Manuel Melo - Festa é Festa
Imagem: TVI/Divulgação

Manuel Melo: ‘Festa é Festa’ “vem revolucionar o humor que é aceite em Portugal”

Quinze anos depois do último papel em telenovelas, em Doce Fugitiva, Manuel Melo volta a dar vida a uma personagem na ficção da TVI. O ator interpreta Jorge Festas, “uma pessoa sem noção” que acaba por ser algo “inconveniente“, na mais recente aposta da estação de Queluz de Baixo, Festa é Festa. O Espalha-Factos esteve à conversa com o ator sobre este seu novo projeto.

Para Manuel Melo, “esta novela vem revolucionar o humor que é aceite em Portugal“, incutindo um humor nonsense (sem sentido, em tradução literal), próximo do humor britânico, normalmente rejeitado nas produções nacionais. Manuel Melo, que foi repórter do Somos Portugal a partir de 2012, frisa que nesta novela pretende-se que os atores façam “os textos pela graça dos próprios textos, e não pela graça que aquela personagem poderia ter“, sem entrar numa espécie de caricatura.

Manuel Melo tem em comum com a personagem que agora interpreta a paixão pela música. Já com vários singles lançados, o também cantor e produtor revelou-nos também que a música é parte sempre presente na sua vida. “A guitarra e as minhas composições existiram sempre e em todas as fases da minha vida acabaram sempre por ser extremamente importantes“.

Como é que foi recebido o convite para entrar numa novela, depois de vários anos fora da ficção?

Houve uma curiosidade engraçada nesse aspeto: eu estava a gravar para o Somos Portugal com o Camião do Ben num parque de estacionamento dos estúdios da Coral [produtora do formato], que anteriormente tinham sido da [produtora] NBP, onde eu tinha gravado a novela Saber Amar. Já não voltava àquele local há muitos anos, e foi precisamente aí que a Direção de Programas da TVI me ligou a dizer que havia um papel e que gostariam da minha participação neste novo projeto chamado Festa é Festa.

Era uma ambição voltar a fazer novelas?

Era um desejo, mas não era propriamente o objetivo final. Nos últimos anos, achava que já não seria bem esse o meu caminho. Estava no entretenimento há muitos anos – já há dez que estava no Somos Portugal – e, portanto, calculava que talvez não houvesse mais uma oportunidade. Portanto, não pensava nisso, mas era um desejo.

Ainda se recorda do primeiro projeto de ficção que fez?

Sim, o Saber Amar [novela emitida pela TVI em 2003]. Eu vinha da Academia de Estrelas [concurso de talentos emitido pela TVI em 2002], tinha sido finalista do programa e apareceu o casting para fazer um papel chamado de Girafa em Saber Amar – que, em alguns traços, toca muito com o Jorge do Festa é Festa: são personagens que conseguem ser inconvenientes e que não têm bem a noção, mas que são queridos e fofos noutros aspetos. Lembro-me muito bem, trabalhei com amigos que ficaram para a vida, com uma equipa também espetacular e foi muito marcante para o meu percurso. É um papel que ainda hoje acaba por ser referido quando as pessoas me encontram ou quando as pessoas me acarinham.

Manuel Melo
Manuel Melo interpretava ‘Girafa’ na novela Saber Amar. Imagem: Reprodução/TVI

Como é que foi incorporar esta nova personagem, Jorge Festas?

Foi desafiante, porque há umas características interessantes neste projeto. O trabalho de atores tem um objetivo muito marcado, que é fazermos todos este trabalho com seriedade e sem abonecar, sem fazer o chamado “boneco” em representação. Há uma concentração diária para que façamos os textos pela graça dos próprios textos e não pela graça que aquela personagem poderia ter. Isso é uma grande desafio para atores como eu, que estou habituado a fazer bonecos. Estava habituado a fazer bonecos há dez anos nas personagens que fazia no Somos Portugal e, portanto, é sempre muito automático, às vezes até sem reparar, resvalar para um boneco e não um ser humano. A intenção desta novela passa muito por representar estas pessoas como pessoas que existem mesmo na vida real. Esse tem sido o desafio diário, mas penso estarmos a conseguir isso, e penso que seja também parte da receita do sucesso que o projeto tem.

Antes de assumir este novo desafio, estava, há vários anos, no Somos Portugal, onde dava vida a algumas personagens cómicas. Esses apontamentos ajudaram, de alguma forma, na construção desta personagem?

