The Forever Purge
Leven Rambin como Harper Tucker no filme The Forever Purge, realizado por Everardo Valerio Gout. (Fotografia: Divulgação)

Crítica. ‘The Forever Purge’ inova na abordagem mas abusa dos clichés

O quinto filme da saga "The Purge" arrisca uma nova abordagem, mas acaba por desiludir

Um conceito assustador, uma fórmula de sucesso. Este é o lema que podemos aplicar à saga The Purge, que estreou em 2013 e conta já com cinco filmes. The Forever Purge é o mais recente, ainda nos cinemas, e, apesar de ter sido apontado como o último da franquia, haverá mais uma sequela.

James DeMonaco, o criador do franchise, revelou à Collider que a próxima sequela será focada no personagem Leo (Frank Grillo), já conhecido do público por ter protagonizado o segundo e o terceiro filme da saga.

Uma fórmula de sucesso (ou não)

O enredo de toda a saga é centrado num conceito muito simples e cheio de potencial: uma noite de crime legalizado nos Estados Unidos, de periodicidade anual, organizada pelos Novos Pais Fundadores da América, um partido de carácter totalitário que batiza o evento como “a purga” (The Purge). Durante as 12 horas em que o evento ocorre, todos os tipos de crimes são permitidos, sendo que cuidados médicos são proibidos até ao final da noite, e só aos membros do governo norte-americano é garantida a imunidade total.

A ação dos filmes situa-se cronologicamente num futuro próximo ao nosso, e aborda temas fraturantes nos EUA, tais como o racismo, a instabilidade social e o aumento das taxas de desemprego e de criminalidade. Desta forma, estão então reunidas as motivações que levam os Novos Pais Fundadores da América a criar a purga. O seu principal objetivo é fazer com que os cidadãos possam ser totalmente livres durante essa noite. Que libertem os seus instintos de transgressores, de assassinos. Que soltem a sua fúria da maneira que entenderem e sem serem punidos por isso.

Esta foi a solução encontrada para combater os problemas sociais que os EUA estavam a enfrentar, e verdade seja dita: apesar de conseguirmos apurar que a purga conseguiu efetivamente minimizar algumas destas problemáticas, não significa que tenha sido pelos melhores meios. Tudo o que o governo conseguiu com a purga foi libertar o caos e instaurar a anarquia.

The Forever Purge
Imagem: Divulgação/Universal Pictures

Mas como é que um conceito tão simples é suficiente para cinco filmes? Muito simples: por si só, não é. Apesar de todos os filmes da franquia serem classificados como sendo também de terror, são raros os momentos onde de facto sentimos essa tensão, essa adrenalina e medo que são essenciais em filmes desta natureza. O grande problema é que a ausência destas dinâmicas teve tendência a aumentar de filme para filme, o que acaba por desgastar uma fórmula que tem tudo para poder brilhar. Ora vejamos:

O primeiro filme foi um sucesso de bilheteira, com todo o mérito. Existe um bom desenvolvimento e caracterização dos protagonistas. A atuação brilhante de atores como Lena Headey (Game of Thrones) ou Ethan Hawke (The Magnificent Seven) torna o enredo muito credível e empático, na medida em que facilmente conseguimos criar laços com os personagens e torcer pela sobrevivência destes.

O filme faz uso de alguns jumpscares mas sem roçar o exagero ou sem serem demasiado previsíveis. Por fim, mas não menos importante, um dos grandes pontos fortes são o carisma e loucura do vilão principal, que juntamente com o seu gangue de purgadores consegue estabelecer um clima de tensão e medo não só para a família de protagonistas, a família Sandin, como também para nós, espectadores. Este é sem dúvida o filme mais bem conseguido de toda a saga.

Mas então onde é que The Forever Purge falha?

