepomuceno / Brasil)
  • Nueve Sevillas (Gonzalo García Pelayo, Pedro G. Romero / Espanha, França)
  • Poly Styrene: I Am a Cliché (Celeste Bell, Paul Sng / Reino Unido)
  • Sisters With Transistors (Lisa Rovner / Reino Unido)
  • The Nowhere Inn (Bill Benz / EUA)
  • The Sparks Brothers (Edgar Wright / Reino Unido, Estados Unidos)

Curtas

  • Caudal (Luís Sobreiro / Portugal)
  • Eram 27 Dias e Paraste (Jota Assis e Noiserv/ Portugal)
  • Patrick (Luke Fowler / Reino Unido)
  • We Were Floating High (Tiago Gomes / Portugal)

Os bilhetes para as sessões da 18ª edição do Festival Internacional de Cinema IndieLisboa podem ser adquiridos na Ticketline ou nas bilheteiras físicas do festival.

Lê também: ‘Rebuild of Evangelion’: fugir da solidão e escapar para a realidade