Dream People no Maria Matos
Fotografia: Catarina Monteiro

Dream People. O encanto sonhador da banda no Teatro Maria Matos

A jogar "em casa", a banda lisboeta levou a sala esgotada do Teatro Maria Matos numa viagem pelos seus sonhos e pesadelos

Se alguém referenciasse que esta terça-feira (6 de junho), dentro do Teatro Maria Matos, estaria a decorrer a primeira semifinal do EURO 2020, não se iria fazer notar. A razão para tal é simples. Perante uma sala esgotada, os Dream People subiam ao palco da sala lisboeta para apresentar o seu mais recente trabalho, Almost Young, lançado em março deste ano.

A jogar “em casa”, o carinho do público pela banda lisboeta já se fazia notar ainda antes deste subirem ao palco. O burburinho de excitação ia-se fazendo aumentar à medida que a casa se enchia progressivamente e que a hora de começo do concerto – marcado para às 21h – se aproximava. Nem mesmo o facto de o concerto acabar a iniciar-se alguns minutos depois da hora marcada impediu o público de imediatamente criar uma ligação com a banda que começava entrar em palco por fases após o apagar das luzes para, no entanto, se acenderem outras: as luzes que dão asas aos sonhos.

Dream People no Teatro Maria Matos
Fotografia: Catarina Monteiro

A primeira fase da entrada dá-se através de Nuno Ribeiro Bernardo Sampaio, que dão uso às suas guitarras (e um dronezinho) para criar um ambiente sonhador que contagia a sala. É um convite a entrar nesta viagem que se inicia com ‘To a God Unknown‘, que permite o espaço para a restante banda se juntar em palco as seus colegas à medida que a intensidade das guitarras vai aumentando. Sobre mais uma ronda de aplausos, Francisco Taveira, o vocalista, João Garcia, dono do baixo, e Diogo Teixeira de Abreu, baterista, entram em palco, prontos a prosseguir a aumentar a intensidade da faixa até que esta acabe por explodir, num belo misto de psicadélico e shoegaze que ilumina a sala. Se o build-up tinha sido um convite, o clímax de ‘To a God Unknown‘ era a abertura da porta para este sonho.

Esta noção de sonho não é atirada ao caso, até porque a próxima música prossegue perfeitamente da anterior, segurando a atmosfera da sala num limiar entre o psicadélico e o reconfortante que nem dá espaço para palmas de “intervalo”. ‘Talking of Love‘ sobressai com as suas influências de new wavedream pop, guiadas pela voz de Francisco, que culminam num solo de guitarra que ao vivo ainda tem mais impacto que na faixa de estúdio. Soa a um acordar momentâneo do sonho, que permite à banda interagir com o público pela primeira vez, levando que a Francisco nos convide numa viagem pelos “sonhos e pesadelos” da banda. Sabem lá eles que já está todo um teatro a bordo dessa viagem, que irá prosseguir para ‘Violent Show‘, onde os baixos e sintetizadores conferem espaço à bateria para criar uma groove que permite a alguns elementos do públicos dar uns passinhos de dança, ligeiramente hipnotizados pelo quão sonhadoras soam as guitarras e a voz de Francisco nesta faixa.

Dream People no Teatro Maria Matos
Fotografia: Catarina Monteiro

No entanto, a banda começa a aperceber-se de que, afinal, o público já tinha mesmo aceite o seu convite para entrar nessa tal viagem que referiam em palco. Quiçá, até já tinham aceite mesmo antes de entrar na sala. Com ‘Dreams to Dust‘, faixa que abre o seu primeiro curta-duração, a banda preenche os espaços do TMM com sintetizadores sonhadores, servindo de fundo a guitarras suaves e ritmos flutuantes que permitem a banda começar a libertar-se em palco. A confiança aumenta, e faz-se notar no início da próxima faixa, ‘Suburban Lifestyle Dream‘, onde a banda mostra que fazem mais do que “música lenta“, como referem ao público em tom de brincadeira, com um início estridente que nos leva ao dream pop com toque suburbano orelhudo que marca a faixa.

O público responde com uma salva de palmas sentida e agradecida, acabando a ser brindado com uma versão de ‘Forever, Too Long‘, a primeira faixa lançada pela banda, que ao vivo, demonstra a evolução do grupo (mesmo com as trocas de alinhamento) ao longo dos últimos dois anos. A faixa continua a soar tão sonhadora como quando saiu, com os seus sintetizadores e guitarras espaços, mas soa mais pujante e confiante nos ritmos, criando uma espécie de nostalgia por um passado muito próximo, cuja saudade por esses tempos é invocada nas próximas duas faixas.

Dream People no Teatro Maria Matos
Fotografia: Catarina Monteiro

‘‘I Knew Everything About You’ surge primeiro, mantendo o público bem próximo dos seus sentimentos em forma de sonho, que já se escaparam pela sala ao longo do concerto, e que se libertam totalmente com o belíssimo duplo clímax de ‘Almost Young‘, com a sua parede de guitarras a criar um paradoxo existencial que surge em palco, como se de um remoínho de emoções ali se condendasse. É a explosão catártica que marca o concerto e que leva ao momento de ligação mais íntima do concerto entre banda e público. É a chamada sintonia.

Aproveitando-se dessa sintonização entre banda e público, os Dream People disparam para a etapa final do concerto. Imediatamente após o término da faixa que dá nome ao seu mais recente trabalho, os sintetizadores new wave de ‘People Think‘ fazem-se ouvir, e inicia-se um minifestival de dança dentro do Maria Matos. A faixa mais pop da banda até ao momento faz o público levantar-se das cadeiras, juntando-se à banda a entoar o refrão orelhudo da faixa que despertou toda a gente da espécie de transe que se encontravam.

Dream People no Teatro Maria Matos
Fotografia: Catarina Monteiro

Com o término de ‘People Think‘, a banda sai de palco, mas o público pede o clássico “só mais uma“, e o grupo rapidamente regressa (nem dando tempo para se recuperar o fôlego), para fechar o concerto de vez com ‘Putos de Portugal‘, levando a que o público desperte de vez do sonho porque, de pesadelo, os Dream People têm muito pouco. E de sonho até podem ter na sua música, mas a realidade é que os Dream People continuam a crescer e a encantar cada vez mais público, dotados de uma crescente confiança que lhes permite chegar cada vez mais longe no seu percurso. E ainda só vamos na primeira etapa da viagem que será (ou pelo menos, podemos esperar que tal seja) a sua carreira enquanto grupo.