Boys Just Wanna Have Fun
Fotografia: Rui Pedro Félix

‘Boys Just Wanna Have Fun’, um clube onde “inclusão” é a palavra-chave

No desporto, a homossexualidade ainda é um tema pouco falado, quase tabu, que traz ao de cima histórias de medo, inseguranças e feridas por sarar. Quando se pensa neste assunto, associa-se muitas vezes a prática desportiva à masculinidade – embora nem todos se enquadrem neste espectro. E ainda que o mundo se esteja a tornar um lugar mais compreensivo, o preconceito continua a bater à porta. É ao entrar neste universo que se percebe que nem tudo é um mar de rosas. No entanto, o estereótipo é quebrado pelos Boys Just Wanna Have Fun (BJWHF).

Espalhados pelas sete colinas de Lisboa, “não interessa se és gay, lésbica, transsexual, negro ou indiano, o que importa é jogar”. Quem o diz é Ricardo Diabão, atleta da equipa de voleibol, os Lisbon Crows. É no Pavilhão da Universidade Lusófona, entre o barulho ensurdecedor das bolas a bater no chão, que o jovem homossexual de 26 anos confessa a dificuldade que sentiu ao assumir a sua sexualidade. Marcado pelas cicatrizes do bullying, foi nesta equipa que encontrou o apoio que sempre procurou.

Contudo, não só de voleibol é feito este clube. Os BJWHF, que contam com mais de uma década de história, entendem-se por diversas modalidades: corrida, futsal, natação, rugby e tango. À entrada do Complexo de Piscinas do Jamor sente-se, desde logo, o intenso cheiro a cloro e Álvaro Cardoso, treinador da equipa de natação, explica que é um privilégio pertencer a “esta casa”. “Acaba por ser o meu bebé, porque ajudei a formar, a crescer e, atualmente, temos cerca de 40 elementos só nesta equipa.”

 

Boys Just Wanna Have Fun
Percentagem de Atletas por Modalidade

O calor sentido no pavilhão é rapidamente esquecido ao som do apito. Com o cronómetro a contar, os Lisboa PoolSharks entram na água. O impacto relembra a altura e força das ondas do mar e remete, simultaneamente, para o crescimento que a equipa tem vindo a ter em Portugal. Para o treinador, o ponto de viragem deve-se à visibilidade alcançada através dos bons resultados nos Gay Games em 2018. Este evento cultural e desportivo, que conta com a presença de diversos atletas e outras pessoas gay-friendly, permitiu um maior reconhecimento e adesão ao clube. Desta forma, Álvaro defende que, quando alguém os vai conhecer, veem que aquilo que lhes interessa é o desporto e “não o floreado que pintam”.

Boys Just Wanna Have Fun
Fotografia: Rui Pedro Félix

Corrida contra o preconceito 

Para além da natação, os Boys Just Wanna Have Fun têm vindo a ganhar reconhecimento nacional – mas nem todo o esforço é recompensado. Apesar de carregarem ao peito o peso de várias medalhas, os atletas continuam a ser alvo de descriminação. Terry Martins, atual treinador dos Dark Horses, relata que nem o rugby, um desporto normalmente associado ao músculo e à virilidade, foge às críticas.

Nós tivemos de fazer o nosso próprio caminho, e ouvimos muitas bocas: “Não quero jogar contra os paneleiros”, ou “eles não prestam, nem jogam nada”. Mas depois isto foi tudo por água abaixo quando começámos a ganhar jogos.”

Todas as terças e quintas-feiras, às 20h30, os Dark Horses reúnem-se no Belas Rugby Clube. É no meio da neblina de inverno, que cobre a visão sobre o campo, que Terry confessa ser muito feliz. Mesmo assim, revela que já sentiu na pele o preconceito, tanto no jogo como fora dele. “Não me deixei afetar por isso, tento sempre ultrapassar a situação de uma forma crescida e, de alguma maneira, faço com que as pessoas que têm essas atitudes pensem um pouco naquilo que estão a fazer”.

Embora tentem fugir deles, os estereótipos associados às modalidades ainda estão enraizados. Ricardo confidencia que para os jogadores de voleibol é particularmente difícil, dado que “quem joga e é homem é considerado gay, mesmo que não o seja”. Apesar disso, o atleta acredita que aos poucos, a aceitação das pessoas é maior.

É  muito difícil, mas cada vez há mais pessoas com mente aberta. Não estamos a 100%, possivelmente nem a 50%, mas a pouco e pouco vai se aceitando que os homossexuais estão dentro do desporto.”

