Tik Tok EUA
Hayoung Jeon/EPA

Do quarto à ribalta: as estrelas que nascem no TikTok

O universo de Hollywood é grande e vai continuar a crescer graças às redes sociais. Utilizadas diariamente por milhões de pessoas, estas vieram abrir um caminho sem muitos obstáculos até à fama. O TikTok é uma delas e é no quarto ou na sala, a dançar ou a cantar, que se fazem as novas estrelas do futuro. estrelas TikTok

Disponível em mais de 150 mercados e 75 idiomas, a aplicação conquistou a atenção de todos durante o ano de 2020. A quarentena, a que muitos países se viram sujeitos, fez com que muitas pessoas não tivessem muito para fazer e passassem a usar o TikTok. Nascida em 2016, a app permite criar vídeos verticais que ocupam o ecrã inteiro, vão aparecendo sucessivamente e podem ser de seis até três minutos. O tema? Qualquer um, desde que respeite as regras da plataforma e é isso que torna a aplicação no que ela é. Inês Pinto, de 21 anos,  usa a aplicação “para entretenimento, quando não há nada para fazer” e “porque tem vídeos engraçados, de animais e às vezes life hacks úteis”, afirma enquanto se ri. estrelas TikTok estrelas TikTok estrelas TikTok estrelas TikTok estrelas TikTok

Contudo, a magia do Tiktok não se fica só pelos seus vídeos. À medida que a aplicação é usada, esta vai-se adaptando aos conteúdos que o utilizador gosta de ver. O resultado final é ter uma For You Page com vídeos cujos temas são apreciados por quem os vê. Para Helena Costa, esta é uma das melhores características da aplicação: “eu gosto do TikTok, porque há medida que o utilizador começa a utilizar a app, o algoritmo adapta-se extraordinariamente aos seus gostos”, refere. “Rapidamente o meu feed tornou-se num espaço em que só me aparece conteúdo que realmente me interessa e cativa, algo em que as outras redes sociais falham completamente”, acrescenta.

Aplaudida pela sua interface que apela à interação, o TikTok tornou-se na app que todos querem usar para se divertir ou aprender. Catarina Matias diz que já aprendeu muito com certos conteúdos da aplicação: “gosto da quantidade de informação que a app tem. É um bocado sem limites, o que nem sempre é bom, mas é uma app muito diversa”. “Há vídeos de tudo, literalmente, é como se fosse uma lufada de ar fresco das outras apps”, afirma a jovem. Catarina vai mais longe e descreve a rede social como “um sítio onde é difícil sentires-te sozinho”. “Há sempre pessoas que gostam do mesmo que tu, a viver situações semelhantes à tua. É uma boa app para não te sentires sozinho”.

Do ecrã do telemóvel a Hollywood

São estas as características que tornam o TikTok num espaço amigável e de fácil interação. Atraindo milhões de seguidores por todo o mundo, a aplicação fez com que várias personalidades saltassem  do ecrã do telemóvel para Hollywood. Sem os obstáculos que outrora se encontrava, cantores, atores ou até comediantes, são vários os tiktokers que têm tido oportunidades de ouro graças aos vídeos que fazem na plataforma. Addison Rae, Dixie D’Amelio são algumas das estrelas da aplicação que conseguiram saltar do conforto das suas casas para as grandes passadeiras de Hollywood.

Natural do estado de Louisiana, nos Estados Unidos, Addison juntou-se à plataforma em 2019 e é atualmente a estrela que mais dinheiro lá faz. De acordo com um relatório da Forbes, Rae, com 20 anos, ganhou mais de quatro milhões de euros a publicar vídeos na plataforma. Com 80,6 milhões de seguidores, atualmente, a tiktoker é a segunda pessoa mais seguida na app, ficando apenas atrás de Charlie D’Amelio. Além do TikTok, Rae apostou noutras plataformas que a ajudaram a consolidar o seu título de grande celebridade. Tudo isto levou à construção de um pequeno império: um podcast exclusivo no Spotify, uma linha de beleza e uma carreira musical e outra no cinema. Em 2021, Addison lançou a primeira música Obsessed’ e vai participar no filme He’s All That, remake do filme de 1999, She’s All That.

