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Imagem: Caroline Deruas (Facebook Oficial Salvador Sobral)

Crítica. ‘bpm’ é o melhor trabalho de Salvador Sobral até hoje

O país conheceu o pequeno Salvador Sobral, em 2009, na terceira edição de Os Ídolos, da SIC. Oito anos depois, Sobral apresentou-se e conquistou o Festival Eurovisão da Canção, em 2017, com “Amar Pelos Dois“, da autoria da sua irmã, Luísa Sobral. Após ganhar o cobiçado troféu em forma de microfone, Sobral disse de peito cheio à Europa, e ao mundo, que “a música não é fogo de artifício“.

Mas em bpm, o primeiro álbum de estúdio composto e escrito na totalidade por Salvador Sobral (e pelo seu parceiro de todas as horas, Leo Aldrey), o fogo de artifício aparece, por vezes, nos momentos e na música mais íntima.

Na sua página do Instagram, Salvador Sobral escreve, acerca de bpm, que “chegou o dia em que as canções que compus com o Leo deixam de ser nossas e são de quem as quiser ouvir. Continuo convicto de que sou um intérprete muito antes de ser um compositor, mas a experiência de ter criado as “semillas”, escrever letras, fazer arranjos, ouvi-los depois com a banda, gravar, fazer overdubs, cantar coros, e até misturar foi uma viagem tão dolorosa e angustiante que se transformou em algo maravilhoso e libertador. Estes são os meus batimentos por minuto, espero que gostem”.

Na mesma plataforma, Sobral explica também o nome do disco. “Porquê bpm? Tomo várias decisões nas diferentes áreas da vida durante as minhas insónias. Chamo-lhes IPs (insónias produtivas). O nome do álbum é fruto de uma IP. Numa reflexão sobre a música e a vida, chego à conclusão de que o elemento mais forte que as une são os bpm (batimentos por minuto). É o que nos dá vida, os batimentos do coração, e é o que dá pulso à música, o que a faz viver. Lembro-me sempre de quando estava no hospital: fazia vários eletrocardiogramas e, numa fase mais delicada, também havia um monitor que mostrava sempre os meus bpms. E isso, curiosamente, transmitia-me uma sensação de familiaridade. Os bpms eram algo que eu conhecia bem da música. Assim foi, ficou ali decidido que o disco chamar-se-ia “bpm”. Já pude dormir em paz. Pelo menos nessa noite“.

De facto, a capa do álbum imita a vara de um metrónomo à modo antiga, um objeto de madeira com uma pequena agulha de metal que oscila para a esquerda e para a direita. O foto desfocada de Sobral também pode ser interpretada como o batimento do coração, por exemplo – vários fragmentos de imagem que vão pulsando, sem nunca estarem quietos, e que se vão sobrepondo.

O melhor álbum de Salvador Sobral (por agora)

Paris, Lisboa, de 2019, cimentou Salvador Sobral como um dos melhores intérpretes portugueses do século XXI. Pode não cantar temas que agradem a todos, mas é impossível negar a qualidade e o talento do músico. Dois anos mais tarde, bpm completa as peças que faltavam ao puzzle de Paris, Lisboa. O jazz que faltou em Paris, Lisboa aprece em bpm, e é impossível negar que este estilo assenta muito melhor na voz de Sobral.

Em muitos sentidos, é o álbum mais corajoso e pessoal da carreira do músico, o que se deve, como é óbvio, ao facto de Sobral ter composto e escrito as músicas do álbum. Em bpm, conseguimos finalmente ouvir o som do nome Salvador Sobral, o som que se quer libertar desde que o artista chegou de Kiev com o troféu na mão. De certo modo, é possível ligar alguns sons de bpm ao álbum de estreia do música, Excuse Me, assim como ao álbum ao vivo, Excuse Me (Ao Vivo), sendo o novo trabalho o irmão mais velho e maduro destes dois discos.

bpm pode não ter uma música tão catchy ou popular como a famosa Anda estragar-me os planos’, que ganhou uma versão belíssima com Tim Bernardes, mas tem outras valências, mesmo que não de um ponto de vista comercial. Os singles sangue do meu sangue’ e ‘paint the town’ são canções interessantes, mas o álbum tem composições que as ultrapassam em qualidade, como ‘mar de memórias’, que abre o disco, ou a jazzy se de mim precisarem’, sem esquecer a espanhola canción vieja’ e a colaboração com Margarida Campelo, aplauso dentro’. ‘canción vieja’ é um perfeito exemplo de como o músico se ultrapassou em relação aos últimos dois álbuns: o trabalho investido no coro e a dedicação em moldar uma personagem com voz e letra.

Sobral também perdeu algumas manias e muletas vocais que o acompanham desde a vitória na Eurovisão, como as modulações que vemos em “Anda estragar-me os planos“, como meio de agarrar a atenção do ouvinte com um “truque” vocal. Desta vez, Sobral dedica mais tempo à música e dá menos atenção aos “truques”, ou melhor, ao “fogo de artifício”, e cria uma chama a valer, à séria.

O álbum fecha combom vento’, que acaba por sumarizar a sonoridade de bpm e indica o caminho que o músico poderá, ou não, seguir. Seja qual for o próximo passo de Sobral, depois de ouvir este disco é quase impossível não ficar curioso com o que reserva o futuro, pois a evolução desde Paris, Lisboa é tal que fica complicado perder fé no crescimento do artista.

Um triunfo de produção, mistura e masterização

Outra grande evolução comparativamente a Paris, Lisboa é o trabalho de estúdio de bpm. A gravação deste disco supera de todas as maneiras o seu precedente: a captação dos microfones está perfeita, por exemplo, e conseguimos ouvir as deliciosas cordas de contrabaixo a soar com profundidade – já não é aquele som “barato” que ouvimos em Paris, Lisboa – e ouvimos também a percussão com maior clareza. A captação de bpm lembra Avenidas, de Rui Veloso, por exemplo, dois álbuns com um som muito limpo.

Claro que este som não depende apenas da captação de som de bpm, mas também da mistura e masterização, na qual Salvador Sobral também teve mão. O álbum só beneficiou com o envolvimento universal de Salvador Sobral, que torna a obra muito mais coesa, algo que faltava aos outros trabalhos do músico. Esperemos que o artista continue a traçar este caminho que, por mais trabalhoso, exigente e desgastante que seja, dá frutos, e o que é certo é que este é o seu melhor trabalho ou, pelo menos, o seu disco mais coeso.

 

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