Diários de Otsoga
Fonte: O Som e a Fúria

‘Diários de Otsoga’. Realidade e ficção numa carta de amor ao verão

Diários de Otsoga, filme veranil realizado por Maureen Fazendeiro Miguel Gomes, estreia esta quinta-feira (19) nas salas de cinema portuguesas. O filme teve a sua estreia mundial na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes e tem presença marcada em vários festivais nos próximos meses.

Filmado durante o confinamento no verão do ano passado, Diários de Otsoga acompanha a rotina estival de três pessoas, Crista AlfaiateCarloto Cotta João Nunes Monteiro,  que se deixam levar pela vida vagarosa numa casa de campo. Passeios pelos pomares que fazem lembrar velhos clássicos de Éric Rohmer, tardes ociosas e a construção de um borboletário são as principais atividades que ocupam este trio ao longo dos 25 dias registados neste diário.

Há, no entanto, um pormenor. A ordem cronológica em Diários de Otsoga é invertida: a ação começa no 25.º dia, ao som de The Night‘, de Frankie Valli and the Four Seasons (que tem lugar marcado na banda sonora deste verão), e acaba no primeiro. Quando toca a mesma canção, fecha-se o ciclo, mas na última (ou primeira) festa, percebemos que o trio não está sozinho.

“É um filme sobre estar com outras pessoas”, afirmou Miguel Gomes em entrevista à agência Lusa. Inicialmente, assola-nos a solidão. Os três sozinhos numa casa grande, com pouco para fazer durante um verão escaldante. A sensação arrebatadora das imagens é firme, mas as ações são ociosas e lentas e o trio fecha-se em si, dando pouco a conhecer a este lado. Mas, à medida que o tempo passa, elementos vão sendo adicionados. Vamo-nos apercebendo, pelos intertítulos, que o tempo é traiçoeiro – Otsoga é, afinal, Agosto ao contrário. O filme ganha ritmo e, à medida que os dias retrocedem, o borboletário vai se desconstruindo. Mas Diários de Otsoga chega ao cume quando é convocada uma reunião de equipa onde os guionistas (Mariana Ricardo junta-se, neste trabalho, aos realizadores), técnicos de som e operadores de câmara, cozinheiras, realizadores e três cãezinhos discutem o futuro da produção em tempos de pandemia.

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À primeira vista, as máscaras e os pedidos de distanciamento e cautela causam estranheza. A velha questão de incorporar a realidade indesejada na fuga da ficção coloca-se, mas apenas nos primeiros momentos. Após o baque inicial, constatamos que Diários de Otsoga só faria sentido assim. O que se discute na mesa comprida altera as filmagens dos dias seguintes (as decisões tomadas que já vimos, na verdade, e é engraçado perceber porque é que aconteceu isto e não aquilo). O filme ganha uma dimensão mais profunda quando Miguel Gomes e Maureen Fazendeiro, sob a proteção de um guarda-chuva ou por chamadas telefónicas, decidem os próximos passos da rodagem. Situações do dia-a-dia, como uma consulta da realizadora, são incorporadas no filme, acabando em filmagens hilariantes que lhe dão brilho.

É um filme sobre uma velha questão que existe agora, com Covid ou sem Covid, esta coisa de vivermos juntos, de sermos uma comunidade“, disse Miguel Gomes à Lusa. E Diários de Otsoga é precisamente isso. Um filme divertido sobre as idiossincrasias de uma equipa de produção em confinamento, as suas dinâmicas, confusões sobre papéis e questões logísticas – que não seriam muito diferentes noutra altura. Fresco, esteticamente belo e, por vezes, hilariante, Diários de Otsoga é uma carta de amor às memórias do Verão.

A estreia de Diários de Otsoga dá-se no Cinema Ideal, em Lisboa, com a presença dos realizadores e da ministra da Cultura, Graça Fonseca. No dia 22 de agosto, os realizadores estarão presentes numa sessão especial no Cinema Trindade, no Porto.

 

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