Na opinião de Álvaro, a virilidade é “um fator decisivo” em determinadas modalidades. Recentemente, a Federação Portuguesa de Futebol comunicou que era injusto o futebol feminino não ser igual ao masculino. São pequenos passos que vão sendo dados, na perspetiva do treinador. “A Associação Portuguesa de Natação já tem equipa masculina de natação sincronizada, que eu considero ser [uma modalidade que julgam] muito feminina”, levando ao esbatimento da barreira entre masculinidade e desporto.

Não obstante, o receio de “sair do armário” mantém-se, principalmente para aqueles cujo caminho está por traçar, e não é só no desporto amador que a discriminação está à vista. São inúmeros os jogadores profissionais que esperam pelo fim da carreira para poderem finalmente ser quem são. Consequência disso, tal como Ricardo diz, é a falta de representatividade LGBT+ no desporto.

Enquanto crianças, os Boys Just Wanna Have Fun confessam que nunca tiveram um jogador com quem se identificassem. “Já conheço o mundo do rugby, fui jogador, treinador e  árbitro, mas nunca tive um herói”, admite Terry. O treinador conta que, no país, não conhece nenhum jogador homossexual assumido nas equipas da seleção. Caso existissem, os mais jovens teriam exemplos que lhes pudessem abrir o caminho para a aceitação da sua própria sexualidade.

O jogador dos Lisbon Crows refere que o poder das marcas pode ser a solução para o fim da intolerância no desporto. “As marcas de roupa deviam mostrar que não é mau ser diferente, e tu não deixas de ser quem és, só porque gostas do mesmo tipo de pessoa. Se a Nike, por exemplo, interiorizasse isso, as pessoas iriam compreender e talvez fosse uma mais valia para todos. Provavelmente haveria uma maior aceitação”.  

boys just wanna have fun
Fotografia: Rui Pedro Félix

O treinador de natação conclui também que, “infelizmente, as empresas ainda estão um pouco retraídas a apoiar instituições gays” mas que, apesar disso, existem multinacionais que já têm uma certa predisposição. “Em Portugal é step-by-step, vamos tentando construir mentalidades para que isso seja cada vez mais possível e mais justo”, acrescenta.

O desporto sem filtros 

À medida que os anos passam, os BJWHF vão acolhendo mais gente. “Antigamente tínhamos dezenas de associados e agora temos 200, e mais de 100 praticantes, declara Álvaro Cardoso, que, além de treinador, é o atual Presidente do Clube. Apesar de terem um cariz LGBT+, menciona que a orientação sexual de cada atleta é “uma não questão”. “O principal objetivo não é fomentar a cultura gay, mas sim que todos se sintam bem a praticar desporto”. Ainda assim, a vontade e a ambição de vencer estão sempre presentes. “Como fiz competição, quero sempre ficar bem classificado, mas enquanto presidente do clube eu quero é que as pessoas se divirtam a fazer o que gostam”, reforça.

Boys Just Wanna Have Fun
Número de Associados do Clube

Em 2009, a Associação foi criada para garantir um espaço seguro para a prática desportiva. Foi aqui que muita gente encontrou uma segunda casa, diferente de tudo aquilo que tinham experienciado anteriormente. Ricardo conta que foi quando entrou na equipa de voleibol que começou a sentir-se inserido na comunidade LGBT+. “Eu dava-me com muitas pessoas hétero, e não é que isso seja mau, mas não tinha amigos homossexuais, e isso fazia-me falta.”  

Segundo Terry, a inclusão é, sem dúvida, um dos pilares dos Boys Just Wanna Have Fun, mas esta não é unidirecional. O espectro abrange “não só homossexuais, lésbicas, bissexuais, ou malta LGBT+, mas também heterossexuais”. Aliás, o treinador dos Dark Horses faz questão de salientar que 20% da equipa são homens héteros. “Quando alguém entra no Clube, ninguém lhes pergunta a sexualidade”, uma vez que estão recetivos a toda a gente que queira praticar desporto.

Os BJWHF têm evoluído de forma progressiva, mas o trabalho realizado até ao presente não vai parar. De maneira a chegar a mais gente, o Clube tem como plano alterar o nome, para abolir qualquer vertente de exclusão. Há uns anos, a equipa de natação, os antigos Lisboa Poolboys, sentiram a necessidade de mudar o nome, já que a equipa também contava com mulheres.

Uma coisa é certa, esta Associação demarca-se pela diferença, ainda que este adjetivo não seja aquilo que os define. A união, entreajuda e dedicação são alguns dos valores que correm no sangue dos atletas dos BJWHF, cuja grande finalidade é, ano após ano, alargar as ideias pré-concebidas que existem no mundo. Em cada uma das modalidades do Clube encontram-se pessoas que, enquanto praticam desporto, se desligam das críticas da sociedade e se focam no que realmente gostam, sem medos ou inibições.

Reportagem por Beatriz Duarte e Rui Pedro Félix