IndieLisboa 2021. O que ver e o que esperar da 18.ª edição do festival

O festival de cinema independente arranca este sábado na capital e estende-se até 6 de setembro

A 18.ª edição do IndieLisboa – Festival Internacional de Cinema chega este sábado (21) à capital, com exibições até 8 de setembro. São 276 filmes em cartaz, a ocupar as salas habituais: Cinema São Jorge, Culturgest, Cinema Ideal e Cinemateca Portuguesa. Regressam ainda as sessões ao ar livre após um ano de paragem, que vão ter lugar na esplanada da Cinemateca e no jardim da Biblioteca Palácio Galveias.

Depois de ter sido adiado em consequência da pandemia, o festival terá as próximas duas semanas para celebrar a maioridade, já com 18 anos de existência. As expectativas da organização são otimistas, mas cautelosas: “esperamos ter mais convidados, porque as restrições estão menos pesadas”, afirma Carlos Ramos, diretor e programador do festival. Contudo, “o festival ocorrerá nos mesmos moldes [de 2020], com salas a 50 % de lotação.  

Da programação, destacam-se filmes como Sisters with Transistors e Poly Styrene: I am a Cliché, da secção IndieMusic, sobre mulheres que mudaram o mundo da música eletrónica e punk. Temas como celebração da cultura negra, superação e confrontos familiares marcam presença na competição internacional, onde as mulheres são protagonistas. Terás também a oportunidade de revisitar clássicos do cinema de autor e conhecer novos talentos do cinema nacional, nas 9 secções e sessões especiais que compõe o IndieLisboa.

Há ainda novidades à espreita, como a criação do cinema de colo, no IndieJúnior, uma nova secção destinada a bebés e crianças com idades até 3 anos, e a apresentação da obra completa de Sarah Maldoror, ícone do cinema africanista.

A sessão de abertura terá lugar este sábado (21), às 21 horas, no Cinema São Jorge, com a exibição do filme Summer Of Soul (…Or, When The Revolution Could Not Be Televised)de Ahmir “Questlove” Thompson, sobre o Festival Cultural de Harlem de 1969. O festival durou seis semanas e teve concertos de Stevie Wonder, Nina Simone e outros gigantes do movimento negro, mas o acontecimento, que partilha o ano do festival Woodstock, apagou-se da memória coletiva.

O IndieLisboa termina dia 8 de setembro, às 22 horas, com a exibição de um dos filmes premiados na edição. Os premiados das várias competições vão ser conhecidos na cerimónia de encerramento, dia 6.

Shiva Baby e Radiograph of a Family em destaque na competição internacional

Nesta 18.ª edição, as mulheres são protagonistas, dentro e fora do ecrã. A competição internacional traz para o grande ecrã filmes dos quatro cantos do mundo, seis documentários e seis dramas ficcionais, com sete mulheres cineastas a encabeçar a secção.

Shiva Baby, de Emma Seligman, é um dos destaques a não perder. Trata-se de “uma comédia, o que nem sempre abunda na competição internacional, e esta é muito divertida”, afirma Carlos Ramos. O filme conta a história de Danielle (Rachel Sennott), uma jovem judia bissexual que se cruza com a família numa shiva (cerimónia fúnebre judia), onde terá de lidar com o seu futuro, a ex-namorada, o sugar daddy e múltiplos parentes bisbilhoteiros.

Radiograph of a Family, de Firouzeh Khosrovani, da mesma competição, é outro destaque da edição. “[O filme] fala sobre o Irão, sobre a relação de um casal, a mãe e o pai da realizadora, que viviam a sua relação em mundos antagónicos: um adepto do ponto de vista liberal e secular e outro da perspetiva islamista, religiosa, que na altura foi instaurada no Irão”, num retrato intimista da memória familiar, resume o diretor do festival.

A propósito dos Jogos Olímpicos, Les Sorcières de l’Orient, de Julien Faraut, dá-nos a conhecer a famosa equipa japonesa de voleibol feminino que ficou célebre nos anos 1960, com um recorde de mais de 200 vitórias seguidas. As Bruxas do Oriente, como conhecidas as jogadoras, tornaram-se ícones nacionais depois de conquistarem o ouro nos Jogos Olímpicos de 1964, com séries de manga e anime a serem feitas sobre elas e uma legião de fãs a vibrar a cada vitória.

IndieMusic continua a somar pontos junto do público

Além de Summer of Soul, são vários os destaques do ano que remetem para o universo musical, “uma secção sempre muito procurada”, assevera Carlos Ramos. O foco da edição de 2021 vira-se para as histórias individuais, de artistas que rejeitaram o cânone e mudaram para sempre a indústria.

