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Crítica. Annette, o cinema de ilusão em todo o seu esplendor

Annette é o mais recente musical a chegar às salas de cinema portuguesas (8), mas deixamos já aqui o aviso à navegação de todos os fãs deste género cinematográfico, é um musical à Leos Carax, ou seja menos La La Land e mais Nosferatu.

Passados nove anos da estreia de Holy Motors, um clássico instantâneo na carreira de Leos Carax, o realizador e argumentista francês volta à cadeira de realização e desta vez para um projeto de alta envergadura: nada mais nada menos que um filme do género musical protagonizado por Marion Cotillard (Ann) e Adam Driver (Henry) e que se debruça sobre o amor entre uma cantora de ópera e um comediante, ambos de sucesso e a viver em Los Angeles.

O cenário e a premissa de arranque parece o ideal para um musical ligeiro, de danças fugazes, momentos gravados à luz de um pôr-do-sol e sapateados pelas ruas da cidade das estrelas, mas não podemos ir mais ao engano se achamos que vamos encontrar qualquer destas coisas no filme de Carax.

Annette tem um estilo muito próprio, é um noir com inusitadas explosões de som e cantorias, uma comédia negra que, ora se leva a sério, ora se transforma em paródia dela mesma. É um drama sobre assombros pessoais, mas também uma tragédia clássica que se debruça sobre a violência conjugal, familiar e machista. É Leos Carax sempre a empurrar-nos para um constante abismo.

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O suspense, a suspensão e o surrealismo. A ambiência aflitiva de Annette.

O musical de Carax vai um pouco a todo o lado, dispara em vários sentidos num subverter completo dos géneros cinematográficos, apenas tendo em comum, durante toda a sua duração, o reino do tenebroso que se instaura desde os minutos iniciais até aos finais. É um filme constantemente mergulhado em trevas, um universo do fantástico que o realizador cria. É o cinema no seu mais alto esplendor enquanto dispositivo de ilusão e o género musical é o perfeito para a suspensão da realidade que Carax quis criar em Annette.

Se saímos deste filme com alguma música no ouvido? Se daqui a umas semanas vamos saber de cor as canções e os números? Não, porque de facto números musicais per si nem existem. Não é um musical que viva deles, é um filme que tinha de ser um musical, mas só para suspender o espectador da sua realidade e o transportar para o universo de Carax em neons verdes e cenografia ao mais alto nível, num misto perfeito entre a linguagem do cinema e a do teatro. 

Esta suspensão é talvez dos mecanismo mais interessantes de Annette, constantemente a colocar-nos em dúvida sobre aquilo que estamos a ver, a ouvir e a sentir em relação ao filme. Será que foi tudo um sonho? Serão antes os sonhos das personagens? Será que cantam os seus pensamentos? Será que cantam os seus diálogos? É a canção usada como mecanismo para revelar os assombros interiores? É a canção usada antes como narração das ações exteriores? 

Ainda sobre o omnipresente e omnisciente som, o seu uso e a relação que Carax estabelece com ele contraria todas as fórmulas dos musicais que podemos normalmente ver no cinema de Hollywood, mas usa de atores e de um imaginário próximo desses para que se possa estabelecer a comparação. É um uso da música bem mais personalizado e audacioso, um sem medo de a utilizar quase como personagem, algo semelhante (mas com um resultado totalmente diferente) ao uso do som de Jean-Luc Godard no seu “musical não musical” de 1961, Une Femme Est Une Femme.

Marion Cotillard é a alma de Annette e o seu assombro, a atriz de fragilidade segura deixa-nos extáticos tanto quanto a sua personagem deixa auditórios cheios em ovação, é magnética. Adam Driver é o comparsa que habita a fábula de forma orbital a Cotillard, entrega-nos tudo em cima do palco figurado, mas tal como a sua personagem, vive também na sombra da atriz e da sua personagem.

Annette é tudo isto aglutinado e depois mais. Sempre mais. 

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8.5