Fotografia: Isabella B. Vosmikova/Netflix

Crítica. ‘Eu Nunca…’ é a comédia que queremos com a diversidade que precisamos

A segunda temporada de Eu Nunca… chegou à Netflix a 15 de julho e continua o desempenho brilhante com que nos deslumbrou na primeira temporada.

A série segue a vida da adolescente Devi Vishwakumar (Maitreyi Ramakrishnan), uma rapariga filha de pais indianos, emigrantes nos Estados Unidos, enquanto tenta lidar com os problemas típicos, e não só, da adolescência. Eu Nunca… lida com diversos temas sociais que expõe de forma divertida mas esclarecedora, sem nunca parecer forçado.

Eu Nunca...
Fotografia: Isabella B. Vosmikova/Netflix

A temporada começa exatamente onde a anterior acabou. Logo após deitar as cinzas do seu pai na praia de Malibu, Devi beija Ben Gross (Jaren Lewison), o seu rival que se tornou amigo e a levou até à praia. Enquanto isto, Paxton Hall-Yoshida (Darren Barnet) — o outro interesse romântico de Devi — está à ao pé da sua casa e deixa-lhe um voicemail para se encontrarem. Quando Devi chega a casa, Paxton ainda está à sua espera e convida-a para um encontro. Devi acaba por se ver envolvida num triângulo amoroso e toma uma decisão pouco racional: decide que vai ter dois namorados até se mudar para a Índia no final do semestre, e o caos instala-se. Enquanto se vê envolvida neste drama, Devi tem também de lidar com a nova rapariga indiana da escola, Aneesa. Ao mesmo tempo, Fabiola (Lee Rodriguez) tenta tornar-se mais conhecedora de cultura pop e mais popular para agradar à sua namorada, Eve (Christina Kartchner) e Eleanor (Ramona Young) começa uma relação tóxica com Malcolm (Tyler Alvarez), um ex-ator infantil da Disney.

Tal como já tinha sido mencionado na crítica da temporada anterior, Mindy Kaling, a criadora de Eu Nunca…, baseou-a nas suas próprias experiências enquanto adolescente e na sua vontade de ver alguém como ela no ecrã. E essa é uma das grandes características da série — a diversidade. Ainda que se esteja a evoluir nesse aspeto, há um longo caminho a percorrer em termos de representatividade, e Eu Nunca… apresenta-se como o verdadeiro espelho de uma diversa escola californiana.

Mas não é só no elenco que encontramos representatividade – o enredo fá-lo com as realísticas ações das personagens. Há imensas ocasiões em que as personagens, especialmente Devi, têm atitudes irritantes ou até imorais, mas Eu Nunca… é uma representação da vida de uma adolescente, e se há coisa que os adolescentes são é impulsivos. A série acabar por ser mais verossímil porque os problemas não são exageradamente dramáticos ou improváveis. Há situações que provavelmente não aconteceriam se não se tratasse de uma série, planeada e estruturada, mas nada é surreal ou absurdo.

Devi e Aneesa em Eu Nunca
Fotografia: Isabella B. Vosmikova/Netflix

Apesar do triângulo amoroso ser uma dinâmica que já se vem a construir desde a temporada passada, este acaba por não ser um ponto principal nesta nova temporada, o que é refrescante em séries juvenis. A situação com Paxton e Ben é utilizada de forma a fazer Devi perceber que as suas ações têm consequências e que tem de perceber o que quer ou não quer. Existe um foco muito maior nos problemas de gestão de raiva de Devi e na sua impulsividade, tal como no esforço para conseguir controlá-las. Outro aspeto importante é a chegada de Aneesa (Megan Suri) à escola, uma rapariga indiana que Devi vê como competição. É interessante perceber que Aneesa, no entanto, não se sente da mesma forma em relação a Devi, já que é retratada como uma personagem muito segura de si própria. No fundo, Aneesa evidência os defeitos de Devi e a sua dificuldade em lidar com a sua cultura.

Mas tanto o triângulo amoroso como a relação com Aneesa permitem assistir, no decorrer da temporada, ao crescimento de Devi. Toda a temporada é uma montanha-russa de emoções mas, no fim, podemos perceber que ela não só aprendeu com os erros como percebeu o seu valor e o que é verdadeiramente importante.

