Fundadoras do projeto Happy Pad
Fotografia: Divulgação no site PPL

The Happy Pad: o penso ecológico e reutilizável que quer acabar com a pobreza menstrual

O Espalha-Factos esteve à conversa com uma das fundadoras do projeto The Happy Pad

Nos países em desenvolvimento, a menstruação ainda é um dos entraves no acesso à educação e ao emprego. Esta é uma realidade que poucos de nós, felizmente, conhece. Estivemos à conversa com a Inês, uma das fundadoras do projeto The Happy Pad, para conhecer um pouco mais sobre esta iniciativa, criada por três jovens, e perceber melhor o problema da pobreza menstrual.

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) uma em cada 10 jovens acaba por faltar à escola ou ao trabalho para evitar métodos de higiene alternativos — recortes de jornal, meias velhas ou folhas — que as coloca em risco de contrair infeções, fazendo com que seja difícil a obtenção de recursos financeiros e/ou educação.

Várias são as razões que levam a que este problema ainda exista nos dias de hoje — principalmente em países emergentes, mas não só — tais como a escassez e difícil acesso a produtos de higiene feminina, o seu custo elevado, a falta de infraestruturas para a realização da higiene íntima, a religião, a sociedade patriarcal, o estigma associado a este assunto ou a falta de educação para o mesmo.

O problema tem um nome, Pobreza Menstrual, e coloca milhares de mulheres num ciclo vicioso muito difícil de sair. Ajudar a quebrar este ciclo em São Tomé e Príncipe é o objetivo do projeto The Happy Pad.

Lola, Inês e Kira, estudantes do Mestrado em Gestão na Nova SBE em Lisboa, aperceberam-se da dimensão da pobreza menstrual em São Tomé e Príncipe e decidiram criar este projeto que tem como objetivo base ajudar a consciencializar e a educar jovens mulheres deste país, bem como a disponibilizar kits com todos os recursos necessários para que elas possam coser os próprios pensos menstruais. Tudo será financiado através da venda de pensos higiénicos laváveis e reutilizáveis na Europa, os Happy Pads.

O projeto Happy Pad surgiu no âmbito do vosso curso universitário mas, como surgiu a ideia, ou seja, de que forma houve uma consciencialização para a pobreza menstrual em São Tomé e Príncipe?

Inês: Através da Organização Não Governamental para o Desenvolvimento (ONGD) We Are Changing Together (WACT), com quem trabalhei para uma outra cadeira do Mestrado, percebi muito a realidade local e fui tendo alguma noção do que era a pobreza menstrual que, para mim, felizmente, nunca tinha sido uma realidade. Fiquei bastante chocada e senti que precisava de fazer alguma coisa. Falei com a Kira e com a Lola, as minhas colegas do projeto, e expliquei-lhes o problema, também elas ficaram chocadas com a situação e pensámos que tínhamos de fazer qualquer coisa para tentar melhorar, pelo menos, um bocadinho a vida destas mulheres e jovens e assim nasceu a iniciativa The Happy Pad.

A base de tudo, pelo menos eu acredito muito nisto, é a educação.”

A educação para o tema acaba por ser mais importante e eficaz do que a entrega dos produtos em si?

Sem dúvida! O que nós percebemos é que não é um problema que se resolve dando pensos e tampões às mulheres que vivem nestes países, porque a pobreza menstrual é um problema que vem do estigma associado à menstruação. A base de tudo, pelo menos eu acredito muito nisto, é a educação. Tanto que a ideia deste projeto é enviar os materiais para São Tomé e Príncipe e as mulheres aprenderem a coser o próprio penso, através de um molde muito simples e com qualquer tecido que tenham à mão, como uma t-shirt velha, assim conseguem, pelo menos, travar o período. Pode não ser a melhor opção mas, é algo que lhes permite ir ao trabalho ou à escola. O facto de aprenderem a coser o próprio penso permite-lhes que não fiquem dependentes de ninguém. A outra parte da educação e da consciencialização também é muito importante, ou seja, a partir do momento em que as mulheres e também os homens destes países perceberem o que se está a passar com o corpo delas poderão aceitar que é uma situação normal, que vai acontecer todos os meses e que não tem nada de mal. Depois de todos entenderem o que está a acontecer às mulheres e jovens e transmitirem esse conhecimento às gerações futuras, teremos crianças mais informadas e irá haver uma redução do estigma para com a menstruação.