The Forever Purge - Ana de la Reguera
Imagem: Universal Pictures / The Forever Purge

‘The Forever Purge’ inova, porém desilude

O quinto filme prometia uma variável diferente na fórmula habitual de toda a saga. Isto porque a premissa central do filme é o facto de ninguém estar seguro, mesmo depois do fim da noite de purga. Não há regras. É a anarquia total. Soa bem, verdade? Mas só essa mudança não foi suficiente para esconder os erros evidentes que o filme comete.

O primeiro erro reside na incongruência com o final do terceiro filme, que mostra a senadora Charlie Roan (Elizabeth Mitchell) ser eleita Presidente dos Estados Unidos e a abolir de vez a purga. The Forever Purge retrata uma época em que Roan não foi reeleita, e os Novos Pais Fundadores da América subiram de novo ao poder. É portanto uma sequela cronologicamente distante dos eventos do filme anterior, informação essa que não fica bem esclarecida para quem não se dedica a fazer uma pesquisa, e que nos pode confundir enquanto espectadores.

Relativamente à ação do filme, inicialmente são-nos apresentados os personagens principais, divididos em duas equipas que previsivelmente se iriam juntar em algum momento da história. Adela (Ana de la Reguera) e Juan (Tenoch Huerta) são um casal que atravessa ilegalmente a fronteira para o Texas com o intuito de fugir de um cartel de droga mexicano e começar uma nova vida, à procura de liberdade, justiça e novas oportunidades (o tão famoso sonho americano). Juan trabalha para a família Tucker, proprietários de uma grande quinta.

Quando se dá o início de mais uma purga anual, Juan e Adela abrigam-se com outros imigrantes num santuário protegido por seguranças armados. Contudo, quando o evento termina, os protagonistas percebem rapidamente que algo não está bem. São atacados pouco depois pelos purgadores que tornaram a cidade num caos, e acabam por se juntar à família Tucker, para quem Juan trabalha. Juntos, rumam em direção ao México, que abriu as suas fronteiras para abrigar os fugitivos da purga, dada a guerra que se instalava por todos os Estados Unidos da América.

The Forever Purge
Imagem: Universal Pictures / The Forever Purge

Mensagens importantes à sombra dos erros

Apesar de ter várias mensagens sociais relevantes, seja pelo exemplo do que deveria significar o verdadeiro sonho americano, seja pelo apelo à luta contra o racismo direcionado a imigrantes, todas essas questões políticas e sociais acabam por passar despercebidas devido aos vários erros que existem no filme.

Mesmo sendo este o filme com maior orçamento de toda a franquia, os efeitos especiais deixam muito a desejar, algo que certamente não passará despercebido à maioria dos espectadores.

A caracterização e desenvolvimento das personagens são quase nulos, inclusive no caso dos protagonistas, Juan e Adela. A família Tucker não teve destaque suficiente para fazer brilhar qualquer um dos seus membros a não ser Dylan Tucker (Josh Lucas), e mesmo neste caso a sua caracterização foi feita de forma muito superficial.

Além de o filme carecer de um vilão marcante e intimidante, a luta dos purgadores em si parece algo cliché. É contraproducente, vazia, e altamente hipócrita, na medida em que não parecem ter um objetivo claro além de pura destruição e derramamento de sangue inocente. Se por um lado proclamam detestar a elite protegida pelo sistema político atual, por outro também dizem odiar imigrantes e apoiar a purga. Nem sequer a caracterização das máscaras dos purgadores marca pela diferença, caindo no esquecimento, ao contrário de algumas máscaras icónicas usadas por vilões noutros filmes da saga.

Imagem: Universal Pictures / The Forever Purge

Ainda assim, The Forever Purge consegue fazer aquilo que qualquer filme desta franquia faz: entreter. Apesar das suas falhas, o ritmo do filme segue em crescendo, os planos de câmera são ousados, as atuações são credíveis e as cenas de ação são bem coreografadas (com destaque para as cenas de ação de Ana de la Reguera). Só a inovação do conceito da purga faz com que nos sintamos presos ao ecrã. Com a recente confirmação de que este não é o último filme da saga, resta-nos esperar para descobrir onde nos levará a próxima purga. “May God be with you all”.

The Forever Purge
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