O sexismo no ambiente de trabalho

Eu Nunca
Fotografia: Isabella B. Vosmikova/Netflix

Esta nova temporada retrata também o sexismo existente na área da investigação e da academia de uma forma bastante realista. Kamala (Richa Moorjani) começa a estagiar no laboratório de um investigador importante, mas a equipa é exclusivamente composta por homens, que não acreditam no seu potencial e não a levam a sério. Como é habitual, não é algo completamente direto — ninguém lhe diz que ela não é inteligente por ser mulher —, mas colocam-na a limpar recipientes e fazem-na ficar a substituir amostras até mais tarde, sem respeito pelos horários ou pela sua vida pessoal. Mesmo as sugestões de Prashant (Rushi Kota), o futuro noivo que lhe é encontrado pela família, que até parecem resultar, não surtem efeito, e quando Kamala faz uma descoberta importante que é utilizada pelo supervisor, este decide não lhe dar crédito no artigo, e quando tenta queixar-se ao investigador responsável, este não faz caso. Esta é das partes mais importantes e realistas do enredo, já que retrata perfeitamente o que acontece quando alguém tenta se queixa de sexismo. Não há nenhuma ação em que o sexismo seja apresentado diretamente, já que ninguém faz comentários específicos sobre Kamala ser mulher nem piadas sobre cozinhas, mas torna-se óbvio, quando ela é tanto a única mulher no laboratório, como a única prejudicada. Mais uma vez, a série consegue pegar num tema sério, e que afeta tantas mulheres, de uma forma leve mas ao mesmo tempo realista, e com uma resolução divertida, não fosse esta, mesm assim, uma comédia.

Uma questão de identidade

Fabiola em Eu Nunca
Fotografia: Isabella B. Vosmikova/Netflix

Simultaneamente, busca por popularidade de Fabiola, apesar de parecer bastante juvenil, tem implicações mais profundas. Acabamos por perceber que Fabiola tem dificuldades em definir a sua identidade e é por isso que, quando começa a namorar com Eve e a dar-se com as amigas dela, acredita que para ser um exemplo para a comunidade tem de corresponder a determinados estereótipos, uma crise de identidade que muitos podem sofrer quando podem finalmente viver sem se esconder.

Um exemplo de relação tóxica

Eleanor e Malcom
Fotografia: Isabella B. Vosmikova/Netflix

Eleanor fica deslumbrada com o regresso de um ex-ator infantil da Disney à escola, com quem começa uma relação. No entanto, Malcolm começa a ter atitudes um pouco bruscas com ela, a afastá-la das amigas e a manipulá-la. As relações abusivas nem sempre envolvem violência física, e Eleanor tem dificuldade em perceber que não está numa relação normal ou feliz. Imensos adolescentes passam por este tipo de situação, sem se aperceberem ou identificarem como abusiva. Ao fazer alusão a este tipo de relacionamento abusivo, que começa quase sem se notar e que vai afastando uma das pessoas do seu grupo, levando-a a depender só do namorado, a série serve quase como uma ferramenta de consciencialização os jovens para as relações abusivas, nas suas diversas formas, e que se algo não parece bem numa relação, é porque provavelmente não está.

A revelação

Fotografia: Isabella B. Vosmikova/Netflix

Outra personagem que tem bastante mais destaque nesta temporada é Paxton Hall-Yoshida. Visto apenas como um interesse romântico de Devi na temporada anterior, Paxton tem agora de lidar com a possibilidade de não conseguir entrar na faculdade devido às suas notas. Até aqui, Paxton sempre foi apresentado como um rapaz popular da equipa de natação — o estereótipo do desportista. Mas após uma lesão, Paxton tem de se esforçar para subir as suas notas. As sessões de estudo com Devi e a ansiedade que enfrenta tornam-no alguém com que mais pessoas se possam identificar e permite-lhe crescer como personagem. É meste percurso que Paxton descobre mais sobre o passado do seu avô, um dos milhares de nipo-americanos que esteve num dos campo de concentração dos Estados Unidos da América durante a Segunda Guerra Mundial. Este é um episódio tenebroso e esquecido da história norte-americana que a série decide abordar, e que nos traz um momento muito terno entre avó e neto, aprofundado a personagem ao mesmo tempo.

Eu Nunca… continua a misturar comédia com cenas emocionais, num cocktail perfeitamente equilibrado. Trata tanto de traumas como de problemas triviais, de assuntos sérios e de alguns mais improváveis. Apesar de ser uma série mais direcionada para um público juvenil, qualquer pessoa se consegue relacionar com, pelo menos, uma parte do enredo. A série é realista o suficiente para nos tocar, sem nunca perder de vista o objetivo de entreter a audiência. Eu Nunca… é aquilo que todas as séries juvenis aspiram a ser, mas que poucas têm a audácia de se tornar.

 

8.5