Miguel Chambel, CEO da Cinemundo
Fotografia: Divulgação / Cinemundo

Cinemundo: “A exibição de cinema teve de hibernar para guardar reservas e agora retomar”

Miguel Chambel, CEO do Cinemundo, fala sobre a ambição de liderar o mercado de distribuição em exclusivo ao Espalha-Factos

A Cinemundo quer disputar a liderança da distribuição em Portugal à NOS mas, mais que discutir fatias do bolo, quer que o bolo volte a crescer. As palavras são de Miguel Chambel, CEO da empresa portuguesa, que falou ao Espalha-Factos sobre a responsabilidade que é juntar a Warner Bros. aos catálogos que a empresa já distribuía em Portugal numa fase tão desafiante do mercado de exibição em sala.

Faltam 32 semanas para terminar 2021 e, empenhada na recuperação das salas nacionais, a Cinemundo tenta dar motivos aos portugueses para não perderem nenhuma delas para ver bons filmes. Porque, de acordo com o responsável da empresa, a humanidade da experiência de ver cinema em sala, em conjunto com família ou amigos, é insuperável.

O que significa anunciar este acordo com a Warner numa altura em que estamos a regressar às salas de cinema?

Para a Cinemundo ter o catálogo da Warner é, naturalmente, um motivo de orgulho profissional, e quisemos aproveitar e juntar esse facto a este momento, em que acreditamos que efetivamente começa a haver condições para uma retoma mais sólida.

Ao longo de toda esta crise pandémica, a indústria sofreu transformações muito importantes, dentro dessas transformações é sabido e reconhecido internacionalmente que, nos países que tiveram lockdowns, a componente da exibição foi a componente que sofreu mais. Os distribuidores acabam por conseguir ter modelos alternativos de operar, mas um exibidor tem um modelo muito estrito. Quando falamos em exibição, as pessoas dizem-nos sempre “ah, mas porque é que não fazem drive-ins e não sei quê?“. Esses são modelos que não existem economicamente e que não são especialmente viáveis, portanto há ali uma posição de fragilidade do negócio de cinema que necessita de um tráfego mínimo, como os restaurantes ou as discotecas, porque senão os economics não funcionam. Há ali uma base grande de custos fixos, há uma componente grande de custos variáveis no que tem a ver com os direitos dos filmes, e portanto se não há um fluxo com um mínimo de constância é muito difícil para a exibição. E, portanto, nesse sentido, nós achamos que até aqui, o máximo que a exibição pôde fazer foi um bocadinho resguardar-se e preservar-se, guardar reservas, hibernar, usando uma linguagem mais natural, para preservar o máximo possível de energias durante este longo inverno que teve. Para agora poder retomar.

São precisas as pessoas e os filmes, e acreditamos que é agora”

Nós quisemos marcar, com este evento, que está na altura de sairmos, de voltarmos a investir, e acreditamos que agora há produto suficiente para redinamizar e recolocar o mercado. Acreditamos, de tudo o que temos visto, quer internacionalmente, dos resultados que vão havendo dos países que vão abrindo, quer do que vamos auscultando no mercado em Portugal, há uma vontade muito grande de as pessoas regressarem ao hábito de ir ao cinema. É preciso agora aquele clique. São precisas as pessoas e os filmes, e acreditamos que é agora.

Os filmes que nós temos agora… esta semana lançámos o Ninguém, que é um filme simpático, um filme mais popular, mas ainda tem muito aquele ónus de “isto saiu há quatro ou cinco meses nos Estados Unidos, já está muito na internet“. Ainda estamos aqui, até metade de junho, num intermédio. Saíram os filmes dos Óscares, que estavam mais ou menos preservados, mas os restantes filmes que estão a sair é produto que ainda não é bem primeira janela, que foi algo que eu tentei reforçar a importância.

Ninguém
‘Ninguém’ foi um dos primeiros filmes que a Cinemundo trouxe em junho. (Fotografia: Divulgação)

A Warner, através da HBO Max, é um dos players de mercado que menos tem valorizado a janela exclusiva, com várias estreias diretas para streaming. E a HBO Max chega a Portugal também este ano. Tem a confiança de que a Cinemundo vai conseguir manter esta janela exclusiva do lançamento em sala?

