Loki
Fotografia: Marvel Studios

Crítica. ‘Loki’ é uma série cheia de potencial mal aproveitado

Loki aborda o conceito do multiverso e de diferentes cronologias enquanto mostra um novo lado da personagem principal

Loki é a mais recente aposta do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) para o pequeno ecrã. A série, focada na personagem homónima, estreou o seu último episódio no dia 14 de julho e deixou os fãs de boca aberta e com opiniões bastante divergentes.

Loki foca-se num dos eventos que Vingadores: Endgame deixou em aberto. O primeiro episódio começa depois de o Loki (Tom Hiddleston) de 2012 fugir com o Tesseract, que contém a Pedra do Tempo. Assim que Loki consegue abrir um portal para escapar, é encontrado por agentes que se identificam como sendo parte da Time Variance Authority e que o detêm por crimes contra a cronologia sagrada. Percebemos assim que como este Loki se desviou da sua cronologia original se tornou uma variante temporal e que a TVA é responsável por manter o rumo da história, algo que as variantes colocam em risco. É apresentado à juíza Ravonna Renslayer (Gugu Mbatha-Raw) e está prestes a ser condenado, até que o Agente Mobius (Owen Wilson) intervém e solicita a ajuda de Loki para capturar outra variante temporal. Desta forma, Loki torna-se um consultor da TVA com o objetivo de os ajudar a entender a variante e a prever as suas ações. Existem apenas dois pequenos senãos: não só Loki está a ajudar a TVA com objetivo de conhecer os Time Keepers, que controlam o destino da cronologia sagrada, como os está a ajudar a capturar uma outra variante de si próprio.

Loki
Fotografia: Marvel Studios

Se há algo que é obrigatório mencionar quando falamos de Loki — seja a série ou a personagem — é o ator que a torna real. Tom Hiddleston é brilhante neste papel, mas isso já não é novidade. Aliás, se há algo que elevou o antagonista de interessante a favorito dos fãs foi a interpretação feita por Hiddleston, que é mais um exemplo de como uma das especialidades dos Marvel Studios é o casting. Mais surpreendentes foram as restantes escolhas, especialmente a de Owen Wilson para o papel de Agente Mobius. Ainda que inesperada, a verdade é que resulta e o duo de Loki e Mobious é um dos pontos fortes da série. Hiddleston e Wilson acabam por carregar a série às costas, o que é ainda mais visível em momentos em que são utilizados como veículo para explicações do conceito em que o enredo se baseia. A dinâmica que existe entre as personagens acaba por intrigar o espectador, em particular quando nos recordamos que para alguém cuja função é proteger a cronologia sagrada, Mobius espera que Loki possa ser o contrário daquilo que lhe está destinado — alguém em quem pode confiar.

Loki e Mobius
Fotografia: Marvel Studios

Loki é a terceira série do MCU produzida pelos Marvel Studios e se há coisa que tem em comum com as outras duas (WandaVision e O Falcão e o Soldado do Inverno) é o seu propósito. Até ao momento, e ainda que bastante antecipadas, as séries da Fase Quatro têm servido maioritariamente para desenvolver as personagens e servir de ponte para filmes futuros. Nas primeiras duas ainda podiam existir desculpas para as expectativas de grandes vilões e enredos complexos, mas a este ponto já é possível perceber que estas séries existem com um objetivo claro. No caso específico de Loki, estamos perante uma série que utiliza os comentários mordazes de Loki como forma de comic relief, o que é inteligente tendo em conta que uma série baseada neste tipo de ideia se poderia tornar pesada bastante rapidamente. Explora também as noções do que é bom e o que é mau e como isso pode ser aplicado a todas as personagens. Para se conseguir aproveitar o que as séries têm para dar é necessário minimizar as expectativas e tentar apreciar as séries por aquilo que elas são — uma forma de mover a história e as personagens até um determinado ponto para que os filmes lhes possam dar seguimento.

cronologia sagrada
Fotografia: Marvel Studios

Entretenimento com falhas

Ainda que sofra da mesma “síndrome de filler” que as outras séries, Loki é definitivamente a mais ambiciosa no que diz respeito ao seu enredo, trabalhando simultaneamente com linhas temporais e o conceito do multiverso. Infelizmente, apesar de explicar muito, parecem existir poucas consequências reais até ao final da temporada, que termina sem qualquer resolução e apenas com mais problemas. Todo o conceito da série é bastante interessante e há uma tentativa de tapar os buracos deixados por Endgame. No entanto, o facto de não justificar tudo o que não fez sentido nesse filme — como Steve Rogers (interpretado por Chris Evans no MCU) ter voltado atrás na linha temporal e ter criado toda uma nova vida — acaba por deixar ainda mais óbvias as falhas existentes. O conceito é difícil de acertar, mas na tentativa de o fazer a série acaba por se perder ainda mais. E é assim que se chega à crítica principal a esta série e ao MCU como um todo: é entretenimento em que não se pode pensar muito. Para alguém que assista criticamente à série, as falhas vão ser óbvias, tal como foram em Endgame, pelo que parece que isto se está a tornar uma constante.

