Almirante Ramos
Pedro 'Almirante' Ramos | Fotografia: Martim Torres

Entrevista. Pedro ‘Almirante’ Ramos: “O meu interesse foi sempre procurar de onde vem o pop-rock português”

Pedro ‘Almirante’ Ramos, cofundador da editora discográfica Amor Fúria, que tomou de assalto melómanos por Portugal fora no fim dos anos 2000, lançou o meio disco (ou EP) Cinco Canções no fim do ano passado. Não é, de todo, a sua estreia enquanto músico – e podemos ouvir os EPs de bandas de outros tempos, como A Praia Grande e O Verão Azul, no Bandcamp -, mas é em Cinco Canções que encontramos, realmente, o imaginário e a essência de Almirante Ramos.

Numa entrevista exclusiva ao Espalha-Factos, Almirante Ramos percorreu o caminho desde a fundação da Amor Fúria até o seu regresso à música e aos palcos, falou-nos do imaginário por trás das suas canções e traçou um retrato da evolução da música portuguesa ao longo das décadas.

Porque é que te apresentas enquanto “Almirante” Ramos?

Almirante nasceu de uma forma fortuita. Quando eu comecei a conceber coisas com o meu amigo Manuel Fúria e começámos a imaginar a editora Amor Fúria, surgiu a possibilidade de haver, para além de concertos e eventos com apresentação de bandas, um DJ para dar seguimento às bandas. Na altura, dávamos o nome de “alternadores de discos” – tínhamos, e temos, esta mania de traduzir e aportuguesar tudo – e foi aí que nasceu a ideia do nome Almirante Ramos. Eu tinha um avô que era Contra-Almirante na Marinha que fez a vida toda nessa área e esteve ligado à Marinha Portuguesa.

Uma espécie de homenagem, então.

Sim, mas não só. Foi fortuito no sentido em que foi o Manuel que me “batizou”. Houve uma noite em que ele disse, “não podes ser só o Pedro Ramos, tens de ter alguma coisa diferente que chame a atenção. O teu avô não era Almirante? Vais ser o Almirante Ramos“. Eu ainda fiquei relutante e, na verdade, nunca assinei as canções como Almirante Ramos. Só agora, em 2020, quando comecei a pensar fazer este EP, é que isso surgiu. Ia assinar como Pedro Almirante Ramos mas acabou por ficar só Almirante Ramos, para simplificar e porque era já o meu nome como DJ.

Antes desta aventura a solo, tiveste outros projetos, como A Praia Grande e Verão Azul, no início da década de 2010, e acompanhaste as edições da Amor Fúria. Calculo que seja muito diferente lançar música nessa altura ou agora. Podes falar-me dessas diferenças? 

Nós começámos em 2007. Diria que tivemos uma atividade mais intensa entre 2008 e 2013, e fomos fazendo coisas até 2016, mas de uma forma já um bocadinho mais intermitente. Foram praticamente nove anos de editora, e acho que as coisas mudaram imenso desde o momento em que iniciámos até agora. Principalmente, na questão da distribuição da música. Antes, já se começava a falar de distribuição digital, mas ainda estávamos no tempo do MySpace, o Spotify ainda estava a começar, não se falava de Bandcamp nem Soundcloud e a distribuição era feita muito por passa-a-palavra e através de edições físicas. Nós optámos muito pelo CD, tivemos um ou outro vinil, e alguns CD-Rs – toda a música era editada de forma física, algo que não aconteceu com o meu EP ainda, por exemplo.

Acho que foi sobretudo isso que mudou – a forma de chegar às pessoas mudou bastante. A nível pessoal, as coisas que eu fiz quanto à edição de canções no passado, na Amor Fúria, ainda seriam coisas bastante iniciais e ainda não tão pensadas como as que estou a fazer agora. Seriam coisas ainda muito emotivas e nós, enquanto banda, não estávamos a pensar no que poderia vir a seguir, ou que objetivos queríamos para aquelas canções para além de as gravarmos. Não havia muito mais ambição do que isso. Agora há uma ambição de tentar respeitar mais as canções e tentar que fiquem registadas de uma maneira mais produzida. Tento honrar mais as canções, fazer com que soem melhor.

Durante essa altura da Amor Fúria, foste também editor, produtor, distribuidor, organizador de concertos… Como é passar agora para o outro lado?