Eu discordo do Pedro. Há aqui duas questões. Temos por um lado a Warner, o grupo, e por outro os vários braços de negócio da Warner, onde existe, à data de hoje, nos Estados Unidos, a HBO Max, que sempre foi uma componente muito grande do negócio deles nos Estados Unidos. A Warner era claramente líder no premium TV americano através da HBO, mas depois há uma realidade diferente, da Warner Studios.

Nós trabalhamos com os estúdios, conhecemos o entendimento dos estúdios, os próprios estúdios têm uma organização grande e complexa, e a Warner foi a semana passada adquirida pela Discovery, e portanto toda esta questão é dinâmica. O nosso próprio interface, que é a equipa de cinema theatrical, no sentido de cinema em sala, com que nós lidamos, não toma as decisões sozinha na Warner.

A Disney definiu uma estratégia em que quer ir direta ao consumidor”

No meu entendimento do posicionamento dos vários estúdios face à preponderância nas suas janelas das diferentes formas de distribuição, eu coloco claramente a Disney numa linha à parte. A Disney definiu uma estratégia, eu diria que há 14, 15 anos atrás, quando começaram a comprar a Lucasfilm, já antes disso a Pixar, depois a Marvel, de ter um conjunto de propriedades que explora transversalmente em todas as janelas e que tem uma escala tal, particularmente a partir do momento em que tem também a Fox, em que quer ir direta ao consumidor.

A Disney tirar da cadeia de valor um conjunto de componentes que têm um valor específico para certos acessos, no caso específico da exibição, um negócio muito local, que precisa de uma incorporação local relevante, e acreditamos que, vivendo com a janela de cinema, até porque esta dá um estatuto diferente a algumas obras, tem implícita uma estratégia de conseguir monetizar as suas propriedades diretamente ao consumidor e é relativamente irreversível esta situação de “um filme sai no cinema, sai na Disney+“.

Mas os preços ainda vão ter de ser um bocadinho trabalhados em diferentes mercados. Acho que o impacto em Portugal, com este nível de preço, é muito baixo, vamos ter de ver como é que eles depois equilibram os diferentes mercados, os vários ponderadores.

A Warner, ao longo de todo o período da pandemia, foi a empresa que mais tentou ajudar. E nós não éramos o distribuidor, por isso tenho alguma independência nessa matéria. Foi [a Warner] quem mais tentou ajudar a exibição. Foi a Warner que arriscou primeiro o Tenet, em setembro, para a retoma. Mais ninguém pôs nenhum blockbuster e a Warner pôs o Tenet só em cinema e deu uma janela exclusiva em cinema. E é a Warner que põe a Wonder Woman em cinema no Natal. Sem a janela exclusiva nos Estados Unidos, mas com a janela exclusiva em todo o mundo. E a Warner o que anuncia é: como os cinemas estão fechados, como, mesmo a um nível ético, não estamos à vontade de colocar em cinema…

Lançar o ‘Fátima’ em outubro “era uma irresponsabilidade”

Uma questão que se colocou connosco no ano passado. Nós temos o filme Fátima, que é um filme que eu considero bastante relevante para o nosso mercado, disponível. Era para maio do ano passado, e na altura não se pôde lançar, mas que em outubro se poderia ter lançado, mas nós sentimos que era uma irresponsabilidade, um filme com públicos-alvo de faixas etárias mais elevadas, mesmo naquele período bom que tivemos do verão, que tínhamos cento e poucos casos, lançar o filme só em cinema, e portanto, forçar alguém que quisesse muito ver, a ir-se expor a uma sala de cinema.

A lógica que eu interpreto, quer da política pública da Warner, quer do que temos falado da Warner, nesta situação de transição o que a Warner definiu foi: 2021 vamos lançar em cinema e vamos dar a opção às pessoas de ter no HBO Max e até é uma forma de posicionar o HBO Max como um upgrade.

O HBO Max ainda não tem definida a data que sai em Portugal, saiu uma referência do segundo semestre, dentro do segundo semestre há aqui uma latitude grande. Eles a seu tempo comunicarão qual é esse momento, mas temos até ao momento a total solidariedade da equipa de theatrical da Warner.

