Måneskin
Fotografia: Gabriele Giussani

Quem são os Måneskin, a banda que venceu a Eurovisão e está a encantar a Europa?

“We just want to say to the whole Europe, to the whole world: rock’n’roll never dies!” Foram estas as primeiras palavras proferidas por Damiano David, carismático vocalista dos Måneskin, depois do grupo – constituído também por Victoria de Angelis (baixo), Thomas Raggi (guitarra) e Ethan Torchio (bateria) – ter vencido, no passado sábado (22), a 65.ª edição do Festival Eurovisão da Canção, em Roterdão, com a sua música Zitti e Buoni.

Para alguns, esta frase pode ser vista como um cliché, surgindo do estado debilitado em que o rock para as massas se encontra atualmente, perdido numa busca pela nostalgia dos seus tempos de glória. Para outros, esta declaração e a vitória que a acompanha é vista como uma oportunidade, uma demonstração de que o rock continua a ter espaço e capacidade para captar a atenção do público quando assim o precisa. A realidade, muito provavelmente, está num meio-termo, algures entre ambas estas idealizações.

Não serão os Måneskin a salvar o rock (se é que precisa de ser salvo), mas a vitória de um grupo de jovens “rockeiros” italianos, a cantar na sua língua nativa, relembra-nos que o género continua a ter capacidade para encantar público de todas as faixas etárias, e também que a música pode ser uma língua universal – não fossem os cinco primeiro lugares do concurso deste ano cantados em quatro línguas diferentes. O rock não costuma ser um género muito “eurovisivo”, mas os Måneskin desafiaram as probabilidades ao surgirem como os grandes favoritos na edição deste ano do concurso.

Sem desapontaram as casas de apostas, os Måneskin venceram e, com esta vitória, tornaram-se uma sensação a nível mundial. No rescaldo da Eurovisão, ‘Zitti e Buoni‘ surfou na crista da onda das redes sociais e tornou-se a música italiana com mais streams de sempre ao longo de 24 horas, entrando em vários tops um pouco por todo o mundo. A energia e aparência da banda, a quebrar estereótipos e convenções, captou a atenção de muitos novos fãs. Para dar a conhecer um pouco mais destes jovens que estão a encantar a Europa, o Espalha-Factos apresenta-te o percurso que o gupo fez até agora e o que é que o futuro lhes poderá reservar.

O início nas ruas de Roma

Os Måneskin nasceram como um grupo criado por Victoria de Angelis e Thomas Raggi em 2016 (ou 2015, de acordo com algumas fontes), enquanto estudantes de liceu em Monteverde, Roma. O grupo tentou encontrar um vocalista que estivesse de acordo com as suas expectativas, acabando por encontrá-lo em Damiano David, que já tinha feito parte de uma banda com Victoria anteriormente.

Måneskin
Fotografia: Gabriele Giussani

Inicialmente, o grupo descartou Damiano como vocalista por o considerarem “demasiado pop” para o que procuravam. Algum tempo depois, ele acabou por convencer Victoria e Thomas de que havia mudado e que queria levar as coisas a sério, substituindo a vocalista que acompanhava o grupo na altura. “Eu era uma pessoa diferente nessa altura, mas eventualmente percebi que tinha de ir em direção à liberdade. Aprendi a ser quem queria ser sem me esconder daqueles que não queriam aceitar mais diversidade“, contou o vocalista da banda à Vogue Italia após a vitória na Eurovisão.

Para completar o grupo, era ainda necessário encontrar um baterista. Com a ajuda de um grupo no Facebook, entraram em contacto com Ethan Torchio, que se acabaria por juntar à banda, nascendo assim os Måneskin. Bem, não exatamente… O grupo só ganharia o seu nome atual quando precisaram de um para se inscrevem num concurso de música local para bandas emergentes. O nome Måneskin é a palavra dinamarquesa para luar, e surge devido à ascendência dinamarquesa da baixista. “Eles pediram-me para dizer palavras aleatórias em dinamarquês e depois escolhemos uma“, contou Victoria a Nikkie de Jagger, uma das apresentadoras do festival deste ano.