Pelo mesmo caminho segue Dixie D’Amelio. A irmã mais nova de Charlie D’Amelio, a pessoa mais seguida do TikTok, conta com mais de 50 milhões de seguidores na plataforma e mais de sete milhões no Youtube. Apesar do TikTok ainda ser uma parte importante da vida de Dixie, a jovem tem apostado numa carreira musical. Até ao momento lançou cinco canções e colaborou com artistas como Wiz Khalifa, Blackbear e Liam Payne. O seu single mais recente, Fuckboy’, já tem mais de oito milhões de reproduções no Spotify.

Para além da música, em 2020, D’Amelio participou na série do Youtube Attaway General. Mas as conquistas da jovem não se ficam por aí. Dixie apresenta também um programa na mesma plataforma, o The Early Late Night Show, que já vai na segunda temporada. Tal como Addison, Dixie também já entrou no mundo dos podcasts, co-apresentando com a irmã o Charlie and Dixie: 2 Chix.

Graças ao grande número de seguidores, tanto Addison como Dixie são regularmente convidadas para fazer parte de campanhas de marcas conhecidas. Até ao momento, Rae tem no seu currículo trabalhos com empresas como Reebok, L’Oréal, Hollister e American Eagle. Já Dixie deu a cara por campanhas de marcas como Orosa Beauty, Morphe, Hollister e Abercrombie & Fitch Inc. Esta última colaboração acabou por se tornar numa marca própria, a Social Tourist, que Dixie mantém com a irmã, Charlie. As duas irmãs são das celebridades mais conhecidas atualmente e devido a isso vão ter um reality show na plataforma Hulu, ainda este ano.

Bella Poarch, graças ao sucesso da sua conta do TikTok, tornou-se também numa das novas cantoras revelação. Com mais de 70 milhões de seguidores, tornando-se na terceira pessoa mais seguida da aplicação, Bella já arrecadou vários troféus com o seu primeiro single. Build a Bitch’, lançado no dia 14 de maio, foi visto mais de 75 milhões de vezes só na primeira semana, chegando a ocupar o primeiro lugar na tabela global do Youtube. Além disso, a artista estreou-se no número 58 da maior tabela de música da América, Billboard Hot 100. 

Fora do mundo da música, tiktokers como Wisdom Kaye, conhecido pelo seu conteúdo de moda, Jalaiah S. Harmon, dançarina, têm também deixado a sua marca, mas a lista não se fica por aqui. Noah-Beck, LilHuddy (Chase Hudson), Baby Ariel (Ariel Martin) e Michael Le são alguns dos nomes que já podes ter ouvido e são os grandes favoritos da geração Z. Apesar de qualquer pessoa poder interagir na aplicação, são os jovens nascidos entre a segunda metade dos anos 1990 até o início do ano 2010, que mais utilizam o TikTok. Contudo, não é só nos Estados Unidos que existem grandes tiktokers. Em Portugal, há também uma lista com nomes que valem a pena mencionar e o Espalha-Factos foi falar com eles.

O TikTok em Portugal

Ricardo Lobarinhas está no TikTok desde janeiro de 2021, mas a sua viagem pelo mundo das redes sociais começou muito antes. O jovem de 18 anos admite nunca ter sido “uma pessoa de sair de casa” e por essa razão “passava grande parte do meu tempo em casa na internet, principalmente no Musical.ly”. Os vídeos do Youtube também fazem parte de sua história, mas foi graças ao conteúdo que publica no TikTok que se tornou conhecido dos mais jovens. “Sempre gostei de fazer os meus amigos rir com ‘piadas’ espontâneas, que saíssem assim no momento, sem forçar muito e com um humor um bocado peculiar”, afirma. “O TikTok é um lugar onde o humor e a comédia ocupam um grande espaço, vi que era o lugar perfeito para compartilhar aquilo que conto aos meus amigos na esperança que mais pessoas também achem engraçado”, acrescenta o estudante.

@lobarinhas.exeentão no verão o pijama é mm só tshirts velhas😭♬ sonido original – LOBARIÑAS

Atualmente com 46,9 mil seguidores, o objetivo é continuar a crescer e “continuar esta jornada de colocar a minha criatividade em prática sob a forma de vídeos, porque fazer isto realmente deixa-me muito feliz e se algum dia pudesse fazer disto o meu trabalho, ou quiçá, conjugá-lo com o meu trabalho de comunicador, seria gratificante”, refere Ricardo. Porém, estar presente no mundo digital nem sempre é fácil. Apesar de estar grato pelo carinho que recebe, o jovem ainda está a aprender a lidar com os comentários que recebe via online. “Não que eles sejam negativos, porque na sua maioria não são, mas tenho sempre algum receio de os ler e dá até um certo medo”. Ainda longe do mundo de Hollywood, Ricardo e outros tiktokers portugueses continuam a ter grandes oportunidades.