Eu acabo por estar sempre dos dois lados. Seja como editor, distribuidor, criador ou autor, acabo sempre por estar dos dois lados. Eu não tenho manager, ainda não tenho agente de booking, por exemplo, ainda sou eu que trato de tudo. Mas também, como tenho essa experiência da editora, estou mais ou menos “dentro das coisas” [risos].

Almirante Ramos
Pedro ‘Almirante’ Ramos | Fotografia: Martim Torres

Falaste há pouco no facto da distribuição ser feita muito à base de discos físicos. Ao ver as tuas redes sociais, sei que usas as plataformas sobretudo para falar de música. Como é que as redes podem ajudar nesse processo de publicitação dos discos? 

Antes de ser músico e de fazer canções, eu sou sobretudo um melómano, tenho um enorme interesse na música em geral. Não falo só de um estilo musical – eu gosto de estar a par de tudo, e isso implica, obviamente, que tenha uma grande dedicação. Neste momento, ainda tenho tempo para fazer isso, porque estou a definir os meus próximos passos profissionais, a dedicar mais do meu tempo à música e, muitas vezes, em vez de estar a fazer canções ou estar à frente do computador a imaginar novas melodias, estou a ouvir canções de outros. Gosto de ouvir mais as canções de outros do que as minhas [risos]. Mas acho que todos os artistas acabam por ter esse dilema, até porque depois temos de apresentá-las ao vivo e, ao ouvi-las, acabamos por gastá-las um bocadinho. A tua pergunta vinha no sentido de como as redes sociais e a distribuição mudaram os meus hábitos de consumo?

Também. E se é mais fácil dar a conhecer música nova neste contexto.

É e não é. Por um lado, sim. Acho que as plataformas de streaming têm um lado bom e outro menos bom. O lado bom é poderes estar presente e conseguires chegar às plataformas de uma forma muito fácil. É como estares num hipermercado gigante de música que está ali ao teu dispor… Só que isso faz com que haja uma dispersão de “produtos” ou de propostas, e acaba por ser uma tarefa gigantesca conseguires estares atento a tudo, mesmo para um melómano. No fundo, os canais acabam por ser os mesmos. Há uma barreira hoje em dia e muitos artistas, mesmo a nível internacional, se não a conseguirem furar e chegar a uma publicação, a um editor ou alguém que faça promoção, acabam por ficar perdidos. Não vão chegar a ser conhecidos, e não sendo conhecidos não são ouvidos e o algoritmo não vai buscar a música deles. E isto também funciona ao contrário. Acabamos por passar incógnitos e podes pensar que não consegues fazer da música a tua vida.

No fundo, acho que, com esta abrangência toda e com esta possibilidade de ouvires milhares e milhares de artistas, às vezes pode não ajudar artistas que estão a emergir. Os que já estão estabelecidos estão “dentro” e cada vez que lançam coisas novas vão ser falados e é difícil chegar aí.

No teu “meio disco”, o Cinco Canções, aludes a uma semiótica da portugalidade. Mencionas os mares, a bandeira, a vitória, a história, de certa maneira em contraciclo com algum afastamento dos símbolos nacionais que se tem vivido. Acabas por encarnar e relembrar alguns clássicos nacionais e falas numa reconciliação com a tua língua e com o país. Ao mesmo tempo, ouve-se muito Zeca Afonso nas tuas canções e a capa alude a um disco dele também. Em que medida é que atribuis um novo significado a todas estas questões? 

É uma boa pergunta. Acho que a portugalidade, ou usar os seus símbolos, não é algo que esteja assim tão fora de moda. Tens muito disso em David Bruno, Chico da Tina, mesmo na própria Maria Reis e na malta da Cafetra e da Maternidade que, de certa maneira, não falando diretamente da portugalidade, ela acaba por estar lá. A nossa cultura está lá. Tens também um movimento “novo” de uma renovação do fado, com o Conan Osíris, Pedro Mafama ou Rita Vian. Eu acho que não é uma coisa assim tão fora de tendência.

