Ilustração / Fotografia: The Conversation

Dia Mundial das Redes Sociais. Como é que o feminismo se pode desenvolver nas redes?

A 30 de junho marca-se o Dia Mundial das Redes Sociais, data criada pela empresa Mashable em 2010. Para assinalar esta data, o Espalha-Factos esteve à conversa com três projetos feministas digitais.

As redes sociais competem com a Televisão pelo estatuto de mass media por excelência, segundo Marita Sturken e Lisa Cartwright. De acordo com as autoras do livro Practices of Looking: An Introduction to Visual Culture, com a Internet “todos podemos ser, simultaneamente, produtores e consumidores” de informação. Esta convergência de papéis pode ser benéfica, por um lado, como pode levantar problemas e debates sérios.

Inês usou os próprios meios que a tornaram uma vítima para ajudar outras pessoas; Marta juntou-se a um grupo que lhe permite lutar pelo que acredita; Beatriz e Maria João são duas mulheres com muito para dizer. O que todas têm em comum? Usam as redes sociais como plataforma para se fazerem ouvir.

Controlo de massas ou resistência sociocultural?

Com o desenvolvimento da Internet e o surgimento de novas formas de comunicação, a perspetiva dos media dominantes sobre uma audiência de massa é cada vez mais discutível. O broadcasting é o meio de transmissão de conteúdos de forma massiva para uma grande audiência, típico da Televisão, o mass media por excelência do século XX e que ainda hoje tem uma elevada preponderância. Este regime de transmissão tem sido substituído pelo narrowcasting e a ideia de uma grande audiência homogénica já não se aplica totalmente numa sociedade ocidental, em que a maioria das pessoas tem acesso à Internet e pode escolher que conteúdos seguir e ver, conteúdos esses diferentes entre si e desenhados para apelarem a variados grupos de interesse.

Apesar do desenvolvimento da programação televisiva ter permitido o surgimento de uma multiplicidade de canais, direcionados para diferentes tipos de interesses (RTP África, SIC Mulher, por exemplo), a Internet e as Redes Sociais oferecem mais meios de participação na vida social, política e cultural. Os utilizadores comentam diretamente o que veem, ouvem e leem, e não se limitam apenas a receber conteúdos na elaboração dos quais não têm hipótese de participar.

O autor Marshall McLuhan foi adepto desta ideia de conectividade a partir dos media. Pensou na técnica como extensão dos cinco sentidos, bem como da própria mente, e cunhou termos como global village (aldeia global, em português), a maior consequência do desenvolvimento da Internet. Apesar das suas teorias terem sido muito influentes entre as décadas de 1950 e 1970 do século XX, estão a ser “recicladas enquanto formas de olhar os novos media, especialmente a Internet e a World Wide Web”, de acordo com Cartwright e Sturken.

Assim, a Internet pode ser um meio de aumentar a democratização do acesso à informação pelas classes ‘excluídas’ pelos mass media tradicionais, como as mulheres e as minorias étnicas, entre outros públicos diversos. Os media mainstream estão ainda muito marcados pelas ideias e imagem do homem branco heterossexual de classe alta, e as redes sociais oferecem espaço a que diferentes comunidades tenham um papel ativo na discussão de temas que os afetam.

#NãoPartilhes

Inês Marinho tem 23 anos e foi vítima da partilha indevida de conteúdo pessoal nas redes sociais e na Internet desde que tinha 15 anos. Começou com uma foto em que nada mais se via do que a sua cara. A partir daí, homens partilharam a imagem, perguntaram se alguém tinha ‘nudes’ suas e insultaram-na, utilizando termos como “porca”.

Mas não parou aí. Anos depois, Inês continuava a ser vítima deste tipo de crime. “Eu acordava com 30 mensagens a dizer que andava [a circular] um vídeo [meu]. Isso já me aconteceu umas cinco vezes e eu acordava em pânico. Quem não me conhecer, acha que sou eu”, diz a jovem, que explica que, por vezes, mulheres podem ser falsamente acusadas de serem as protagonistas de um vídeo de cariz sexual, apenas porque as duas são parecidas, como foi o seu caso. Os autores dos crimes, diz, não fazem distinção entre as vítimas, podendo ser qualquer pessoa. Os crimes também assumem diferentes formas: ou a partir da partilha de imagens publicadas em redes sociais pessoais por grupos compostos por homens; ou pela divulgação de imagens que foram inicialmente partilhadas com uma pessoa muito íntima da vítima; entre outras.

