12 álbuns da primeira metade de 2021 que tens de ouvir

Na primeira metade de 2021 já saiu muita música. Torna-se complicado acompanhar tudo o que vai ficando disponível, e as listas de audição vão crescendo com cada sexta-feira (ou, quiçá, cada dia). Para terminar esta primeira metade do ano, o Espalha-Factos junta doze discos que saíram nesta primeira dúzia de meses de 2021, e que têm mesmo de estar na tua lista de audição. álbuns 2021 álbuns 2021 álbuns 2021 álbuns 2021 álbuns 2021

Black Country, New Road – For the first time

For the first time é o nome do disco de estreia dos londrinos Black Country, New Road, banda constituída por Isaac Wood (vocais, guitarra), Georgia Ellery (violino), Lewis Evans (saxofone), Tyler Hyde (baixo), May Kershaw (teclas), Charlie Wayne (bateria) e Luke Mark (guitarra). E que disco de estreia este é!

Black Country, New Road

Em For the first time, os BCNR apresentam uma projeto extremamente eclético em sonoridade, sobrevoando entre os toques mais festivos do jazz-rock de ‘Instrumental’ (que soa a música que podia ser tocada num bar mitzvah) até ao post-punk experimental de ‘Athens, France’ ou ‘Sunglasses’, passando pelo noise rock de ‘Science Fair’ e terminando no progressivo de ‘Opus’, para criar um disco que se soa a uma peça de teatro auto-bibliográfica. Os cenários são muito bem criados através das líricas de Isaac Wood, demonstradoras de uma auto consciencialização para com as suas ansiedades que sobressai na sua entrega. É enigmática e soa como se Isaac estivesse a narrar este teatro de ansiedade que é For the first time. É como se Jarvis Cocker, dos Pulp, e Isaac Brock, dos Modest Mouse, se juntassem num só vocalista. álbuns 2021 álbuns 2021 álbuns 2021 álbuns 2021 álbuns 2021 álbuns 2021

As influências de bandas como Slint, Joy Division ou Swans fazem-se notar ao longo deste trabalho, mas os BCNR não soam particularmente como nenhuma destas bandas. A produção do disco permite que a instrumentação do densa dos BCNR soe limpa, dando espaço a cada instrumento para soar limpo e conseguir sobressair. É brilhante. Servem de ambiente perfeito para a entrega de Isaac, e ajudam a que se crie esse ambiente de ansiedade teatral que povoa a música dos Black Country, New Road. Um dos melhores discos do ano, sem margem para dúvidas.

black midi – Cavalcade

Depois do muito eclético, surpreendente e ruidoso Schlagenheim, de 2019, os black midi regressaram este ano aos discos com Cavalcade. Neste seu novo trabalho, a banda de Londres apresenta um caos mais controlado comparativamente com Schlagenheim. O ruído mantém-se presente, mas agora surge mais contido, surgindo de forma pontual ao longo do trabalho. álbuns 2021 álbuns 2021 álbuns 2021 álbuns 2021 álbuns 2021 álbuns 2021

black midi - cavalcade

Nesse tal caos controlado, o feito mais notório das faixas de Cavalcade são os seus ritmos. A forma como cada música se desenvolve é absolutamente hipnotizante. Os “pára-arranca” que vão acontecendo vão-nos capturando a atenção, e é impressionante ver uma banda com a proficiência técnica dos black midi fazer tais transições de forma tão suave e bem conseguida. Aliás, porque a direção que a banda optou por escolher para Cavalcade – uma mais próxima de um rock progressivo – permite à banda criar composições extremamente densas, tanto na sua progressão como instrumentação. Morgan Simpson (bateria) tem aqui um grande papel a conseguir isso, pois é ele que estabelece os ritmos que vão ditando para onde os riffs de guitarra de Geordie Greep vão parar. 

A influência mais óbvia e notável são os King Crimson – particularmente em ‘Dethroned’ e ‘Ascending Forth’ – mas existe uma forte dinâmica ao longo do trabalho que faz lembrar Cardiacs. Faixas como ‘John L’ , com a sua influência de avant-garde, a influência de post-hardcore em ‘Slow’ e o caos completo de ‘Hogwash and Balderdash’ demonstram a influência da banda de Tim Smith na banda. 