Tendo em conta que a série pegou no Loki de 2012, existe uma certa satisfação em ver esta versão da personagem de volta ao ecrã.  O diálogo inteligente e espirituoso é algo de que sentíamos falta e está de volta com esta versão de Loki. Ainda que houvesse alguma dúvidas em relação à coerência que a personagem ia apresentar — afinal de contas, este Loki ainda não passou por nenhum dos eventos após Os Vingadores — existe um claro desenvolvimento e uma confrontação da personagem com as suas ações, incluíndo aquelas que ainda não aconteceram. Há uma sensação inicial de que Loki sofre esta mudança de carácter quase por despeito e porque acredita que ninguém deve decidir o seu destino, mas nos últimos dois episódios torna-se claro que Loki quer ser mais do que aquilo que mostrou até ao momento.

Loki e Sylvie
Fotografia: Chuck Zlotnick

Um dos tópicos que gerou opiniões divergentes nesta série foi a relação de Sylvie (Sophia Di Martino), a outra variante de Loki, e Loki. Ainda que originalmente este par fosse refrescante, isso acontecia devido ao sentimento de estarmos a ver duas personagens a serem confrontadas com as suas próprias características e defeitos. A partir do momento em que existiu uma tentativa de criar uma ligação romântica num par que deveria servir para que as personagens evoluíssem e tivessem a ajuda uma da outra nesse processo, a dupla perdeu um pouco a magia e começou a parecer um casal forçado. Momentos como o do evento nexus no episódio Lamentis, que fizeram o público acreditar na possibilidade de uma dupla em que as personagens se ajudassem mutuamente e aprendessem tanto a confiar como a ser confiáveis, ficam aquém quando transformadas em ferramentas para criar um romance desnecessário. Claro que o momento foi bonito e continua a ter um significado importante, mas parece desviar-se demasiado do objetivo da série para fazer sentido.

He Who Remains
Fotografia: Chuck Zlotnick

Spoiler alert: a partir daqui há spoilers

No final da temporada, e depois de muito termos ouvido falar dos Time Keepers que afinal não existem, somos apresentados ao verdadeiro vilão da história: He Who Remains (Jonathan Majors). No entanto, este é um vilão que não sabe a vilão. É uma personagem movida pelo desejo de impossibilitar uma guerra no multiverso e pela manutenção da paz existente. Isto é um desviar daquilo a que fomos levados a acreditar, que os Time Keepers controlam o destino da cronologia a seu bel-prazer e sem motivo aparente para ninguém para além deles próprios. E a maior reviravolta acontece no meio destas revelações: He Who Remains planeou tudo o que aconteceu na primeira temporada até àquele momento, o que nos leva a questionar todas as mudanças em Loki e se estas foram de facto feitas de livre arbítrio. É uma revelação agridoce, com um vilão que parece demasiado pequeno para todos os acontecimentos que tiveram lugar mas uma reviravolta que põe os fãs a conspirar sobre tudo o que pode acontecer. O final, depois da morte de He Who Remains às mãos de Sylvie, é definitivamente diferente de tudo o que se podia esperar e abre portas para uma segunda temporada, que foi desde logo anunciada.

No fundo, Loki é uma série com um conceito complexo e fascinante, mas que pode dar muito mais do que aquilo que deu até agora. Tem um enredo com imenso potencial, mas que parece perder-se em pontos criados quase unicamente para agradar aos fãs e que acabam por não agradar a ninguém. Todo o universo é confuso o suficiente e não é necessário que se tentem conjugar todos os conceitos existentes num episódio de 45 minutos para o tornar interessante. A série começa forte e tem capacidade de ser uma das melhores do MCU, pelo que sabemos que a segunda temporada vai ser altamente antecipada. Loki tem tudo para dar certo no que diz respeito ao conceito, só falta que o enredo o acompanhe.

 

Loki
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