Fotografia: Netflix

Crítica. ‘Elite’: Uma temporada de más personagens e relações tóxicas

A quarta temporada de Elite estreou na sexta-feira, dia 18 de junho, na Netflix. Esta nova temporada da série sensação espanhola surpreende e não por boas razões. Com personagens medíocres, um foco em relações que não funcionam e uma vítima que acrescenta pouco à narrativa, Elite conseguiu produzir a sua pior temporada até ao momento.

A série espanhola foca-se na vida de vários adolescentes que estudam no colégio Las Encinas, uma das instituições com maior prestigio em Espanha. Elite junta elementos típicos de histórias de liceu com mistério e suspense, já que em cada temporada existe um crime cometido em que os estudantes estão, invariavelmente, envolvidos. A série é protagonizada por Itzan Escamilla, Miguel Bernardeau, Arón Piper, Omar Ayuso, Claudia Salas e Georgina Amorós. Em temporadas anteriores contou com a presença de María Pedraza e Miguel Herrán, já conhecidos pelos seus papeis em La Casa de Papel, e Ester Expósito, que também participou em Alguém Tem de Morrer.

Aviso: o texto tem spoilers

Nesta nova temporada, o enredo gira em torno da chegada de um novo diretor, Benjamin (Diego Martín), a Las Encinas. Este faz-se acompanhar por três filhos que se juntam ao colégio. Ari (Carla Díaz), Mencía (Martina Cariddi) e Patrick (Manu Rios) vão infiltrar-se no já conhecido grupo de estudantes e fazer parte do crime cometido, do qual a vítima é precisamente Ari. 

Elite - Benjamins
Fotografia: Netflix

Benjamin chega com o objetivo de colocar Las Encinas “nos eixos”, já que os últimos anos no colégio foram nada menos do que caóticos. Começa por despedir a mãe de Ander (Arón Piper), antiga diretora, e tentar assegurar-se que os alunos bolseiros, Samuel (Itzan Escamilla) e Omar (Omar Ayuso ), merecem de facto as suas bolsas, aplicando-lhes um exame escrito. Mencia, uma das filhas de Benjamin, explica que a única forma de se livrarem deste exame será convencer Ari a falar com o pai, o que leva Guzman (Miguel Bernardeau) a tentar seduzi-la para esse efeito. Já Ander tenta seduzir Patrick com o mesmo objetivo. E assim se integram os novos alunos nesta história.

O pouco de bom da temporada

A personagem de Mencía traz à série um tópico novo, em acrescento a outros já típicos da série. Depois de Benjamin lhe ter retirado o acesso aos fundos da família, Mencía decide começar a prostituir-se, ainda que exclusivamente com Armando (Andrés Velencoso), um antigo aluno do colégio e aparentemente simpático. Claro que eventualmente tudo dá para o torto quando Mencía decide receber um novo cliente que não entende a palavra “não”. Nesta storyline, a série arrisca com um tema controverso, e tenta mostrar não só que a prostituição não é exclusiva de uma determinada classe social como os perigos que acarreta.

Esta é das poucas coisas que impede a temporadas de se tornar aborrecida, já que todas as outras linhas do enredo são mais do mesmo que já vimos em três temporadas diferentes. Ainda que Mencía por si só não seja a personagem mais interessante ou cativante, a sua história e a sua nova relação com Rebeka (Claudia Salas), que a apoia incondicionalmente, são dos poucos pontos altos desta nova temporada. Este é outro tópico bom da série: vemos Rebeka a ultrapassar o que aconteceu com Samuel, voltar a esta amizade e aceitar os seus sentimentos por Mencía sem dramas, o que é refrescante numa série juvenil.

Elite - Mencia e Rebeka
Fotografia: Netflix

Um outro ponto positivo, e algo a que esta série já nos habituou, é o contraste que existe na cinematografia, uma outra coisa que impede a série de ser intragável. A oposição dos tons utilizados no colégio, em grande parte brancos, com os tons mais escuros utilizados nas saídas à noite, em conjunto com os néons típicos de Elite, são algo que não vemos noutras séries de adolescentes, uma atenção ao detalhe que dá alguns pontos à série. Ainda assim, o que a temporada tem de bom acaba por ter de mau a duplicar.

Personagens arruinadas

É perfeitamente compreensível que as personagens tenham de se renovar, já que ninguém fica no secundário para sempre. O que não se compreende é um renovar de personagens que acabam por ser cópias baratas das anteriores. Ari é a personagem mais aborrecida que Elite já teve a infelicidade de criar. Todos adoramos um anti-herói, um antagonista cativante, mas Ari parece não ter qualquer tipo de motivação por trás das suas ações, aparecendo como mais uma menina rica e elitista. Francamente, Elite já tinha disso de sobra e não era preciso mais. Isto é ainda mais gritante quando percebemos que Ari se encontra no centro do crime cometido esta temporada, já que não é muito boa decisão ter uma personagem detestável como uma vítima com quem nos devemos preocupar.

