manhãs de setembro
Fotografia: Divulgação/Amazon Prime Vídeo

Crítica. ‘Manhãs de Setembro’ traz sensibilidade e (muita) crítica social

A nova aposta da Amazon Prime Vídeo, Manhãs de Setembro, estreia esta sexta-feira (25) em 240 países. No mês que se comemora o orgulho LGBTQIA+, a série brasileira é uma das apostas do streaming para este mês.

Manhãs de Setembro conta a história de Cassandra (Liniker), uma mulher trans que abandona a sua cidade natal para seguir o sonho de cantar. Aos poucos, a sua vida parece entrar nos eixos: consegue arrendar um apartamento seu pela primeira vez, tem um namorado que a ama – Ivaldo (Thomás Aquino) -, um trabalho como entregadora e também está a conseguir realizar o seu sonho como artista de covers de Vanusa, famosa cantora brasileira da década de 1970, que faleceu em 2020. Mas de repente, algo inesperado atravessa-se no seu caminho: Leide (Karine Teles), com quem teve um envolvimento no passado, aparece com Gersinho (Gustavo Coelho), que ela afirma ser filho da personagem interpretada por Liniker. E é a maternidade, nas suas múltiplas formas, que acaba por ser a força motriz da série.

O Espalha-Factos teve acesso aos cinco episódios (com cerca de 30 minutos cada) da primeira temporada, e diz-te um pouco sobre o que podes esperar deste lançamento da Amazon Prime Video.

AVISO: Este artigo poderá conter spoilers

A realidade brasileira da comunidade LGTBQIA+

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Fotografia: Divulgação/Amazon Prime Vídeo

Manhãs de Setembro é uma série baseada na ideia original do jornalista Miguel de Almeida, d’O Globo, e conta a história de uma mulher trans que sai da sua cidade natal para perseguir o seu grande sonho de ser cantora. A história pode parece comovente, linda e cheia de momentos recompensadores, mas sabe-se que a realidade brasileira é bem diferente da de conto de fadas. O Brasil é o país onde mais se matam pessoas trans, como mostram os dados – em 2020, foram 175 travestis e mulheres transexuais assassinadas.

Em entrevista, Luís Pinheiro, o realizador da série, falou da importância de contar a história de uma mulher trans tendo em conta a realidade que se vive no país: “Ter uma protagonista preta e trans no cenário obscuro do Brasil em que estamos vivendo é fundamental enquanto resistência, enquanto cultura. É uma oportunidade para propor uma personagem como a gente quiser, que trabalha e valida o afeto”.

Percebe-se que a série se preocupou em mostrar a protagonista e todos os problemas por que passa de forma natural e realista – os preconceitos que enfrentaria por ser preta, travesti e pobre -, o que só engrandece a história que, sem pudor, nos mostra aquilo que de facto acontece.

Uma personagem humana

Fotografia: Divulgação/Amazon Prime Video

Ao relatar a história de Cassandra, a série é pioneira ao abordar um assunto que ainda não tinha sido tratado no Brasil: falar sobre uma mulher trans após a transição (quando a maioria aborda o processo de transição). Mais do que isso, mostra-nos uma mulher bem resolvida, financeiramente estável, e num relacionamento com alguém que ama.

Liniker, atriz e cantora que dá vida à protagonista, relatou que um dos motivos que a fez aceitar o papel foi a humanização da personagem. “Criar a personagem a partir da rede de afeto que ela tem me emocionou. A Cassandra não está nesse lugar encaixotado que muitas narrativas e olhares do audiovisual colocam as pessoas trans, que é sempre à margem, em situações de perigo e violência, e sob um olhar muito marginalizado”, aponta. “Poder ver uma personagem como essa que tem uma casa, relações de afeto, um trabalho… Agradeço aos argumentistas terem tido esse carinho de humanizar uma personagem tão completa e intensa”.

Ao tentar relatar a vida de uma personagem que, depois de muitos anos de luta e aceitação, se vê numa posição em que nunca esperou encontrar-se – a de ter um filho -, e a sua dificuldade em aceitar esta sua nova realidade, mesmo com uma criança linda e afetuosa – Gersinho, interpretado brilhantemente pelo ator Gustavo Coelho -, o filme mostra a realidade de muitas pessoas que, errando e acertando, tentam, de todas as formas, encontrar uma maneira de serem felizes.

Críticas sociais latentes

Fotografia: Divulgação/Amazon Prime Video

Todo dia ela faz tudo sempre igual..“, como bem dizia o cantor Chico Buarque. Cassandra acorda cedo, todos os dias, para trabalhar como entregadora de uma aplicação e, nas noites, assume os palcos de um bar e dá voz ao seu sonho como cantora. Uma situação que se assemelha muito à realidade de várias pessoas, principalmente num país com tanta desigualdade de classes como o Brasil.

Todas as personagens da série mostram um pouco da realidade do subúrbio da cidade de São Paulo, onde se passa a trama, com pessoas a trabalhar nos sinais das ruas, crianças a ajudar os pais, vendedores de roupas, ou ajudantes de mesa. Muitas delas têm de ter mais de um emprego para pagar as contas ao final do mês e, mesmo assim, ganham pouco para o alto custo de vida, o que acaba por tornar difícil ter uma vida considerada “digna”, dentro dos altos padrões exigidos.

Com uma bela cinematografia e a imensa cidade de São Paulo como pano de fundo, Manhãs de Setembro acaba por se tornar uma série agradável de assistir, realista, sensível e necessária, um símbolo de representatividade na produção audiovisual brasileira.

A produção inclui ainda, no elenco Paulo Miklos,  Gero Camilo, Isabela Ordoñez, Clodd Dias e a cantora Linn da Quebrada, com realização de Luis Pinheiro e Dainara Toffoli e produção de Andrea Barata Ribeiro Bel Berlinck da O2 Filmes, empresa fundada por Fernando Meirelles (Cidade de Deus, Dois Papas).

Manhãs de Setembro tem estreia marcada para esta sexta-feira, 25 de junho, na Amazon Prime Vídeo, e é composta por cinco episódios de 30 minutos, que até poderiam se tornar um filme de 2h30 mas que não perde a sua essência.

 

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