Desde aí, Inês percebeu que “alguma coisa tinha de ser feita”. “Juntei-me a um grupo de meninas, que tinham sido vítimas da partilha de conteúdo indevidamente. Cheguei à conclusão que nenhuma de nós tinha tido a ajuda necessária e a compreensão justa por parte da família, amigos e sociedade”, afirma.

Assim, em outubro de 2020, nasceu o #NãoPartilhes, inicialmente como um movimento no Instagram e redes sociais e, atualmente, como uma associação oficial. O movimento começou com a partilha de informação relativa a assédio sexual online, cibercrime, testemunhos de vítimas, entre outro tipo de conteúdo. O objetivo é consciencializar para o fim desta prática.

Para além da partilha de informação, o #NãoPartilhes também ajuda vítimas da partilha de conteúdo íntimo não consentido. A partir do contacto com um advogado e psicóloga que trabalham pro bono, Inês encaminha as vítimas para os apoios que pretendem: psicológico ou legal. No caso do segundo, as vítimas são logo informadas de que só têm seis meses para apresentarem queixa. Mesmo que as vítimas não queiram apresentar queixa na polícia, Inês aconselha sempre a que tenham acompanhamento psicológico. Contudo, diz, muitas optam por não o ter e apenas desabafar diretamente com ela. “Posso falar”, assegura, “sem problema algum”. A maioria das vítimas que contactam com o #NãoPartilhes são menores de idade. “Eu própria fui uma vítima enquanto menor. Agora já não sou menor, mas tudo isto começou quando o era”, explica.

A partir do primeiro conhecimento, Inês procura sempre tentar enquadrá-las no movimento, seja a partir da visita às escolas que frequentam para dar palestras, seja pela partilha de ideias para posts. “Uma das coisas que me ajudou foi perceber que o facto de, depois da situação toda, eu estar aqui pronta para ajudar já é uma vitória e eu sei que, se elas sentirem isso, vai fazê-las sentir-se bem”.

“Estamos numa fase em que estes cibercrimes começaram a surgir e as pessoas ainda não estão preparadas para lidar com eles. Portanto, daqui a uns anos, as pessoas começam a perceber que não é dúbio a questão do criminoso e da vítima: há um criminoso e uma vítima ou vítimas. Não dá para misturar, a vítima não tem culpa”. Tendo sido ela própria uma vítima que criou uma plataforma para ajudar outras pessoas em situações semelhantes, Inês “finalmente” perdoou-se a si mesma.

Cientistas unidas pela igualdade

Se uma criança tiver a tarefa de desenhar o que é, para ela, um cientista, que imagem vai produzir? Foi esta a ideia dos estudos Draw-A-Scientist cujos primeiros dados foram recolhidos entre 1966 e 1977, e através dos quais se concluiu que 99,4% das crianças desenharam homens. Ao longo dos anos, mais de 80 estudos reproduziram esta experiência e, apesar de mais crianças desenharem mulheres cientistas, a tendência mantém-se: as crianças associam a profissão de cientista ao género masculino.

Segundo o relatório de 2018 da SheFigures, em 2015, apenas um terço dos investigadores na área da ciência, na União Europeia, eram mulheres. As cientistas continuam a ter condições de trabalho mais precárias e a ganhar menos que os seus colegas masculinos. As posições académicas nas STEM (ciências, tecnologias, engenharias e matemáticas) são maioritariamente ocupadas por homens, cerca de 69%, apesar de existirem cada vez mais mulheres a concluir doutoramentos.

Estas são apenas algumas questões que levaram ao surgimento da Soapbox Science, em 2011, no Reino Unido. O nome soapbox deriva do Speaker’s Corner de Hyde Park, em Londres, onde os oradores discursavam para os transeuntes em cima de caixas de madeira.

Marta Avelar tem 24 anos e tirou o mestrado integrado em Engenharia Biológica no Instituto Superior Técnico e, para fazer a tese de mestrado, esteve no Instituto de Medicina Molecular, onde teve o primeiro contacto com a Soapbox Science Lisbon.

Em 2019, Simone Lackner criou a Soapbox Science Lisbon para “dar palco a várias cientistas locais, neste caso, de Lisboa”, explica Marta, “para que possam apresentar o seu trabalho, para que se possam conhecer e estabelecer uma rede de contactos entre várias mulheres cientistas e desafiar a figura do cientista”. Assim, a associação, para além de manter uma presença ativa nas redes sociais, organiza eventos e conferências anuais onde mulheres cientistas podem apresentar o seu trabalho.

