Respect
Imagem: Divulgação

Crítica. ‘Respect’ honra o poderoso legado de Aretha Franklin

Protagonizado por Jennifer Hudson, Respect é o primeiro filme biográfico de Aretha Franklin, que chega aos cinemas portugueses esta quinta-feira, 12 de agosto. O filme de Liesl Tommy tem tanto de dramático como encantador, num retrato que carrega o peso do legado de uma das maiores artistas de sempre, se não mesmo a maior.

Em 2018, ainda mesmo antes da morte da própria Aretha Franklin, Jennifer Hudson foi escolhida pela cantora para interpretá-la no grande ecrã, mantendo-se envolvida no projeto até à data da sua morte a 16 de agosto do mesmo ano, aos 76 anos. Realizado por Liesl Tommy e com o argumento de Tracey Scott Wilson, a obra foca-se nos primeiros anos da jovem Aretha – como vocalista do coro de igreja – até à sua ascensão enquanto estrela mundial, aos relacionamentos conturbados com os homens e ao declínio emocional que lhe poderia ter arruinado a carreira.

Considerada a Rainha do Soul, Franklin é vista também como a voz mais influente da década de 1960, em que representou não só uma voz para o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos – liderado por Martin Luther King Jr. – mas também para todas as mulheres, tornando-se um ícone feminista que deu força às mulheres não só numa América patriarcal mas, também, num mundo ainda adormecido perante a luta pela igualdade de género.

Vencedora de 18 Grammys e com mais de 40 nomeações durante a carreira, Franklin começou por assinar com a Columbia Records com apenas 18 anos, mas foi com 25 que a Rainha do Soul encontrou em Respect – original de Otis Redding – uma maneira de se reinventar e reafirmar no mundo da música, num hino de celebração das mulheres mas também da própria carreira, que vem dar nome à longa-metragem de 2021.

A fusão de Hudson e Franklin

Respect é protagonizado por Jennifer Hudson.
Jennifer Hudson foi escolhida pela própria Aretha Franklin para interpretá-la no cinema. Fotografia: MGM/Quantrell D. Colbert (Divulgação)

Dar vida – e voz – à Rainha do Soul deverá ter sido o papel mais desafiante da carreira de Jennifer Hudson, que já conta com um Óscar de Melhor Atriz Secundária de 2007 pelo papel interpretado em Dreamgirls, ao lado de Beyoncé, em que provou, na sua estreia no grande ecrã, que não só era uma cantora memorável mas também uma atriz com futuro em Hollywood. Mais de uma década depois, Hudson acabou por ser escolhida pela própria Aretha para embarcar no desafio da sua vida e navegar em direção a Respect.

Ao contrário de nomes como Marion Cottilard, que encarnou Édith Piaf no celebrado La Vie en Rose, ou Rami Malek, que foi Freddy Mercury em Bohemian Rhapsody, performances pelas quais ambos venceram um Óscar, Hudson encarregou-se de dar voz aos temas de Aretha Franklin ao vivo durante as gravações das cenas, atribuindo um caráter mais verdadeiro e encantador a Respect.

A voz da ex-participante do American Idol não procura ser comparável à de Aretha Franklin, mas encontra nos temas da Rainha do Soul uma forma de contar uma história verdadeira, emotiva e de superação. Não faria sentido abdicar dos dons vocais de Hudson para homenagear Franklin de uma forma preguiçosa, ainda que legítima. Respect ganha pontos por não tentar fazer de Hudson uma Rainha do Soul, mas sim por se manter fiel ao seu propósito e por nos fazer acreditar que por momentos não vemos uma interpretação, mas sim um renascimento.

A atuação de Jennifer Hudson tem tanto de credível como de verosímil, com emoção mantida à flor da pele, numa atuação que não só carrega o peso da coroa mas também o peso de uma história de gravidez precoce, relações abusivas, alcoolismo e relações familiares problemáticas. Se dúvidas existessem, após Respect, Hudson torna-se uma das favoritas – se não a favorita – ao Óscar de Melhor Atriz no próximo ano, onde provavelmente poderá encontrar a concorrência de Lady Gaga, com House of Gucci.

Uma vitória biográfica

Aretha Franklin foi uma das principais vozes da década de 1960.
Aretha Franklin foi uma das principais vozes da década de 1960. Jennifer Hudson (esq.) e Mary J. Blige (dir.), como Dinah Washington. Fotografia: MGM/Quantrell D. Colbert (Divulgação)

Existem certas regras para brilhar em Hollywood. A primeira é realizar ou protagonizar um filme sobre uma das grandes Guerras Mundiais. A segunda, geralmente, é protagonizar uma filme baseado numa figura histórica, seja ela um monarca, um membro da família real, ou alguém da cultura pop. Nos últimos anos temos assistido ao surgimentos de obras como Judy, sobre Judy Garland, ou Rocketman, sobre Elton John, num estilo biográfico que parece ainda não se ter esgotado. Prova disso é a vitória de Respect, que se apresenta como uma biografia sólida – em parte por ter tido mão da própria rainha do Soul – mas também por se dedicar à apresentação de uma vida não só gloriosa mas também frágil, sem passar pela glorificação da dor ou romantização do passado.

O filme de Liesl Tommy é um vitória dentro do próprio género por vários motivos. Em termos técnicos, por ser dono de uma realização interessante, do ponto de vista do espectador, e gratificante, do ponto de vista das personagens; uma conquista sonora pelas músicas e arranjos ao vivo mas também cinematograficamente, com planos, olhares e cores que alimentam o universo de Aretha Franklin e a sua história de vida.

A vitória biográfica da Rainha do Soul é um registo glorioso de uma obra que carrega o poderoso legado de Aretha Franklin, numa mensagem de superação, de trabalho árduo, de procura pela voz interior e do amor-próprio, mas também do talento que testemunhámos e que poderemos sempre continuar a testemunhar de uma das vozes mais marcantes do século XX, agora num renascimento de impor respeito.

Respect chega esta quinta-feira, 12 de julho, às salas de cinema portuguesas.

 

Respect
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