Ainda no tópico de personagens, o maior crime cometido nesta temporada é o arruinar de todo o arco de Guzman. Uma personagem que esteve a ser desenvolvida durante três temporadas volta à estaca zero, quando decide acabar a sua relação com Nadia (Mina El Hammani) e perseguir uma nova relação com Ari, alguém com quem falou umas três vezes a este ponto. Pior ainda, acabamos por perceber que esta nova relação é mais motivada por uma necessidade de competir com Samuel do que propriamente vontade de estar com Ari, o que nos leva de volta a toda a história de Guzman se considerar acima de Samuel. Deste modo, voltamos ao Guzman da primeira temporada, uma personagem elitista e com mania de grandeza, o que destrói uma das melhores evoluções que Elite criou. 

Elite - Guzman e Ari
Fotografia: Netflix

Relações tóxicas

Se esta temporada tivesse um tema principal seria, definitivamente, relações tóxicas. Entre Cayetana (Georgina Amorós) e o novo príncipe das Encinas, Philipe (Pol Granch), e Ander e Omar, venha o diabo e escolha.

Philipe chega a Las Encinas depois de um escândalo no seu país, o que o leva a procurar escapar às câmaras e refugiar-se em Espanha. Quando chega ao colégio é abordado por Cayetana, que tenta fingir não ser contínua mas rapidamente é apanhada. Ainda assim, Philipe interessa-se por ela e eles constroem uma ligação através de um amor comum pela moda. Esta relação é abalada quando Cayetana descobre que Philipe gravou a primeira vez que dormiram juntos, sem a sua autorização. Mas aparentemente isto não é uma red flag grande o suficiente para Cayetana, que perdoa o príncipe apesar de continuar desconfiada. Tem tudo para dar certo, não é? E, como é óbvio, dá tudo errado. Este desfecho era mais do que previsível, mas pelo menos a série não cometeu o erro de fazer Cayetana esquecer a gravação, ainda que o voltar para Philipe tenha sido um erro depois do assédio que sofreu com a gravação.

Esta relação foi uma forma da série conseguir explorar o tópico do assédio dentro de uma relação, e apesar de ser de certa forma realista, não cativa o espectador. Para além de fazer com que Cayetana perdoe Philipe apesar de estar desconfiada, o que já deixa os espectador irritado por se perceber que não vai acabar bem, Elite tenta redimir o príncipe da forma mais preguiçosa possível. Depois de filmar Cayetana e quase a violar, o príncipe tem uma mudança radical e pede desculpa a outra rapariga que assediou, deixando uma mensagem gravada como prova para que ela possa utilizar se quiser. É algo súbito e que tenta reabilitar a personagem sem esforço, acabando por não resultar.

Elite - Cayetana e Philipe
Fotografia: Netflix

No tópico de relações que não fazem sentido, Ander e Omar levam a coroa. Este casal foi um favorito na primeira temporada, mas desde então foi sempre a descer. A temporada passada já fez um bom trabalho a alienar os espectadores deste par, mas nesta é impossível alguém ainda os querer ver juntos. Utilizar a personagem de Patrick para trazer novas emoções à relação foi uma boa jogada, mas continuar com o mesmo drama de sempre na relação já cansa. Omar corre atrás de Ander, estão muito apaixonados mas não faz sentido estarem juntos — a história é a mesma de sempre e já não há paciência. É incrível como foi possível que o casal mais adorado pelos fãs na primeira temporada seja agora um dos que mais queremos que acabe. Omar acaba por ser o único a esforçar-se na relação, ainda que também cometa erros, como foi o caso de estar com Patrick depois de pedir a Ander que não o fizesse. Já Ander parece preocupar-se mais com viver todas as experiências possíveis do que estar com o namorado, ainda que continue a proclamar que o ama. O que vemos é uma temporada em que Omar sofre constantemente, Ander vive as suas experiências e decide que apesar de amar o namorado não quer manter uma relação. E tendo em conta tudo o que aconteceu com estes dois, este era o melhor desfecho possível, mas Elite não podia criar uma separação saudável e teve de os voltar a juntar. Uma relação que acabou por ser tóxica e só trazer infelicidade ao casal devia ser a última a voltar a juntá-los, mas infelizmente esta série não o entende.

Elite - Ander e Omar
Fotografia: Netflix

Quanto ao plot twist final, foi das melhores partes de toda a temporada, mas já veio demasiado tarde para a salvar. Ainda assim, merece menção honrosa: foi algo que Elite ainda não tinha feito e uma jogada de mestre, tendo em conta que já conhecíamos a primeira vítima desde o início. Infelizmente, não houve outras jogadas parecidas, porque poderíamos estar perante uma das melhores histórias em Elite, que conseguiu ser eclipsada por personagens mal escritas.

No fim do dia, com uma série viciante e de ritmo rápido como Elite, vamos todos esperar ansiosamente pela próxima temporada. Isso não significa que não tenhamos noção da realidade: Elite já não é o que era e dificilmente vai voltar ao nível anterior, mas se estás à procura de algo apenas para passar o tempo, é uma boa série para ver como distração. Se o que procuras é um bom guião, desenvolvimento de história e personagens apaixonantes, talvez te devas ficar pelas temporadas anteriores.

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