Marta participou no evento do ano passado, totalmente online devido à pandemia, como voluntária exterior ao projeto. Sendo à distância, o evento consistiu em apresentações de 10 a 15 minutos, por várias cientistas oradoras, sobre o seu trabalho, de modo a darem-se a conhecer ao público “dois oito aos 80 anos”, aliando as suas áreas de trabalho à comunicação de ciência. “Gostei tanto da experiência de ouvir as apresentações que pensei que ainda precisavam de ajuda para organizar o evento do ano seguinte e disse que estava muito interessada em juntar-me à equipa. Felizmente, correu tudo bem, aceitaram-me e neste momento integro a parte da Social Media da Soapbox”.

Na Soapbox Science Lisbon, Marta encontrou um local de união feminina. “Nós partilhamos as nossas experiências pessoais, não só enquanto cientistas, mas como mulheres na academia. E quando alguma coisa não corre tão bem no trabalho e falamos sobre estes assuntos, é super bom e encorajador para nós, mulheres, porque percebemos que não somos as únicas. É bom termos um espaço onde podemos fazer essa partilha sem receio de nada”.

Sem as redes sociais, afirma, esse espaço não existiria. “Temos a missão educativa de passar informação e combater preconceitos e estereótipos. E [também temos] toda a missão social de juntar um grupo de mulheres cientistas que se querem apoiar umas às outras e querem lutar pela mesma causa. É basicamente uma união de mulheres. Perceber que todas as mulheres que estão nesta situação não estão sozinhas. Cria-se uma rede de mulheres e para mulheres cientistas”, conclui.

Meeting por zoom com as oradoras / Fotografia: Marta Avelar

Duas feministas contra um patriarcado

Beatriz Realinho e Maria João Gomes conheceram-se na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, onde cada uma tirou a sua licenciatura, mas já tinham percebido que eram feministas muito tempo antes. Desde crianças e adolescentes a questionarem-se sobre preconceitos e questões de género, encontraram uma na outra experiências de vida parecidas e ideias comuns. “As primeiras coisas que nós combinámos foi irmos à manifestação do oito de março de 2019 [Dia Internacional da Mulher] e foi a partir daí que ficámos mais próximas”, recorda Maria João.

Logotipo do podcast ‘2 Feministas 1 Patriarcado’ / Fotografia: 2 Feministas 1 Patriarcado

Dois anos volvidos de debates e discussões sobre o feminismo, a 1 de março de 2021, lançaram o podcast 2 Feministas 1 Patriarcado. O podcast permitiu “não só partilhar com outras pessoas aquilo que já sabíamos, mas também procurar mais informação para, também, partilhar o que íamos adquirindo e receber feedback”, explica Maria João. “Ao final do dia, é sempre bastante rico, tanto para nós pelo que aprendemos, como pela mensagem que queremos passar, ou seja, levar esta luta, que é o movimento feminista, e conseguirmos usar a nossa voz para isso”, continua Beatriz.

Para ambas, a apresentação e discussão de diversos temas ligados ao feminismo no podcast, como o assédio sexual, as vagas feministas, o male gaze e identidades de género, é uma forma de ativismo feminista intersecional. “O podcast e as redes sociais acabam por nos aproximar, especialmente nesta altura em que é tão complicado estarmos juntos. Foram um bom aliado para o ativismo e para a luta em si”, afirma Beatriz. “O formato podcast permite que cheguemos a mais pessoas, que de outra forma não chegaríamos”, reforça Maria João.

Apesar disso, o ativismo digital pode ter algumas desvantagens, como a sobre-exposição dos utilizadores a conteúdos diversos, dos quais precisam de tempo para se informar antes de poderem partilhar sobre isso, referem. “Há muita coisa a acontecer à nossa volta e temos de reconhecer que não podemos fazer tudo. Temos de procurar pensar naquilo que podemos fazer. Talvez seja isso um dos desafios que o ativismo digital esteja a levantar e gerir isso é o próximo passo na luta feminista intersecional, na luta anticapitalista, na luta antirracista e na luta pelos direitos da comunidade LGBT+ e de outras minorias e grupos marginalizados”, explica Maria João.

Maria João Gomes e Beatriz Realinho / Fotografia: Maria João Gomes e Beatriz Realinho

O que as move todos os dias para “acordarem e continuarem a luta” é o sentimento de que não estão sozinhas. “Estou inquieta porque me preocupo. Vivo a luta desta forma porque a minha própria existência é uma forma política. A luta intersecional [significa que] todos juntos conseguimos. Por isso, temos de estar unidos e temos de estar preparados para o que aí vem porque, infelizmente, ainda há muita gente que está contra nós. Vamos tentando passá-los para este lado da trincheira. A nossa inquietação é uma coisa boa porque é ela que vai mudar alguma coisa, nem que seja um bocadinho”, diz Beatriz.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.