A passagem pelo X Factor e o primeiro EP

Por mera coincidência, ou talvez por obra do destino, foi numa viagem à Dinamarca que os Måneskin fortaleceram laços e começaram a estabelecer a sua sonoridade inicial. Em Itália, o grupo tocava nas ruas e em clubes de Roma para ganhar nome e, em 2017, conseguiriam o seu bilhete para o estrelato no seu país natal ao participar na 11.ª edição da versão italiana do concurso de talentos X Factor (em Portugal, conhecido por Fator X). Com Mauro Agnelli (vocalista do grupo Afterhours) como mentor, o grupo terminou o concurso em segundo lugar, perdendo apenas para Lorenzo Licitra.

No entanto, e apesar da derrota, os Måneskin já haviam feito o suficiente durante o concurso para captar a atenção do público com o talento e carisma que demonstravam em palco, para além do seu estilo. “Somos músicos, e a coisa mais importante é que as pessoas reparem em nós. Temos de cuidar do nosso look porque as pessoas julgam-nos por aquilo que veem e não procuram conhecer mais” explicou Victoria, em 2017, à Rockol. E os Måneskin não precisaram de muito tempo para captar a atenção do público italiano.

Entre covers de músicas como ‘Take Me Out‘ dos Franz Ferdinand, ‘Somebody Told Me‘ dos The Killers, ‘Kiss This‘ dos The Struts (com uma performance em que Damiano demonstra o quão à vontade está em cima de um palco) ou a famosa ‘Beggin‘, houve uma faixa que acabou por se destacar: ‘Chosen, uma composição original interpretada pela primeira vez nas audições para o concurso e, outra vez, durante a competição (incluindo na grande final), e que daria origem ao primeiro single da banda. A canção atingiu o número dois na tabela de singles italiana e deu origem ao primeiro EP da banda, que partilha o nome com a faixa, lançado no final de 2017.

Chosen é um trabalho maioritariamente constituído por músicas que a banda havia interpretado durante a sua passagem pelo X Factor, aproveitando o reconhecimento ganho no concurso. É um curta-duração onde se nota a inexperiência do grupo, ainda a apalpar terreno e a descobrirem o que queriam ser. Uma declaração de Damiano à Rockol depois do lançamento do EP permite retirar ilações: “Eu tenho uma voz emotiva, o Thomas tem uma guitarra para o rock, o Ethan toca como um homem do jazz e a Victoria bate no seu baixo como se fosse do disco. Isto são tudo influências para nós”.

O estilo das duas composições originais – ‘Chosen‘ e Recovery, a única nova dentro do EP – leva a banda para um caminho que abraçava o funk rock, com a influência dos Red Hot Chilli Peppers a fazer-se notar principalmente. As composições de Chosen acabam por ser maioritariamente simples, e o grande trunfo vem mesmo dos ritmos criados por Victoria (as suas linhas de baixo são mesmo o ponto alto de Chosen) e Ethan, e do carisma de Damiano enquanto vocalista, que se sente à distância. O EP de estreia do grupo chegou ao número 3 dos tops italianos e em março de 2018 foi certificado com platina em Itália por ter vendido mais de 50 000 unidades.

O ligeiro amadurecer no primeiro longa-duração, Il ballo della vita

Ao mesmo tempo que Chosen atingia o estatuto de platina, os Måneskin começavam a trilhar o caminho para o que viria a ser o primeiro longa-duração. Em março de 2018, lançaram o seu primeiro single em italiano, intitulado de Morirò da re. Curiosamente, de todo aquele que viria a ser o seu primeiro disco, intitulado de Il ballo della vita (a mesma frase que se encontra tatuada no peito de Damiano), esta é talvez a música que mais se aproxima da sonoridade do EP que lhe precede, apesar de mais polida e, tal como o todo o restante disco, vestida com uma produção que dá muito mais vida às faixas compostas pela banda.

De acordo com o grupo, Il ballo della vita é, de certa forma, um trabalho que representa as personalidades e valores dos seus quatro membros, representados pelas influências que surgem ao longo dele, desde o rock mais tradicional até ao hip-hop (sim, há até uma faixa de rap rock intitulada de ‘Immortale‘) e R&B, passando pelo funk e pela pop. O que Il ballo della vita soa, na sua essência, é a uma banda num processo de descobrimento e exploração da sua sonoridade.