É o caso de Ney à Flor da Pele, do realizador brasileiro Felipe Nepomuceno, uma antologia visual sobre a figura de Ney Matogrosso, composta por imagens de arquivo das performances irreverentes do artista e da sua receção na TV brasileira.

Sisters with Transistors traz para a superfície as mulheres pioneiras da música eletrónica nos anos 1960 e 1970, que foram obscurecidas na história em detrimento dos homónimos masculinos. Nomes como Clara Rockmore, Laurie Spiegel ou Suzanne Ciani, “foram absolutamente fundamentais e este é o filme que as coloca, finalmente, em primeiro plano”, sublinha Carlos Ramos.

Também Poly Styrene: I am a Cliché homenageia as mulheres na música. O filme conta a história de vida conturbada, mas inspiradora, da primeira mulher a liderar uma banda punk no Reino Unido, numa altura de ressurgência do nacionalismo. Poly Styrene foi pioneira no género e antecipa o movimento das riot grrrl, de punk feminista no princípio da década de 1990.

Retrospetiva de Sarah Maldoror homenageia a cineasta revolucionária

“Prontos para a Revolução?”. A saudação é de Sarah Maldoror, realizadora africanista e militante anticolonialista que faleceu o ano passado, aos 91 anos, vítima da Covid-19.  Mas não foi a sua morte o motivo da homenagem, garante o diretor do festival.

“Já há muito tempo que pensávamos fazer esta retrospetiva”, esclarece. “Já o ano passado fizemos uma retrospetiva ligada ao continente africano, com o Ousmane Sembène [cineasta e autor senegalês], e achámos que era importante agora mostrar uma mulher realizadora, que foi fundamental na história do cinema africano”.

Sarah Maldoror é pouco conhecida em Portugal, mas tem uma história peculiar com o país. As longas mais emblemáticas da realizadora, Monangambé e Sambizanga, retratam o passado colonial português – a primeira, inspirada numa novela do escritor luso-angolano José Luandino Vieira, na altura preso no campo de concentração do Tarrafal. A cineasta foi casada com o poeta e político angolano Mário Pinto de Andrade, fundador do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola).

A retrospetiva foi trabalhada em parceria com a Cinemateca Portuguesa e com a filha da realizadora, Annouchka de Andrade, que estará em Lisboa para acompanhar a homenagem. Foi um ano de pesquisa de filmes, alguns dos quais estavam perdidos, e que continuam a ser descobertos em vários arquivos de cinema de outros países. O resultado é uma apresentação quase completa da obra de Sarah Maldoror, com cerca de 50 filmes, sobretudo curtas, incluindo trabalhos inéditos e entrevistas.

Sarah Maldoror na Berlinale, em 2017. © D.R

“Achámos importante mostrar este cinema de intervenção, este cinema político, mas ao mesmo tempo um cinema de visibilidade, para a negritude e para os artistas negros africanos”, afirma Carlos Ramos. Sarah Maldoror nasceu em França, filha de pai caribenho, e esteve envolvida nas frentes de libertação anticolonialistas em África.

Competição nacional com novas e velhas caras

O cinema nacional chega concorrido a esta edição do festival, num ano bastante forte em curtas-metragens que exigiu uma sessão extra para as curtas nacionais. Já nas longas, há quatro filmes a concurso. Granary Squares, de Gonçalo Lamas, um filme experimental gravado em Londres durante o confinamento, terá aqui a sua estreia mundial.

Também a concurso estão No Táxi do Jack, de Susana Nobre, inspirado na história verídica de Joaquim Calçada, ex-emigrante e taxista retornado dos Estados Unidos em busca de uma pensão ou reforma; Rock Bottom Riser, de Fren Silva, um filme-ensaio vibrante, gravado sobre um vulcão no Havai, que atravessa os mundos da geologia, etnografia e astronomia; e Simon Chama, de Marta Sousa Ribeiro, que acompanha um jovem ao longo de vários anos durante o processo de divórcio dos pais.

Nas curtas, regressam nomes como Catarina Ruivo, João Pedro Rodrigues e Guerra da Mata, com uma homenagem a Jacques Demy. “Surgem também aqui novos realizadores que de certeza vão marcar o panorama do cinema português nos próximos anos”, como Tomás Paula Marques, com Cabracega, Catarina de Sousa, que faz um filme sobre as aspirações e desejos de jovens queer a “adolescer” em Nova Iorque, e Gabriela Nemésio, com Garças, destacados por Carlos Ramos dos 19 realizadores com curtas na competição nacional.

