Quem Quer Namorar com o Agricultor? SIC
Fotografia: Divulgação

Opinião. Porque queremos namorar com agricultores?

A quarta temporada de Quem Quer Namorar com o Agricultor? estreou há duas semanas e eu, que não sou apreciadora de reality-shows, acompanhei os episódios. Porquê? É uma pergunta legítima.

Quando a SIC anunciava a estreia da mais recente edição, eu tinha sempre uma pergunta na minha cabeça: O que é que faz as pessoas gostarem tanto de ver este tipo de programas? A resposta mais óbvia é que tem piada. Não há medo em dizê-lo. Depois de um dia de trabalho ou de estudo intenso, talvez o melhor remédio para descontrair seja ver um conjunto de agricultores à procura do amor, das formas mais caricatas possíveis, enquanto nos enroscamos no sofá com uma mantinha.

Embora a vergonha alheia não resulte em gargalhadas para toda a gente (como podes ouvir no episódio do Fita Isoladora), ouvir tiradas estranhas como “Achas-me sexy?” ou “Procuro alguém que ande comigo pelo deserto no Dubai e enfrente o frio de Moscovo” são coisas que nos fazem rir, especialmente num período de mais ansiedade pandémica em que, penso, todos precisamos de um bocadinho de riso gratuito.

Agricultores: Inovação ou mais do mesmo?

Conheça os seis agricultores de 'Quem Quer Namorar com o Agricultor?'
Agricultores de ‘Quem Quer Namorar com o Agricultor?’ / HiperFM

Mas, afinal, o que é que há de diferente entre a quarta edição do Quem Quer Namorar com o Agricultor? e as anteriores? Em si mesma, nada. O que realmente distingue esta edição é o facto de estar a ser feita em tempos de pandemia. Claro que a terceira edição também foi feita durante pandemia, mas esta, tendo começado já depois de mais de um ano de Covid-19 em Portugal, foi feita de um modo muito mais organizado. Era já repetitivo a quantidade de vezes que Andreia Rodrigues referiu que todos os participantes foram testados previamente. A terceira edição foi muito mais limitada pela inexperiência natural daquela altura na realização de programas durante uma pandemia, com programas mais repetitivos e, por isso, redundantes.

Agora, praticamente acabados de sair de um segundo confinamento, surge-nos uma edição nova, mas não inovadora, que conseguiu apelar pelo desejo de escapismo. As paisagens edílicas de um Portugal rural, os animais calmamente pastando no campo, tudo isso é a receita perfeita para abstrair o público saturado, tanto do seu modo de vida urbano, rápido e desgastante, como de uma pandemia que deixou a nu uma necessidade de fugir, de nos isolarmos num local livre de um vírus altamente contagioso.

Cottagecore: Escapismo a partir dos ecrãs

Esta necessidade de isolamento do mundo, de fugir às exigências do trabalho cada vez mais intenso e desgastante e de recarregar energias não é novo. Doenças como depressão, ansiedade e burnout parecem ser cada vez mais generalizados e afetar pessoas mais jovens. E são essas pessoas – maioritariamente Millenials e Geração Z – que se viram para o Instagram, Tumblr e, mais recentemente, TikTok. Assim, estão reunidas as condições ideais para, em meados da última década, ter nascido o fenómeno do cottagecore.

Cottagecore é um movimento estético de idealização da vida do campo, de retorno às raízes e de fuga às responsabilidades e exigências do mundo económico-capitalista. Símbolos do cottagecore são, muitas vezes, campos verdejantes, por onde mulheres vagueiam com vestidos longos e florais, normalmente com um livro numa mão e flores na outra, depois de terem passado a manhã a cozinhar pão.

A Architectural Digest explica ainda que o cottagecoreé, em parte, uma reação contra o capitalismo e ao tempo cada vez maior passado em frente a ecrãs, enquanto também está relacionado com interesses relativos ao bem-estar e à sustentabilidade e a uma maior ideia de consciência social“.

Escapismo ou tendência moderna?

No entanto, há aqui vários pontos contraditórios. Por um lado, se as pessoas cada vez mais procuram self care no meio do campo e desconectados da Internet, não faz sentido que este movimento prolifere, justamente, nas redes sociais. Da mesma forma que o público de Quem Quer Namorar com o Agricultor? se abstrai estando em frente a um ecrã de televisão a ver uma estreia de quase três horas, em que mulheres e homens procuram o amor longe da vida urbana, enquanto são permanentemente vigiados.

Portanto, esta mistura entre drama de reality-show e comédia de da-cidade-para-o-campo tem pouco de “consciência social“. Basta apenas cinco minutos de programa para vermos algum comentário mais sexista misturado de humor, como a objetificação que a agricultora Ana fez aos seus pretendentes na estreia.

Embora o movimento do cottagecore esteja associado a uma espécie de vida harmoniosa com a natureza, a verdade é que os valores no seu cerne são bastante superficiais no aspeto da sustentabilidade. Ser sustentável não tem de se resumir a viver numa casinha no meio da pradaria. O problema é real, afeta-nos a todos e não se resolve com posts bonitos no Instagram.

O objetivo do cottagecore, tal como do Quem Quer Namorar com o Agricultor?, é entreter. Ambos podem ser superficiais nos valores que transmitem, mas a verdade é que, em tempos que obrigam a confinar, muitos voltaram-se para casas com mais espaço no campo, onde o teletrabalho também é possível. Numa época em que não só o tempo está mais acelerado que nunca, como o espaço a que nos confinámos nos parece sufocante, ver um conjunto de pessoas a correr para tentar agarrar um bezerro fugido não nos parece assim tão má ideia.

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