Hutch Mensell (Bob Odenkirk) em Ninguém

’Ninguém’. O John Wick suburbano dá conta do recado

Depois de advogado criminoso, Bob Odenkirk torna-se agora herói de ação

Um homem aparentemente banal regressa à profissão violenta que prometeu deixar para trás depois de ser atacado na sua própria casa, o que indiretamente o põe em colisão direta com um poderoso sindicato criminoso. Se esta sinopse parece descrever um outro filme de ação, não estão a imaginar coisas. Ninguém Hutch

Na verdade, Ningúem partilha mais do que a premissa com o primeiro filme da saga John Wick protagonizados por Keanu Reeves — ambos são escritos por Derek Kolstad.

Em Ninguém, o protagonista é Hutch Mansell (Bob Odenkirk), um pai de família com um trabalho banal, uma mulher insatisfeita, um filho adolescente que não o respeita e uma filha mais nova que ainda idolatra o pai.

Depois de uma invasão doméstica em que Hutch deixa os assaltantes fugirem, este tem uma crise de identidade que o leva a desvendar uma parte violenta de si mesmo que pensava ter enterrado.

Para além das ligações e semelhanças a John Wick, existe ainda outra curiosidade: a ideia para o filme surgiu de uma experiência real de Odenkirk, em que o ator encurralou os invasores na cave da sua casa. Isto levou o ator por detrás de Saul Goodman a considerar como teria lidado com a situação se fosse “um badass”.

Bob Odenkirk e o realizador Ilya Naishuller (Hardcore Henry)

De certa forma, é exatamente isto que o filme faz de forma competente. Ninguém concretiza uma fantasia de um homem de família que à primeira vista não é ameaça, mas na verdade é um assassino treinado e embarca numa viagem pelo submundo criminoso da cidade a fazer o que faz de melhor.

A história é um simples catalisador para a ação, mas é sincera o suficiente para nos investir na crise identitária de Hutch e o seu amor pela família.

As comparações a John Wick são inevitáveis, e Ninguém acaba por ser menos inovador tanto na ação como no universo em que esta acontece.

Dá e leva

Hutch Mensell (Bob Odenkirk) em Ninguém
Imagem: Universal

Antes de mais, há que falar da ação. Bob Odenkirk tem várias oportunidades para brilhar enquanto Hutch, e aproveita-as todas. O combate é maioritariamente corpo-a-corpo, distanciando-se do gun-fu de Wick.

Hutch, pelo menos inicialmente, adota um estilo menos preciso e tático. Os confrontos são arrastados, mais parecidos a uma rixa de bar em que até o vencedor sai lesionado.

Conseguimos ver que Hutch demora para voltar a entrar no ritmo, e que a sua perícia em combate vai voltando gradualmente à medida que aceita quem é e recupera a sua confiança. A escala da ação acompanha o desenvolvimento do personagem de forma direta e satisfatória.

Fora de combate, Odenkirk também navega perfeitamente a linha entre um homem divido entre a sua aparência inofensiva e até emasculada, e a sua verdadeira natureza. Na mesma cena, Hutch é simpático, patético e finalmente assustador.

Acessórios ao crime

A família de Hutch em Ninguém
Imagem: Universal

Infelizmente, as restantes personagens são maioritariamente usadas de forma utilitária para avançar a narrativa. A presença da família de Hutch podia introduzir um conflito interessante e aumentar a tensão, mas em várias situações sentimos que são postos de lado demasiado facilmente, como se para não complicar as coisas.

Aqui, o maior desperdício é talvez Blake (Gage Munroe), o filho mais velho, que tinha o potencial de ter uma relação mais desenvolvida com Hutch e com a revelação de quem o pai realmente é.

David, o pai de Hutch, destaca-se pela presença divinal de Christopher Lloyd, que dá origem a alguns dos melhores momentos do filme quando este se leva menos a sério. Tanto David como Harry (RZA), o irmão adotivo de Hutch, adicionam talvez a ideia mais interessante do filme: Hutch não está sozinho naquilo que faz.

Do outro lado da moeda, os vilões que a personagem principal enfrenta são os que mais sofrem pelas comparações a John Wick. Embora ambos os filmes sofram do clichê “sindicato criminoso russo”, mas aqui é uma parte mais tangente à história principal.

Daniel Bernhardt, Alain Moussi e Aleksandr Pal em Nobody (2021)
Imagem: Universal

Yulian (Aleksey Serebryakov), o líder do sindicato tem uma dualidade entre uma leveza flamboyant, enquanto dono de um clube, e a sua persona implacável enquanto líder da organização que podia ser interessante se explorada mais a fundo, mas nunca é levada ao potencial máximo.

Tal como em John Wick, aqui existe uma relação entre Yulian e o filho irresponsável Teddy (Aleksandr Pal), mas a dinâmica dos dois não é tão central para a história como no filme de Keanu Reeves.

Acima de tudo, sentimos a falta do twist”, seja ele toda uma omnipresente sociedade secreta gerada em torno de assassinos a contrato, ou então uma obsessão por prender carros a outros veículos de formas cada vez mais extravagantes.

Aqui, temos uma vaga intriga que apenas justifica o talento de Hutch para a carnificina, mas não enriquece o filme a nível de história ou acrescenta possibilidades de ação mais criativas.

Ninguém acaba por ser mais um agente competente

Hutch Mensell (Bob Odenkirk) em Ninguém
Imagem: Universal

Entre inspirador e inspirado, Ninguém é claramente a segunda opção. No entanto, a ação é impactante e bem executada e Bob Odenkirk é a razão para assistir, de preferência no maior ecrã e sistema de som possível.

O ator não só se encaixa no papel perfeitamente, como se demonstra uma verdadeira estrela de ação nas várias lutas e tiroteios que enfrenta ao longo do filme.

O restante elenco, com especial destaque para Christopher Lloyd e Aleksey Serebryakov, em conjunto com Odenkirk, adicionam um elemento de comédia à fórmula.

Se és fã de ação com ênfase em combate corpo-a-corpo, cenários criativos e cinematografia bem executada, Ninguém é um filme que vos vai entreter durante uma hora e meia, mesmo que não se torne um clássico instantâneo.

Hutch Mensell (Bob Odenkirk) em Ninguém
Ningúem
6
Mais Artigos
Cristina Ferreira - Globos de Ouro
25.ª edição dos ‘Globos de Ouro’ acontece em outubro