Bem Bom
Imagem: Divulgação/Cinemundo

Crítica. ‘Bem Bom’, a história das Doce num país (ainda) amargo

Após um ano de espera, Bem Bom chegou finalmente às salas de cinema esta quinta-feira, dia 8 de julho. O filme inspira-se “livremente” em factos reais para contar a história das Doce, uma das mais icónicas bandas portuguesas.

Bem Bom, realizado por Patrícia Sequeira, é a história de como Fátima PadinhaHelena CoelhoTeresa Miguel e Laura Diogo se juntaram para formar aquela que foi uma das primeiras girlbands da Europa e a primeira – e mais icónica – de Portugal. Tudo começa pelas mãos do cantor e compositor Tozé Brito e do brasileiro Cláudio Condé, presidente da Polygram, uma das maiores editoras musicais do mundo à época.

Com quatro mulheres fortes, mas com personalidades muito diferentes, o início não foi o mais fácil – nem o resto do percurso – mas alcançaram o sucesso, que foi enorme. O filme expõe os diversos obstáculos que as Doce foram ultrapassando ao longo da carreira, até à vitória no Festival da Canção de 1982 e mostra como, pelo caminho, alteraram completamente o panorama musical e social português, em plena década de 1980.

Depois de um considerável número de filmes biográficos sobre artistas, tanto portugueses, como estrangeiros, Bem Bom chega com a mesma difícil missão de fazer jus àquele que foi o trabalho de quatro grandes mulheres. No entanto, a longa-metragem de Patrícia Sequeira consegue, de forma livre, fazer isso e muito mais, ao retratar a realidade portuguesa na época mas sempre com um toque que apela à modernidade.

Um produto de ficção livremente baseado em factos reais

A realizadora Patrícia Sequeira já tinha avisado em entrevistas que este não é um documentário. Bem Bom trata-se de uma seleção e recriação livre de factos reais para a criação de um produto de ficção. O filme não deixa, contudo, de ser uma biopic – talvez o mais próximo da realidade possível -, nunca deixando de lado a realidade que as quatro mulheres viveram, mas com todo o cuidado em criar uma narrativa funcional como longa-metragem.

Bem Bom
Fotografia: RTP/Flickr

Bem Bom retrata (quase) tudo. Somos testemunhas dos primeiros choques no primeiro encontro entre as já experientes Fá, Lena e Teresa e Laura Diogo, modelo e Miss Fotogenia do concurso Miss Portugal de 1979, e assistimos à vida de correria e sem descanso que as artistas levavam durante as digressões, em que viviam praticamente dentro da carrinha, em longas viagens por estradas antigas, e em quartos de hotel, sem conseguir dormir com a euforia pós-concerto.

Por outro lado, ficamos também a conhecer a realidade do panorama da indústria musical portuguesa, em que as editoras impunham o que quisessem e achassem necessário às cantoras na busca pela popularidade – e pelo lucro. A par disto, a realidade social é também posta a nu da forma mais realista e crua possível, num retrato de um país que não estava pronto para quatro mulheres inovadoras, e o muito por que passaram, desde atitudes machistas e de desprezo ao escândalo, a partir de um rumor, em que Laura Diogo se viu envolvida e que foi, talvez, o início do fim das Doce. Após 40 anos do sucedido, a longa-metragem tenta pôr os pontos nos is – tal como a primeira entrevista que a ex-Doce dá sobre o assunto -, e restabelecer a verdade sobre uma história que a persegue até hoje.

Bem Bom
Ana Marta Ferreira é Laura Diogo em Bem Bom. Imagem: Divulgação/Cinemundo

No entanto, a veracidade não se faz apenas de uma narrativa compacta e fiel, mas também de quem, depois de todos estes anos, tem a coragem de vestir a pele das quatro mulheres que renderam e escandalizaram Portugal. Bárbara Branco transparece genuinamente a força, garra e intensidade de Fátima Padinha, Lia Carvalho não falha no seu retrato da experiência, firmeza e desenvoltura de Teresa Miguel e, por sua vez, Carolina Carvalho assume toda a força de vontade, determinação e paixão de Lena Coelho. Já Ana Marta Ferreira exprime a imagem de beleza, feminilidade e inocência criada em torno da “loira” das Doce, sem nunca perder a sofisticação e inteligência de Laura Diogo.

A realidade da mulher portuguesa nos anos 80

“De certa maneira, a independência das mulheres em Portugal começou com as Doce”. São estas as palavras que, no documentário da RTP2 sobre as gravações de Bem Bom, Fátima Padinha utiliza para descrever a revolução que as Doce representaram da mulher portuguesa no contexto social.

Em plena viragem para os anos 80, o que as pessoas queriam era dançar. No entanto, o que não esperavam, imaginavam ou sequer sabiam que queriam, na sua maioria, era um grupo de mulheres provocadoras, diferentes, destemidas e prontas a mudar por completo a imagem da mulher como submissa e impotente tão presente na sociedade portuguesa. Não imaginavam, não queriam, mas elas chegaram e foram tomando as rédeas da situação.

Bem Bom
Imagem: Divulgação/Cinemundo

São várias as partes da narrativa de Patrícia Sequeira que retratam de forma clara a realidade machista e patriarcal vivida em Portugal na época, bem como a forma destemida e pronta com que as Doce lutaram contra ela e a foram mudando. Desde assédios, lutas para fazer cumprir contratos e a admiração de outras mulheres, estes momentos servem para firmar a imagem da girlband como um grupo que realmente marcou a emancipação da mulher portuguesa, e não apenas como uma fantasia distante, ideia que ainda parece perdurar.

Cores de outros planetas, ângulos Doce e um final em aberto

Quando falamos nas Doce, há coisas que nos vêm logo à mente e que não poderiam faltar numa biopic sobre a banda: a animação das canções que cantavam e que punham logo qualquer pessoa a dançar, a sensualidade das quatro mulheres, e as roupas coloridas e completamente à frente do seu tempo com as quais encantaram e chocaram o país. Entre odaliscas, minivestidos de padrão tigresa ou de tecidos inspirados em Star Trek, Bem Bom não falha em retratar o imaginário colorido e a realidade sensual que representava o guarda-roupa icónico das Doce.

Da mesma forma, a sensualidade das quatro mulheres não foi deixada de fora e é, aliás, destacada por planos e ângulos de câmara. As coreografias – outro aspeto para sempre associado com as Doce e que é destacado no filme – foram momentos especialmente adorados por estes planos que se focaram nos movimentos do corpo, um exemplo e retrato da ousadia e sensualidade das artistas.

No final, fica a questão: terá sido, ou não, uma boa decisão terminar o filme no momento em que as Doce vencem o Festival da Canção de 1982 e chegam à Eurovisão? Na verdade, seguir de forma fiel a premissa do filme, a de contar a história do início da banda e da importância que teve no panorama musical e no contexto social do país, foi mais importante do que contar todos os pormenores, de todos os anos, da existência da girlband. É importante que se recorde o papel que estas mulheres tiveram, e não só as canções que cantaram, que não caíram magicamente do céu sem contexto nem se tornaram hits por si só. Acima de tudo, talvez o que importa mais é contar a história das Doce – de Fá, de Lena, de Teresa e de Laura -, de tudo o que foram e representam e do seu legado, que não pode ser esquecido ou apagado da cultura pop portuguesa por receios, rumores e preconceitos, mas que merece ser respeitado e celebrado, como faz este filme.

Bem Bom
8.5