É uma solidariedade com aquilo que é a nossa ideia de que, a longo prazo, a janela de cinema é uma janela muito importante na sustentabilidade económica da indústria, não só pelos valores, como pelo facto de cinema e streaming não serem substitutos. São complementos, são realidades em que, podendo ser o mesmo produto, são consumos diferentes. E, mais uma vez, não nos esqueçamos, eles mudaram de ownership há uma semana. Porque aquilo é uma fusão, mas o CEO ficou o da Discovery, para mim significa que a Discovery comprou a Warner à AT&T.

Miguel Chambel, CEO da Cinemundo
Miguel Chambel, CEO da Cinemundo, na apresentação à imprensa dos novos filmes da distribuidora.

Neste respeito, eu queria perguntar-lhe também qual é a visão da Cinemundo sobre as limitações que ainda existem neste momento para a exibição em sala, nomeadamente o facto de as sessões terem de terminar até às 22h30 e não poder haver consumo de alimentação nas salas, o que também condiciona um bocadinho o acesso…

Nós temos alguma dificuldade em poder avaliar as medidas que quem tem a responsabilidade de determinar determina. O que sinto é confiança que a progressão que temos tido, ou a progressão que observamos em países que estão com a vacinação mais avançada, ou com um processo de abertura mais permissivo, no que tem a ver com a prática das salas de cinema, acalenta-nos muita esperança de que isto são restrições que perdurarão a muito curto prazo. E é parte do tal momento de viragem que dizemos e acreditamos.

Não temos nenhuma indicação específica sobre isso, mas acreditamos que durante o mês de junho, o tema dos horários dos centros comerciais, que depois condicionam muito os horários dos cinemas, será resolvido. Penso que a questão das pipocas, por assim dizer, e essa já me parece que está na borda do lapso anterior, também será resolvida.

Não me parece normal que se possa ir a um restaurante, a um café, e dentro do cinema não se possa comer. Eu posso comprar pipocas num café, e levar para dentro do café, e na bilheteira não posso? Não há uma demonstrável higienização pior dos cinemas. É fundamental, na economia da exibição, e esta é uma economia muito desafiante, negócio de bar e das concessões, e portanto a retoma carece, independentemente da procura do consumidor, que este complemento seja liberalizado.

Não representa para vocês um desafio, o facto de neste momento se posicionarem como o segundo grande distribuidor, concorrente da NOS, com a ambição de passar a ser o primeiro? Eles são o maior exibidor, historicamente. O facto de eles terem mais salas não pode constituir um obstáculo?

São duas componentes distintas da cadeia de valor, mesmo dentro da própria organização do grupo NOS. E é normal, numa cadeia vertical, haver zonas onde há uma posição de maior quota, de menor quota. Portugal tinha efetivamente, ao longo de toda a cadeia, que no limite, se quisermos, vem do centro comercial, até à televisão, passando pelos canais premium, etc., tinha de facto uma consistência de quotas dominantes muito grande. Essa consistência, numa das peças centrais, que é a distribuição, com a mudança dos dois catálogos no último ano, na prática, altera este cenário competitivo.

Penso que o mercado sempre funcionou relativamente bem e de forma fluída a esse nível, por isso não espero que haja alterações a esse nível. Há um facto concreto, real, anterior à nossa distribuição. Desde dia 30 de julho de 2019 que o catálogo da Universal não está disponível nas salas da NOS, mas isso é um fenómeno que não tem a ver com a mudança de catálogo, que é anterior, nem com estas alterações agora, é um fenómeno para o qual nós agora temos uma responsabilidade partilhada de tentar desbloquear, no sentido de que as pessoas possam ver.

E é fácil perceber que um filme como o Fast & Furious 9 é fundamental para a exibição, e também não podemos deixar defraudar as pessoas, de chegarem a uma sala e não estar lá o Fast, portanto, se não conseguirmos ter o filme nessas salas, teremos de indicar onde é que as pessoas terão de ir ver. Mas temos lutado todos os dias, acho que posso dizer com confiança, por desbloquear rapidamente esta situação.

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