Há bons momentos, como a muito acarinhada balada (e também single do disco, tendo chegado a número um do top italiano) Torna a casa, em que a banda revela-se capaz de escrever, pela primeira vez, música com mais enfâse na transmissão de emoção – e fá-lo de forma bem capaz, fazendo lembrar os Kaleo nesse aspeto -, ou L’altra dimensione, onde a banda explora ritmos latinos para criar uma das faixas mais interessantes deste trabalho. Também há momentos de rock (mais puro, mas com uma boa dose de pop à mistura) minimamente bem conseguidos, como a faixa que abre o disco (‘New Song‘) ou ‘Close to the Top‘, uma música que revela o lado do grupo mais influenciado por garage rock.

Se compararmos ao EP que lhe precede, a maior mudança no primeiro longa-duração dos Måneskin é mesmo na forma como a guitarra é tratada neste trabalho. Thomas Raggi explora uma palete maior de efeitos e estilos (e, em termos de riffs, este disco é mais inventivo face ao EP), que serve como alavanca para o grupo explorar várias sonoridades – com diferentes graus de sucesso. No entanto, o sucesso com o público continuou a ser regra para a banda, que viu Il ballo della vita atingir o topo de vendas em Itália, sendo certificado três vezes com platina pelas suas vendas no país. A acompanhar a promoção do álbum, a banda teve ainda direito a um documentário, This is Måneskin, e a uma digressão europeia com datas esgotadas em vários países.

O salto para o rock em Teatro d’Ira – Vol. I

Após o término do ciclo de Il ballo della vita, os Måneskin trocaram o seu país natal pelos ares frios de Londres de forma a prosseguir o seu desenvolvimento enquanto grupo. O resultado dessa viagem seria o seu segundo longa-duração lançado em março deste ano, Teatro d’Ira – Vol. IO segundo, e mais recente, disco do grupo foi vastamente influenciado pelas suas experiências na cidade britânica.

[Em Londres] vimos três concertos por dia. Ficámos mais consciente da nossa sonoridade e tivemos a ideia de fazer os três instrumentos [baixo, guitarra e bateria] soar o mais cru possível, em formato de power trio. Agarrámos no que fazíamos em palco e tentámos replicar em estúdio“, explicou a banda. O disco foi precedido pelo lançamento do single Vent’anni, lançado em outubro de 2020, que revelava uns Måneskin mais crus do que nunca – como pretendido -, com a influência de bandas como Led Zepellin ou Def Leppard a sobressaírem nesta power ballad.

São precisamente as influências do hard e glam rock dos anos 70 que mais sobressaem neste trabalho, ajudando a que a banda consiga atingir o seu objetivo. As guitarras passam a ser a principal figura de destaque nas composições, com Thomas a ter espaço para explorar ainda mais as suas habilidades com o instrumento, com destaque especial para os seus solos, que ganham novo fulgor neste trabalho, dando um brilho extra às faixas. A secção rítmica do grupo também sofre uma ligeira reformulação neste trabalho. As linhas de baixo de Victoria soam mais profundas e pesadas, definindo muito bem o low end das composições e criando espaço suficiente na mistura para as guitarras de Thomas e para a bateria pujante de Ethan.

Ritmos aqui não faltam, especialmente nas faixas mais energéticas como Zitti e Buoni, I Wanna Be Your Slave (esta influenciada pelo garage rock dos Royal Blood) ou For Your Love – esta última lembrando um pouco algumas faixas dos Ghost, com a sua melodia pop bem presente e a performance exagerada de Damiano que assenta muito bem ao estilo desta faixa. Falando em pop, este trabalho mais recente do grupo é aquele onde a sensibilidade pop do grupo menos surge, mas onde é melhor trabalhada. Não é servida no prato principal das faixas, mas sim como acompanhamento às suas composições.

De certa forma, a sonoridade deste disco é o espelhar da liberdade da banda, tanto em termos criativos como em termos da liberdade que possuem, longe da opressão que alguns tentam impor a outros. O grupo explica: “A nossa agressividade é direcionada à opressão e a quem oprime, levando a uma revolta contra tudo o que te faz sentir mal e que tem, como resultado, um renascimento e mudança. E quisemos colocar essa força poderosa dentro de um contexto específico – neste caso, o do teatro – que, no imaginário comum, é percebido como elegante e calmo.

No entanto, e se este disco é um salto de maturidade e qualidade face ao trabalho anterior, em alguns momentos ainda é percetível que estamos a falar de uma banda extremamente jovem, que ainda está a criar e a descobrir o seu caminho, o que é normal. O caso mais óbvio disto é a entrega de Damiano enquanto vocalista, que desbloqueia em Teatro d’Ira – Vol. I o seu potencial enquanto cantor rock, apesar de ainda precisar de refinar as suas capacidades enquanto liricista. O seu timbre funciona muito bem neste tipo de registo, mesmo que às vezes sintamos que está a levar as coisas um bocadinho além do que devia em termos de entrega e dicção – em particular, nas faixas cantadas em inglês e no rap rock de ‘Lividi Sui Gomiti‘.