Havendo tantos países fragilizados neste tema, por que razão a vossa escolha recaiu sobre São Tomé e Príncipe?

Devido ao meu trabalho na WACT. Sem ter uma ponte local é impossível fazer este trabalho e dentro desta organização existe o projeto Sebê Nón que tem sede em São Tomé e Príncipe e se dedica em exclusivo ao empoderamento de mulheres, através de aulas e sessões de educação em vários aspetos. Este ano, o objetivo deles é mesmo dar aulas de educação menstrual e sexual, a nossa parte está relacionada com a educação menstrual, então achámos que fazia todo sentido juntar os dois projetos e, assim, eles ajudam-nos com a parte de distribuição dos kits. 

Kits enviados para São Tomé e Príncipe
Kits para o combate à pobreza menstrual enviados para São Tomé e Príncipe
Imagem: Divulgação / Instagram The Happy Pad

Há planos para no futuro ajudarem jovens de mais países em desenvolvimento?

Sim! Estamos a falar com várias pessoas em Angola, para ver se conseguimos, ainda este ano, também enviar os pensos para lá. Temos tido respostas positivas, mas ainda não está tudo finalizado, mas em princípio Angola será o nosso próximo destino.

Como é que as mulheres europeias podem adquirir os vossos pensos? 

Por agora, através do Instagram do projeto é possível comprar os pensos e toda a ajuda será para o envio dos kits para São Tomé e para a educação menstrual das jovens e mulheres deste país. Num futuro muito próximo iremos montar o nosso website onde também será possível efetuar a compra. E também iremos ter uma parceira física em Lisboa, a loja In Fashion, onde será possível adquirir os produtos, ainda não estão disponíveis porque a nossa campanha de crowdfunding acabou recentemente e com esse dinheiro é que poderemos iniciar a produção em maior quantidade.

O projeto de crowdfunding que tiveram em curso correu como esperavam?

Correu muito bem, ficámos muito contentes! Conseguimos cumprir o objetivo e ainda ultrapassá-lo um pouco.

Não deve haver medo nem vergonha de ter o período.”

A menstruação ainda é um tema tabu em muitos países, principalmente países menos desenvolvidos. O que pode ser feito para combater o estigma?

Acho que começa muito por falarmos sobre o assunto abertamente. O que acontece neste países e não só, também em países desenvolvidos, é um estigma muito grande associado ao período. Um exemplo, são os anúncios de pensos e tampões que em vez de mostrarem sangue ou líquido vermelho mostram um líquido azul, logo aqui existe um entrave. Um outro exemplo, é na escola quando somos miúdas, vamos à casa de banho e fazemos um esforço enorme para esconder tudo, quando é uma coisa muito natural. Não deve haver medo nem vergonha de ter o período. É fulcral haver aulas de educação menstrual, mais uma vez, tudo está na base da educação. Falar sobre o assunto vai gerar mais discussão à volta do tema, o que faz com que mais pessoas fiquem consciencializadas para ele.

A pobreza menstrual é algo que limita a vida de muitas mulheres e que desencadeia uma série de outros problemas como abandono escolar. Acham que nos países mais desenvolvidos este é um problema ultrapassado ou ainda há trabalho a fazer?

Não. Ainda há mesmo muito trabalho a fazer, principalmente na parte do estigma, porque muitas de nós temos acesso a produtos de higiene feminina, felizmente. Se bem que, há muitos dados que mostram que as taxas e os impostos sobre estes produtos fazem com que muitas mulheres não consigam comprá-los. Um bom passo seria a redução dos impostos sobre este tipo de produtos que os tornaria mais acessíveis a todas as jovens e mulheres.