Há embelezamentos nas músicas, via sopros e teclas jazz, tocadas pelo baixista Cameron Picton, que adicionam dinâmica extras às faixas, permitindo-lhes ir mais longe ainda do que a sonoridade do próprio disco já iria por defeito. Cameron, neste disco, divide também vocais com Geordie, e a sua troca é bem recebida, com as suas performances a assentarem que nem uma luva ao caos de Cavalcade. Ninguém sabe muito bem o que é Cavalcade sobre, mas talvez a melhor forma de resumir seja a seguinte: o álbum soa e desenvolve-se como se de um filme de Alejandro Jodorowsky se tratasse. Colorido, caótico, confuso, mas de alguma forma, muito belo. Os black midi excederam-se em Cavalcade, mas esse excesso é extremamente bem-vindo.

BROCKHAMPTON – ROADRUNNER: NEW LIGHT, NEW MACHINE

Infelizmente, estamos a chegar ao fim de um dos projetos mais importantes, relevantes e interessantes da última década, e até de sempre, tendo em conta que este é alegadamente o penúltimo álbum da banda. Passados seis álbuns, podemos assumir que os BROCKHAMPTON fizeram uma revolução no cenário do hip-hop. Tudo o que eles trouxeram em projetos como a trilogia SATURATION foi algo absolutamente fresh, inovador e único, todo o seu estilo, a estética e a energia era algo que este género precisava. É quase impossível imaginar como teria sido a segunda metade da década de 2010 sem este grupo.

BROCKHAMPTON - ROADRUNNER: NEW LIGHT, NEW MACHINE

ROADRUNNER: NEW LIGHT, NEW MACHINE parece um regresso, em termos de energia, à trilogia, porém a vulnerabilidade de projetos como GINGER também se encontra presente, isto enquanto a banda, nostalgicamente, traz uma rajada de ar fresco ao boom bap, R&B e pop rap que automaticamente nos transporta para o início dos anos 2000. A produção continua bruta, robusta e poderosa, para além de extremamente versátil devido à tentativa de explorar diferentes estéticas e estilos, o que deu espaço para a criação de autênticos bangers como ‘BUZZCUT‘ com o gigante Danny Brown, mas também de explorar um rap mais introspetivo e sonoramente grandioso como em ‘THE LIGHT‘ ou completamente vulnerável na segunda parte desta faixa no closer do LP. Todas as músicas são arrebatadoras até um certo ponto, seja o instrumental, o refrão, os versos, os conceitos bem retratados, as performances, tudo é eximiamente feito.

O mais recente projeto da “primeira boy band da internet” é uma excelente fusão de ideias e conceitos, que pega em fórmulas antigas de uma forma mais contemporânea e bem ao estilo dos BROCKHAMPTON, trazendo simultaneamente um refrescante e nostálgico som, num conjunto aliciante e consistente de 13 faixas.

C. Tangana – El Madrileño

O novo ano começou em grande para C. Tangana com o lançamento do seu segundo álbum de estúdio, El Madrileño. Em homenagem ao mosaico cultural da cidade que o viu crescer, o cantautor invoca um vasto leque de sonoridades do universo hispanófono, naquele que será, sem dúvida, o seu projeto mais ambicioso até à data.

C. Tangana - El Madrileño

Por trás do alter-ego, espreita Antón Álvarez Alfaro, disposto a expandir a sua visão artística de par em par. Sem esquecer um começo de carreira no rap, o madrileno carrega a tradição nas melodias e a música urbana na voz. O pano sobe para revelar um palco de Latin pop e R&B, onde ritmos de salsa, rumba e bolero fazem a sua magia. É o convite a um passinho de dança, marcado pelo compasso de palmas de flamenco.

Liricamente, nada fica por dizer. O preço da fama pontua os acordes de ‘Nunca Estoy e os antros de perdição de Un Veneno. Fantasmas românticos desfilam em ‘Párteme La Cara, ‘Demasiadas Mujeres e ‘Ingobernable. Canta-se não só ao amor, mas também à luxúria na faixa-estrela ‘Comerte Entera’. Das surpreendentes colaborações, nasce o hinário, escutado sem esforço do início ao fim.

Assim se passa em revista o passado, presente e futuro de Tangana, sempre disposto a abraçar o espetro musical por inteiro. Entre a reminiscência e a rotura, está El Madrileño, um disco que rejeita rótulos singulares em prol da singularidade.