O salto para o estrelato na Eurovisão e o próximo capítulo da banda

No mesmo mês em que lançam Teatro d’Ira – Vol. I, a banda concorreu ao Festival de San Remo com a faixa que abre o disco, ‘Zitti e Buoni‘. Entre 25 intérpretes, o grupo chegou à final e, depois de ter visto o voto dos júri dividido entre os três finalistas, arrebatou mais de 50% do voto do público, vencendo assim o concurso e ganhando a chance de representar Itália no Festival Eurovisão da Canção.

E como se costuma dizer, o resto é história. Damiano, Victoria, Thomas e Ethan partiram para Roterdão à conquista da Europa. Com a ajuda do staging, criado pelo estúdio Giò Forma, de uma performance eletrizante, encabeçada pelo carisma e entrega de Damiano, da estética que misturava glam com looks andróginos, a fazer lembrar Brian Molko dos Placebo, e da química entre os membros do grupo, os Måneskin conquistaram o público eurovisivo, tendo sido os mais votados da noite pelo público, e júris suficientes pela Europa para regressar de troféu na mão – mesmo que alguns tenham tentado evitar que tal acontecesse. Foi a primeira vitória para Itália no concurso desde 1990, e a terceira na história da Eurovisão.

O que se passou nos dias seguintes à final do concurso, no entanto, é que poderá ditar os próximos passos para o grupo. A banda viu o seu número de seguidores no Instagram quase triplicar desde o dia da final até agora, e Teatro d’Ira – Vol. I atingiu o estatuto de platina em Itália – a terceira vez que um projeto do grupo chegava a tal feito. “Ainda não acreditamos naquilo que está a acontecer, estes últimos dias estão a ser incríveis, e isto é só o início”, escreveu a banda nas redes sociais, agradecendo também o apoio e carinho de todos os fãs – antigos e novos.

E alguns desses novos fãs incluem alguns dos ídolos da banda, com Alex Kapranos, vocalista e guitarrista dos Franz Ferdinand, e Ben Thatcher, baterista dos Royal Blood, que utilizaram as redes sociais para elogiar o grupo italiano. “Ficámos maravilhados porque os Royal Blood e os Franz Ferdinand deram-nos os parabéns. Não conseguíamos acreditar. Ficámos muitos felizes“, contou De Angelis em entrevista à NME.

No futuro próximo, o objetivo da banda é capitalizar e manter a atenção que receberam com a vitória no concurso da Eurovisão. “Queremos fazer o nosso melhor para manter a atenção que recebemos, escrevendo nova música e ir dar concertos um pouco por toda a Europa e além. Estamos a trabalhar duro e só queremos ir tocar em todo o lado. Estamos a tentar descobrir como gerir tudo isto“, contou também Victoria à NME. Por agora, os Måneskin estão exatamente a fazer isso, com concertos já anunciados em Itália e no festival Rock am Ring, na Alemanha, para 2022 – se a pandemia da Covid-19 permitir que isso tudo aconteça. Em Portugal, pelo menos por agora, não há data marcada para uma visita do grupo italiano. A banda deverá lançar o seu próximo disco – o segundo volume de Teatro d’Ira – no final deste ano.

Måneskin
Fotografia: EBU / ANDRES PUTTING

Por agora, estas são as páginas escritas no livro da história dos Måneskin. Numa era onde os fenómenos podem surgir e desaparecer de um dia para o outro, o grupo italiano tem sabido gerir os holofotes que estão sobre si, capitalizando a atenção que recebem do público. Encantá-lo eles já o sabem fazer muito bem, estando completamente à vontade em cima de um palco. Se a banda conseguir manter o impulso que ganharam com a vitória na Eurovisão, os Måneskin poderão manter-se como um nome que se vai ouvir nos próximos anos no antro do rock – e a frase proferida por Damiano David poderá ganhar outros contornos daqui a alguns anos. Só o tempo o dirá – mas talento, compromisso e carisma não faltam aos Måneskin para vingar no mundo da música internacional.

 

 

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