Acho que também é uma coisa que nós [Amor Fúria] inaugurámos e penso que foi a nossa mais-valia, porque chegámos numa altura em que a música portuguesa estava mais órfã. Nós, a Flor Caveira e outros artistas que surgiram nessa altura – o Manuel Fúria escreveu um panfleto, muito Fundação Atlântica – pegámos muito nesses símbolos, nessas palavras, bandeiras da cultura portuguesa. E a cultura portuguesa que faz parte do nosso dia-a-dia e da nossa maneira de ser. Não digo que tenha de ser sempre enaltecida, mas sim que não pode ser esquecida. E, de certa maneira, há quase 15 anos contavam-se pelos dedos das duas mãos as bandas que cantavam e se expressavam em português – os Toranja, os Linda Martini, Xutos & Pontapés, Clã… Claro que havia o hip-hop, mas não havia assim tanta expressão portuguesa no underground e era um bocado excêntrico, até. Assim surgimos nós, a Amor Fúria, a Flor Caveira que ajudámos a pôr em palco, e foi assim que surgiu Samuel Úria, Tiago Guillul, B Fachada, Diabo na Cruz, João Coração, e todas as coisas da Amor Fúria como os Golpes, Os Velhos, Feromona

Eu uso estes símbolos, essas palavras, porque cresci com elas. Enquanto artista, aquilo que vem ao de cima são essas vivências, o facto de ouvir não só as bandas que editava mas também muitas bandas do passado, porque nós não viemos do nada. O meu interesse foi sempre procurar de onde vem o poprock português. E se chegarmos ao cerne disso, vamos encontrar Heróis do Mar, Sétima Legião e, ainda mais para trás, os cantautores, Zeca Afonso, Sérgio Godinho. É um interesse genuíno e vou beber muito disso, e quando vou escrever isso sai naturalmente. Acaba por ser uma coisa poética que tem origem em coisas mais antigas.

Uma das canções que ganha certamente destaque no Cinco Canções é a ‘Volta‘. Tem quase um “meio disco” só para ela, com várias remisturas de artistas diferentes. Porquê esta canção e como é que surgiram estas remisturas? 

Essa canção acaba por ser aquela que achei mais marcante no “meio disco” – lá está, mais um aportuguesamento, que é título de um disco d’Os Quais. Eu comecei a perceber que a ‘Volta‘ era a canção mais emblemática e surgiu a ideia do Silas [Ferreira] de colocar a letra escrita na capa, e acabou por ser o meu produtor, o Gagliardini Graça, que sugeriu uma remistura. Foi ele que teve a ideia, no fundo. A partir daí, surgiram outros convites e fiz mais três: uma com a dupla OITO//OITO, outra com o Filipe Sambado e outra remistura minha num estilo mais vaporwave/chillwave, que fiz ao diminuir a velocidade da canção numa estética “slowed and reverb“. A ideia foi, com essas remisturas, relançar o EP. Senti, na altura, que houve algum burburinho no meu círculo mais próximo mas senti também que não o tinha lançado com a devida estratégia promocional. Foi nesse momento que pensei em relançar, passando a ideia de que há uma canção remisturada que faz parte do “meio disco”. Portanto, essas remisturas remetem para um EP que já existe, que tem estas cinco canções e que eu queria que chegassem a mais gente. Foi uma boa forma de colocar novamente o Cinco Canções a ser falado, e teve a ver também com a decisão de ter uma assessoria na parte da comunicação e desse lado promocional.

Há uns dias divulgaste, nas redes sociais, que uma das canções do teu novo disco chamar-se-á ‘Nova Iorque‘ e que será uma balada. Em que fase é que estás com o disco, o que é nos podes contar?

O processo, neste momento, está a decorrer. Este novo disco é uma reinterpretação de um disco que existe, mas que não existiu para o público. A banda que eu tive com a minha ex-mulher teve um EP e um single, que vai estar presente neste disco e que seria o tema principal de um disco que nunca chegou a existir. Eu tinha duas opções para essas canções: ou as esquecia, e ficavam guardadas numa gaveta, como estiveram durante este tempo; ou pegava nelas e reinterpretava porque, obviamente, não vou pegar nas que estão feitas e tirar a voz de uma pessoa e deixar a minha. O que estou a fazer com o meu produtor é uma reinterpretação das canções, que vão ter uma nova roupagem e produção, em termos de som, e a única voz que se vai ouvir é a minha. Poderá haver uma voz convidada para uma canção, mas ainda está a ser pensado. Como as canções já estão feitas, a ideia é gravá-las e produzi-las durante os próximos meses. Depois entramos na fase das misturas, masterização e promoção. Vou começar por lançar um single e tentar, eventualmente, fazer um teledisco também.

Vai ser um disco inteiro, com dez canções e uma introdução. É um disco que acredito que será muito afirmativo, com uma identidade muito forte, ainda mais que o EP. E vão dar mais pistas. Não que as canções tenham de dar pistas sobre os seus autores, precisamente o contrário, porque as canções devem sempre prevalecer, mas penso que as canções são suficientemente fortes para terem o seu espaço e chegarem às pessoas que querem ouvir.

 

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