Francisco Afonso, de 19 anos, é um exemplo disso. Com um perfil que conta com 71,3 mil seguidores, Francisco recebeu no passado pedidos para trabalhar com algumas marcas. Agora a produzir, maioritariamente, conteúdo de maquilhagem, essas propostas não chegam tantas vezes, mas o crescimento continua. O interesse pela aplicação surgiu através da irmã e compilações no YouTube, mas não tardou até começar a fazer tiktoks. Para o jovem, escolher o TikTok como plataforma para partilhar o seu conteúdo não foi um processo difícil. A sensação de comunidade “à volta do conteúdo que tu consomes e do conteúdo que tu produzes e o facto de ser imprevisível” foram as razões que levaram Francisco Afonso a apostar na app.

Além disso, considera o TikTok um espaço seguro. A relação de Eduarda Ramos com esta rede social é semelhante. A jovem estudante também conheceu a aplicação através da irmã, durante a pandemia, e começou a produzir conteúdo. Francisco e Eduarda são dois dos maiores tiktokers portugueses de maquilhagem e todos os dias publicam conteúdo para animar os seus seguidores. Apesar de todos gostarem do resultado final dos seus looks, é o processo de criação que mais importa a ambos os criadores. Francisco gasta seis horas por dia para escolher o que desenhar, gravar, editar e tirar fotos.

@2f.abwith no time to do makeup because of college so here’s a draft (i’ll be back with new looks/body paintings next week maybe?) 🤍♬ ac. lustrvoid – Nagi brain rot

Pelo mesmo caminho vai Eduarda Ramos. A jovem afirma que os vídeos “demoram entre 30 minutos a 1 hora a serem preparados”. “Maquilhagens demoram mínimo 1h e meia, depois consoante a complexidade pode demorar 3,5, 10 horas ou mais que um dia”. Embora encarando o TikTok como um hobbie, ambos os criadores têm esperança de poder continuar a criar. Francisco afirma que gosta de poder criar este tipo de conteúdo, pois é “uma pessoa muito multifacetada” e gosta de ser criativo. O facto de querer estudar ciências, “algo que não tem muito a ver com isto”, é outras das razões que o leva a ter uma grande paixão pelo que faz no TikTok. Do outro lado, Eduarda refere que apesar de não se importar de conseguir alguma oportunidade através do TikTok, se ela não surgir “não fico desanimada por isso”.

André Seravat, cantor, de 23 anos, partilha muito do que Ricardo, Francisco e Eduarda sentiram.  Com os palcos vazios durante grande parte de 2020 e o que já passou de 2021, o jovem cantor apostou no digital. “Comecei a fazê-lo de uma forma digital, através do TikTok, porque não havia palcos, estava tudo fechado, não havia trabalho na minha área, quase nenhum, por isso acabei por começar a entreter as pessoas de uma outra forma que também é bastante interessantes”. Quando começou a produzir conteúdo nunca pensou que alguém o fosse ver, “mas ainda bem que aconteceu o contrário”, afirma. Os vídeos de André são maioritariamente sobre e com música. “Eu partilho, maioritariamente, curiosidades que, provavelmente, muita gente não sabia sobre música e/ou artistas, partilhas de demos de músicas, faço adaptações de músicas para português, faço covers”, acrescenta.

A razão para a música estar tão enraizada neste seu projeto é pelo facto de a mesma estar em tudo que faz: “está em quem eu sou, está na minha essência, por isso só faria sentido que assim o fosse, por isso é sempre à base de música”. Com mais de 13 mil seguidores na plataforma, o sentimento de pertença é o que faz com que André tenha preferência pela plataforma. “Eu sinto que no TikTok consigo alcançar uma audiência. Sinto que estou conectado com as pessoas, com os meus seguidores, de uma forma que simplesmente não me consigo sentir noutras redes sociais. Comecei a crescer lá, e os seguidores foram tantos e o carinho foi tanto quase como se eu estivesse a ser abraçado por todos. É muito bom”, afirma.

A verdade é que, mesmo numa escala diferente, o fenómeno TikTok atingiu quase todos os países e desde então tem-se revelado numa máquina de fazer estrelas.