Courting – Grand National

Grand National é o nome do EP de estreia dos Courting, banda de Liverpool que se apresenta como mais uma banda britânica a surgir no meio do melting pot do mais recente ressurgimento do post-punk.

Courting - Grand National

À semelhança de outras bandas do género que surgiram a partir do Reino Unido nos últimos anos, os Courting cantam, de forma sarcástica e com humor, sobre as experiências recentes desses país, como o Brexit e o progressivo crescimento do discurso populista e conservador nas políticas do país. A faixa que dá título ao disco, ‘Grand National’, é o exemplo mais notório disto, conseguindo criar uma imagem de toda essa decadência que afeta a vida de milhares de pessoas. O instrumental da faixa também demonstra bem as influências dos Courting, que vão desde do art punk de uns Television ou Shame até ao garage rock de uns Franz Ferdinand ou Arctic Monkeys, bem presente na terceira faixa deste curta-duração, ‘Crass’.

Os Talking Heads são também uma influência dos Courting, e isso faz-se notar nas composições e ritmos das músicas. Há uma qualidade de funk nas linhas de baixo da banda, que se faz notar particularmente em ‘Popshop!’, com o seu refrão orelhudo, e no uso muito bem conseguido de cowbell em ‘Slow Burner’, que parece saída de uma junção entre a banda de David Byrne e The Modern Lovers. Uma faixa com uma explosão catártica que fecha o EP com chave de ouro e que garante que os Courting são uma banda que vai fazer furor nos próximos anos, à medida que lançam mais coisas cá para fora.

Danielle Durack – No Place

No Place é o nome do terceiro disco de Danielle Durack, cantautora natural de Phoenix, Arizona. Neste seu mais recente trabalho, Durack foge da pop adulta que havia caracterizado os seus dois últimos trabalhos para uma sonoridade mais crua de folk,  próxima de artistas como Phoebe Bridgers ou Lucy Dacus.

Danielle Durack - No Place

No Place é um disco maduro para a cantautora, que explora temas que vão desde de um coração partido até o abraçar da esperança para um futuro que aí virá. Ajuda que Danielle tem a proeza de ser uma contadora de histórias nata. 

A lírica é um dos grandes pontos forte de Danielle, e esta consegue juntar isto a músicas que têm como arma a sua capacidade para expressar sentimentos, como ‘Broken Wings’, ‘Billy ou ‘Eggshells’, mais influenciadas pelo folk; e outras que têm como arma a sua sensibilidade pop, como ‘I’ll Try’, ‘Don’t Know If I’ll Stick Around’, que soa a algo que poderia surgir num disco de Julia Jacklin, ou a balada ‘There Goes My Heart’, que demonstra a evolução de Durack enquanto cantora e escritora. Este é um belo disco de uma cantautora que vale a pena seguir e anotar para se juntar às grandes atuais do género no futuro.

MARINA – Ancient Dreams in a Modern Land

Dois anos depois de Love + Fear, o álbum mais introspetivo da sua carreira, MARINA apresenta um projeto mais alternativo, intervencionista e empoderador, que não só vai beber aos sons contagiantes do maior sucesso discográfico – Electra Heart – como os eleva a todos os níveis ao deixar clara a sua maturidade artística.

MARINA - Ancient Dreams in a Modern Land

Feminismo, ecologia, quarentena, racismo, misoginia, capitalismo, religião a braços com a política, o colapso de Britney Spears em 2007, a prisão de Harvey Weinstein, movimento #metoo e corrupção. A lista de referências é enorme a apenas se refere a um único tema, ‘Purge the Poison’, o ex-líbris deste disco ao ser, por si só, uma enorme chamada de atenção e consciência coletivas. A seu lado, quase como um contrapeso, pelo menos em termos melódicos, porque a mensagem é igualmente forte, ‘Man’s World’ é uma pura e dura obra em prol da igualdade de género com a seguinte frase – “Burnt me at the stake / You thought I was a witch, centuries ago / Now you just call me a bitch” – a resumir de forma interessante todo um sistema patriarcal ainda bem vivo, apenas adaptado. 