Ajudam na elasticidade, embora os desafios sejam coisas diferentes. Aqui não se pede para exteriorizar muito, pede-se até alguma contenção. No Somos Portugal eram apontamentos pequenos de 30 segundos e, às vezes, não havia muita contenção. Havia também o objetivo de tentar humanizar as personagens que estava a fazer mas às vezes, em 30 segundos, é difícil dar características humanas a uma personagem.

Revê-se de alguma forma na personagem que agora interpreta?

Sim, embora me apeteça às vezes ter conversas sérias com o Jorge. Se ele fosse meu amigo, eu já tinha tido algumas conversas sérias com ele. Há algumas coisas com as quais não concordo na vida real, mas quando o estou a fazer, acredito piamente que ele é assim e que aquilo faz, de facto, muito sentido para ele. O Jorge consegue ser inconveniente – eu acho que já se percebeu isso – e, às vezes, criar alguns desconfortos que até são injustos para outras personagens. A forma como ele abraça a relação com a Nelinha é nitidamente de quem não tem noção de que tem ali uma excelente oportunidade e que, simplesmente, não abre os olhos. O mundo que ele desenha para ele acaba por ser um mundo que ainda não tem factos nenhuns concretos, está só mesmo na imaginação dele, o que o torna uma pessoa sem noção. Eu acho que todos temos sempre um amigo no grupo que parece o Jorge – eu revejo-me na capacidade de imaginação que ele tem.

Manuel Melo
O ator contracena com Inês Herédia, que dá vida a ‘Nelinha’. Imagem: TVI/Divulgação

O que é que Festa é Festa traz de diferente em relação ao que já fez?

Para ser muito sincero, eu acho que esta novela vem revolucionar o humor que é aceite em Portugal. Este humor que se faz nesta novela é um humor que eu me lembro perfeitamente de me pedirem para não fazer. É um tipo de humor de que eu gosto muito, é muito parecido com o humor inglês, o humor nonsense, e isso era sempre abafado neste meio em Portugal, não havia muito espaço para fazer coisas nonsense com medo que o público não percebesse ou não aceitasse. A partir daqui, eu acho que vai haver talvez novelas e programas de humor onde se aposte mais neste tipo de fazer humor – que, por acaso, é o que gosto mais.

Como é que está a sentir a receção por parte do público?

Daquilo que eu estou a notar – eu não moro propriamente em Lisboa, moro numa zona mais pacata -, está a ser incrível. Está a ser bastante bem aceite e em vários [escalões] demográficos, desde crianças até aos avós, toda a gente sabe que está a acontecer, toda a gente reconhece e toda a gente gosta muito e fala muito bem da novela. Principalmente, o argumento que se ouve mais é que estávamos a precisar disto, estávamos a precisar de sorrir, de nos divertir e o projeto tem sido, nesse aspeto, uma coisa excelente.

Esta personagem que agora interpreta tem algo em comum consigo: o gosto pela música. Essa paixão ainda continua presente?

Sempre. A guitarra e as minhas composições existiram sempre, e em todas as fases da minha vida acabaram sempre por ser extremamente importantes, independentemente de se há tempo para compor, se há tempo para produzir, ou se só há tempo para tocar guitarra e estar com os amigos descontraído. Seja em qualquer destas perspetivas, a música fará sempre parte da minha vida. Agora tem andado um bocado mais adormecida por causa da novela.

Gostava de produzir mais nessa área?

Gostava, é para isso que tenho trabalhado nestes últimos anos. Tenho as condições em casa. Quando não faço para mim, estou a produzir ou a ajudar em misturas ou edição de colegas meus, e vou fazendo as minhas pequenas participações em projetos de outros, mesmo que não esteja a utilizar para mim. Estes últimos 14 anos de conhecimento na produção e na edição têm-me ajudado também a conseguir que outros consigam ter o seu trabalho com níveis aceitáveis para lançarem músicas. Eu tenho gostado muito desse processo e, ao fim e ao cabo, dá uso a todo o investimento que tenho feito.

Festa é Festa é a grande aposta da TVI para tentar combater um horário liderado pela concorrência. Isso acarreta alguma pressão adicional?

Eu acho que a pressão existe sempre, essa é uma luta dos últimos dez anos. Eu lembro-me de que, quando comecei, as audiências não eram assim tão importantes. Eram importantes para os canais, mas não passava tanto cá para fora. Eu acho que, se nós tivéssemos sentido alguma dessa pressão, não nos divertíamos tanto, acho que essa pressão não passou para nós. Nós, atores, estamos a fazer aquilo de que mais gostamos, a divertirmo-nos imenso, e acho que isso passa lá para fora, e os resultados advêm disso – não são um resultado disso.