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António Luís Marinho: o serviço público “é absolutamente vital para uma sociedade democrática”

O Dia das Nações Unidas para o Serviço Público é celebrado esta quarta-feira, dia 23 de junho. O Espalha-Factos esteve à conversa com o antigo diretor-geral de conteúdos da RTP, António Luís Marinho, para perceber a importância deste serviço na atualidade mediática.

O Dia das Nações Unidas para o Serviço Público foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) com a resolução 57/277 e foi celebrado pela primeira vez no ano de 2003. O principal objetivo da data é valorizar o papel do serviço público na sociedade, bem como reconhecer o trabalho dos respetivos funcionários e apelar ao seguimento da carreira neste setor. Mas o que é de facto o serviço público de media? António Luís Marinho, diretor-geral de programas da RTP até 2015, explica-nos de forma mais detalhada os pontos que caracterizam este serviço, bem como a sua importância e os desafios que enfrenta na atualidade.

Completo, independente e de qualidade — os três parâmetros base

Na mensagem de celebração da data, este ano, o secretário-geral da ONU, António Guterres, destacou que “enquanto o mundo continua a enfrentar a devastação da pandemia Covid-19, o trabalho [do serviço público] é mais importante do que nunca”. No que toca aos media, António Luís Marinho defende uma ideia semelhante: “O que se viu e o que se ouviu ao longo desta pandemia, e que continuamos a ouvir, questões de grande desinformação,… O que nós temos que conseguir é que seja o serviço público a dar a garantia à sociedade de que aquilo que o serviço comunica, as informações que são prestadas pelos órgãos de serviço público, são aquelas que as pessoas devem confiar e nas quais devem acreditar.

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Fotografia: Reprodução

No entanto, muitas são as ideias distorcidas e pré-concebidas, e o investigador de História Contemporânea sublinha que é importante desmistificar a ideia de serviço público quanto aos media. “Muitas vezes, as pessoas confundem-no com um serviço que se presta a governos ou a coisas similares, e o que nós devemos garantir é exatamente o contrário”. António Luís Marinho aponta, por isso, três valores essenciais: “Tem de se lutar por um serviço público que garanta, por um lado, qualidade, como é óbvio, isenção e, sobretudo, independência”.

São estes os pilares que, diz-nos, asseguram sociedades democráticas. “Nos dias que correm, tendo em conta a crise que a informação a nível mundial vive, a garantia de um serviço público de qualidade e, sobretudo, que possa garantir a verdade, isto é, que não se deixe infiltrar por toda esta onda de notícias falsas e desinformação, é absolutamente vital para uma sociedade democrática.

Os desafios e o medo de ser irrelevante

Quando se pensa nos media na atualidade, é praticamente impossível não pensar também em termos como “desinformação” ou “fake news”. Para o antigo diretor-geral de programas da RTP, esse é um dos principais desafios que o serviço público de media enfrenta nos dias que correm. Para lhes fazer frente precisam, acima de tudo, de meios “que lhes possibilitem separar-se completamente de tudo quanto é a informação desregulada, a desinformação, fake news, e para garantir que conseguem fazer essa triagem”.

O segundo desafio é mais claro e constante: a garantia de independência em relação aos governos. Para isso, retoma, precisam que “os governos não tenham a tentação — tendo em conta que são os governos que pagam, é o Estado que financia esse serviço — e consigam sempre separar o que é financiar, dar meios, e imiscuir-se depois nos seus conteúdos e tentar fazer pressões”.

Há sempre o risco de se tornar irrelevante”

Com as novas gerações, chega o terceiro desafio. Não é novidade que, com o passar dos anos, a relação dos jovens com os media se foi alterando. Atualmente, as novas gerações já fazem parte da “sociedade da informação global“, que “recebe informação por todos os meios, muitas vezes — como é, aliás, hoje notório — com grande dificuldade em conseguirem separar o que é verdade do que é mentira”, repara António Luís Marinho. É aqui que se percebe a importância do serviço público de media e o medo de que o mesmo se possa vir a tornar irrelevante no futuro.

 

O risco, afirma o investigador, parte principalmente da ideia errónea quanto ao que é o serviço público de media. “Olhamos só para a televisão e esquecemos o papel que a rádio tem, ou que uma agência de notícias tem, em todo este circuito noticioso”. A solução, garante, é simples, mas para isso é preciso que haja, “por parte das entidades oficiais, de facto, a noção de que o serviço público é absolutamente essencial e continua a ser até cada vez mais importante” para que “a sociedade continue a ser uma sociedade democrática e sã”.

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