São várias as propostas intensamente pop, sempre com influências indie e rock irreverentes e que a tornam numa estrela pop à parte das demais. De “I’m obsessed with the mess that’ s America” no disco de estreia, MARINA vai mais longe e não tem receio de apontar o dedo a todos os problemas sistémicos e aos sofrimentos provocados pelo país em ‘New America’. Uma mão cheia de pop atenta e viciante é complementada com cinco temas sentimentais, não menos necessários e ‘Highly Emotional People’, uma aceitação à vulnerabilidade comum a todos nós, destaca-se. 

Se o futebol ainda questiona a sua relação com a política, a arte, e a música em particular, sempre estiveram lá para dar voz ao que não pode passar em branco. Nesse sentido, Ancient Dreams in a Modern Land é um projeto completamente presente e ciente das batalhas sociais a travar.

Panopticon – …and Again Into the Light

Depois de realizar um dos melhores álbuns de black metal da última década (Roads to the North), Austin Lunn volta a acertar com …and Again Into The Light, uma espécie de regresso ao som que marcou a primeira metade da década passada.

Panopticon - ...and Again Into the Light

Com as suas fusões mórbidas entre folk americano e o grotesco e animalesco black metal acompanhado por momentos angelicais de música clássica que trazem o ambiente atmosférico e colossal às faixas, conseguindo criar uma frieza através dos instantes ambientais que nos transportam para um local apaziguador e orgânico criam a perfeita progressão e espaço para o feroz metal imperar e voltar a inserir-nos na imensa escuridão que o núcleo deste álbum possui. Os violinos, por sua vez, trazem-nos de volta ao brilho, de volta à luz, fazendo assim jus ao nome e a todo o conceito do álbum.

…and Again Into The Light é um álbum depressivo, que puxa pelas nossas emoções e que explora os confins e problemas presentes na mente de Austin Lunn, que confessa ter tentado “curar-se” ao transportar os sentimentos infelizes que têm dominado a sua cabeça, por isso mesmo é que todos os ganhos deste álbum revertem para apoiar pessoas que lidem com problemas relacionados com saúde mental.

Este projeto tira total vantagem do seu nome e conceito, onde realmente nos sentimos a viajar entre a claridade e obscuridade desta total catarse entre o sereno e o tempestuoso black metal atmosférico. É um álbum tão lindo como feroz, é escuro, é claro, é catártico e é incrivelmente produzido, especialmente se tivermos em conta que à exceção de alguns instrumentos de cordas, tudo foi única e simplesmente feito por Austin Lunn. Se são fãs deste género, este aqui é obrigatório. Para quem não o é, tem aqui um excelente starter.

Parannoul – To See the Next Part of the Dream

To See the Next Part Of the Dream é o nome do segundo disco do músico sul coreano Parannoul

 Parannoul - To See the Next Part of the Dream

À semelhança do seu disco de estreia, Let’s Walk on the Path of a Blue Cat de 2020, Parannoul explora sonoridades como o shoegaze, o post-rock e o emo para criar as suas faixas. No entanto, neste seu novo trabalho, dá um maior papel à sua voz que, no meio do lo-fi sonhador das faixas, revela-se insegura para com o mundo, mas capaz de arrebatar as nossas emoções cada vez que surge.

A música de Parannoul é uma lembrança que a música é uma linguagem universal. Não importa a língua em que se canta, é possível que os sons despertam em nós emoções e é precisamente isso que To See the Next Part Of the Dream consegue fazer. Conseguimos entender que as músicas contam estórias de momentos que ocorreram – há uma componente nostálgica forte ao longo de todo o álbum – e que há uma certa ansiedade que surge no fundo do reverb que cobre as faixas. O resultado final disto é catarse total. 

Há uma explosão de emoções na constante presença das paredes de guitarra nas músicas, particularmente evidenciadas em faixas como ‘White Ceilling’, ‘Excuse’ (com a sua sensibilidade pop a permitir criar uma faixa orelhuda também) ou ‘Beautiful World’, que abre o disco sem perder tempo a apresentar a viagem na qual estamos prestes a embarcar pelo mundo de Parannoul. É bela, sonhadora, um bocadinho longa, mas no final, encontramo-nos hipnotizados pela sua música.