Vários países, como o Reino Unido, a Nova Zelândia ou alguns estados dos EUA, têm aprovado várias medidas para combater a pobreza menstrual, como tornar estes produtos gratuitos nas escolas públicas ou mesmo para todas as mulheres que precisem. Achas que isso é um avanço no combate a este problema?

Completamente. Um avanço mesmo gigante, porque não há nenhuma consequência negativa que advenha deste tipo de medidas, pelo contrário, só dá mais acessibilidade a este tipo de produtos. Pois, tal como os alimentos e a água que são bens necessários para a sobrevivência, também estes produtos são essenciais para que as mulheres tenham um dia-a-dia normal e uma menstruação mais digna e saudável, para daí não advirem doenças.

Por coincidência, ou não, tanto a Escócia como a Nova Zelândia têm mulheres como primeiras-ministras, fará isto diferença na forma como um país é sensível a estas questões?

Claramente. São Tomé e Príncipe tem uma sociedade patriarcal, e isso é um dos fatores que faz com que a taxa de pobreza menstrual seja tão elevada. Os homens não lidam em primeira mão com este tipo de questões, logo não sabem que é um problema porque não passam por isso, não sendo algo que os afeta diretamente acabam por ignorar. Logo, tendo na liderança mulheres que vivem este tipo de preocupações de perto percebem que é de facto um problema que existe e tentam resolvê-lo através deste tipo de medidas. Era muito bom que líderes masculinos, no futuro, também conseguissem perceber que a pobreza menstrual é um algo grave e que afeta milhares de jovens e mulheres em todo o mundo.

Acreditas que a normalização da menstruação poderá levar a uma procura por produtos alternativos e mais amigos do ambiente, como os Happy Padds que são reutilizáveis e feitos principalmente de restos de tecidos?

Eu acho que a tendência está muito a ir por aí, não só ao nível do consumo como no geral. Na sociedade, a tendência está a ser a busca por tudo o que é mais sustentável e amigo do ambiente. O uso de pensos ou tampões únicos contribui para uma enorme camada de plástico e de lixo não reciclável. Com os nossos pensos, as pessoas não só estão a ajudar o ambiente, como também a carteira, pois estes pensos duram, em média, cinco anos, enquanto uma daquelas caixas [de pensos descartáveis] dá para uma vez.

Sabe-se que a pandemia da Covid-19 veio agravar ainda mais a pobreza menstrual de milhões de mulheres que usam métodos alternativos, mas inseguros. Ainda há muitas mulheres a morrer por causa da menstruação?

Infelizmente sim. Não só pelas causas mais diretas, como as doenças que vêm literalmente por não terem acesso aos produtos. Mas também devido a causas indiretas, estas mulheres vivem ao abrigo dos maridos e nos 2-7 dias de duração do período menstrual são afastadas deles, acabando assim por sofrer e ficarem expostas a situações mais vulneráveis, por exemplo violações. Isto é algo que para além de as afetar fisicamente também as afeta muito psicologicamente.

Desde 2014 que no dia 28 de maio se assinala o dia da Higiene Menstrual. A menstruação e os problemas que advêm da pobreza menstrual contribuem para a desigualdade de género. Parece-te que num futuro próximo o deixará de ser assim?

Eu acho que num futuro próximo é possível. A existência deste dia é logo um primeiro passo para que as pessoas estejam consciencializadas que a pobreza menstrual é um problema e que dela advêm várias consequências. Se calhar, por isso não devíamos ter um dia, devia ser uma semana ou um mês, devíamos falar disto todos os dias (risos). Nunca se pode reduzir o problema à falta de pensos e tudo o que isso acarreta, como uma rapariga não poder ir à escola ou ao trabalho. E claro que isto contribui para a desigualdade de género, porque enquanto a mulher durante o período menstrual não pode ir trabalhar e não recebe o seu sustento o homem pode ir sempre trabalhar, logo financeiramente ele já está a ter uma vantagem. A esperança é que se cada vez mais se falar sobre o problema isso leve a que essa desigualdade seja combatida.

Lê também: ‘O Meu Sangue’: a menstruação não é tabu nesta série do RTP Lab

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