Na categoria Novíssimos, brilham novos talentos: “não sendo possível ter todos os filmes na competição nacional, há muitos filmes com qualidade que nós queremos que sejam vistos”, com realizadores que “ainda estão na escola” ou são “autodidatas e estão a fazer os seus primeiros filmes, filmes ainda com fragilidades, mas que revelam um potencial enorme”, diz o diretor do festival.

Desde sempre que o IndieLisboa prima pela exposição de novos talentos. Na competição internacional, é critério de admissão os filmes a concurso serem primeiras, segundas ou terceiras obras dos realizadores. Já no âmbito nacional, a magia faz-se com o Novíssimos e as sessões especiais, de onde sairá o vencedor do Prémio Novos Talentos.

“Muitos dos realizadores que estiveram nos novíssimos o ano passado estão agora na competição nacional, e temos a certeza que [os novos] também irão marcar o panorama do cinema nacional no futuro”, acrescenta. O festival tem sido montra e incubadora para a evolução de jovens realizadores portugueses, e é precisamente a sua missão cuidar da saúde do cinema independente, garantindo a sobrevivência de novos trabalhos.

Sessões especiais e outros destaques

Pelo segundo ano consecutivo, a parceria entre o IndieLisboa e o festival literário 5L apresenta a secção Filmar Literatura, onde se revisitam clássicos. Este ano, vão ser apresentados filmes que trabalham a correspondência e a amizade íntima entre cinema e literatura, com cinco filmes que representam cinco géneros literários: poesia (The Colour of Pomegranates), romance (Fahrenheit 451), conto (2001: Odisseia no Espaço), texto dramático (Henrique IV) e novela (Morte em Veneza).

Nas sessões especiais, destaca-se Vieirarpard, um filme de João Mário Grilo sobre a relação da artista Vieira da Silva com Árpád Szenes, que retrata a vida íntima do casal e o espaço que dão a cada um para seguir a sua vida artística independente, sempre com muito amor.

O arquiteto Nuno Portas apresentará a sessão de Cidade de Portas em autorrepresentação, no filme de Teresa Prata e Humberto Kzure que relata as marcas que Portas deixou na cidade de Lisboa. Por fim, Ecos da Vermelha, do jovem realizador Bruno Teixeira, conta a história da resistência antifascista em Vila Franca de Xira, durante o tempo do Estado Novo, na voz de quem a viveu.

Para a competição de curtas internacionais, espera-se uma convidada especial. Joanna Quinn, uma das maiores animadoras gráficas mundiais, vai apresentar a sua curta-metragem, Affairs of the art. Com um estilo muito próprio, sarcástico e irónico, a bizarria reconhecida no traço já lhe valeu uma nomeação para os Óscares para Best Short Film, entre outras premiações.

Celebrar 18 anos de vida em pandemia

A organização do festival recebeu menos submissões nesta edição, fruto de uma menor produção cinematográfica mundial – mas ainda assim sem grande quebra, frisa Carlos Ramos. Foram mais de 3500 propostas recebidas, que resultaram numa programação “bastante forte” e diversificada, “sem quebra na qualidade”. À caixa de correio chegaram ainda muitas candidaturas com curtas relacionadas ao ambiente da pandemia, o que não se reflete na programação, garante o diretor.

Habitualmente, são cerca de 40 mil os espectadores que frequentam o festival, o maior público dos festivais de cinema nacionais. A história do IndieLisboa, desde 2004 até agora, é uma história de resiliência e crescimento do cinema independente. “Ter 18 anos é uma vitória, mas não nos descansa. Todos os anos é uma luta para manter o festival. E se calhar não devia ser”, desabafa Carlos Ramos.

Estes 18 anos do festival mostram a importância do cinema na vida das pessoas e a importância de haver um grande evento, um festival internacional de cinema, no país”, importante no panorama europeu do cinema independente e de autor.

Uma missão que se alinha e tem acompanhado a história das salas de cinema da cidade: “se, quando começamos, em 2004, o fizemos para colmatar uma falta [de cinema independente] na programação, quase duas décadas depois, ela só se agravou”, afirma o diretor do IndieLisboa.

Dos depostos King, Londres, Monumental e Fórum Lisboa, o IndieLisboa ocupa hoje, assiduamente, as mesmas quatro salas de cinema: São Jorge, Ideal e Cinemateca, com a Culturgest a juntar-se à festa. É nestas que podes ver, nas próximas duas semanas, os filmes da 18.ª edição. Podes consultar a programação e outras informações no site do festival.

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