Porter RobinsonNurture

EDM (Eletronic Dance Music) é um género que é tão popular como criticado pelos mais afincados nerds musicais. O principal objetivo deste nem é tão artístico quanto isso, passa pela forma mais eficaz de satisfazer uma multidão num concerto, ou de simplesmente fazer o ouvinte sentir algo enquanto nem se preocupa tanto se o que está a ouvir é criativo ou bem produzido, daí o género ser constantemente associado a uma excessiva comerciabilidade. Aquilo que Porter Robinson sempre tentou fazer foi utilizar as melhores qualidades do EDM como a emoção, a estética futurística, os sintetizadores poderosos e o quão apelativo consegue ser e unir com fórmulas de indie pop e synthpop. Isto nunca foi tão bem feito como em Nurture.

Porter Robinson - Nurture

O que diferencia este trabalho dos restantes projetos de Robinson, é que tudo o que está aqui feito é focado em atingir o máximo de emoção, seja os sintetizadores vulneráveis, as bonitas e subtis melodias ou as letras bastante pessoais e até tristes, tudo isto acaba por nos fazer sentir algo, seja este sentimento nostalgia, tristeza, alegria ou satisfação. O exemplo sumarizado disto é a faixa ‘Mother‘, onde as lágrimas podem mesmo acabar por surgir.

É difícil não ficarmos num total momento de apatia com o mundo real quando somos engolidos pelas paredes oníricas deste beatífico álbum. Tudo floresce com enorme harmonia, a voz sinteticamente alterada que traz tanta dinâmica, os infetantes refrões, a vulnerabilidade de Porter e a narrativa do projeto, tudo isto enquanto se explora uma panóplia considerável de estéticas e géneros como j-pop, ambient, folk, progressive house e future garage, o que só demonstra os riscos tomados que acabaram felizmente por resultar. A produção exacerbada e extremamente limpa pode ter o potencial para desligar muitas pessoas deste álbum mas, para quem se aventura na sua sonoridade, a experiência é deveras fascinante.

Rover – Eiskeller

Eiskeller é o terceiro álbum de Rover, nome artístico de Timothée Régnier, lançado no passado dia 7 de maio. 

Rover - Eiskeller

Para produzir este álbum, onde este se apresenta mais maduro e consciente, filho seu desde a composição à produção, o artista esteve um ano e meio numa casa de gelo do século XIX (um Eiskeller em alemão), localizada em Saint Gilles, que é uma antiga comuna em Bruxelas. Este ambiente isolado, onde a luz do dia não chegava e com temperaturas que oscilavam entre os 8ºC e os 12ºC, proporcionou a Rover uma profunda exploração do seu mais íntimo e de introspeção, ambiente desconfortável que viu nascer desde “cartas” a pessoas amadas até uma homenagem a uma árvore emblemática dos Hautes-Alpes.

‘Eiskeller’ é composto por 13 faixas suaves, reconfortantes e calorosas, com sonoridades que remetem para os anos 70, com influências de David Bowie e Bob Dylan, sendo o oposto do segundo disco Let It Glow que foi inspirado nas suas digressões e adotou uma sonoridade mais rock.

Squid – Bright Green Field

Bright Green Field é o nome do disco de estreia dos Squid, grupo de Brighton. Este é um disco que desenvolve a sonoridade apresentada no EP de 2019, Town Centre. Aí, a banda apresentava-se mais perto de uns Talking Heads, enquanto que neste longa-duração, a banda aproxima-se mais das influências de krautrock e do post-punk. O resultado é um disco que tem tanto de experimental como de dançável, cheio de ritmos pujantes que nunca deixam de impressionar.

Squid - Bright Green Field

Faixas como ‘Paddling’, ‘Narrator’ (que conta com a participação incrível de Martha Skye Murphy) e ‘Pamphlets’ demonstram o quão bem consegue a banda criar grooves que soam infinitas. A bateria prolonga-se no tempo (invocando a motorik várias vezes), as linhas de baixo vão acompanhando ao tornar as faixas dançáveis e os riffs de guitarra vão-se replicando, ruidosos, e com microtons à mistura, em momentos deliciosos de instrumentação. A faixa ‘Peel St.’, ‘2010’ e ‘Global Groove’, com os seus toques mais experimentais, são bons exemplos do trabalho de guitarra que se pode encontrar ao longo deste álbum também, além das já mencionadas anteriormente. 

Os Squid são das bandas mais excitantes do rock atual e este disco é a exata confirmação desse dado. Uma das audições mais cativantes do ano.

Escolhas e textos de Catarina Amado, José Duarte, Matilde Dias, Miguel Rocha e Paulo Barros.