Prazer, Camaradas!
Fonte: Pedra no Sapato / Divulgação

Crítica. ‘Prazer, Camaradas!’ traz a revolução para o presente

Ao ler a sinopse de Prazer, Camaradas!, ficamos com uma noção do que este filme é e não é. Promete-se um regresso a 1975, ao rescaldo revolucionário que trouxe, por fim, um Portugal da liberdade. Promete-se explorar o quotidiano das cooperativas, outrora essenciais na educação da população analfabeta. E, claro, falar de sexo à luz de tabus ainda demasiado presentes.

Tudo indica que a 20 de maio estreia nas salas de cinema portuguesas um interessante documentário, pontuado por imagens da época. No entanto, a maior promessa do realizador e argumentista José Filipe Costa reside em subverter qualquer tipo de expetativas.

“Camaradas lá do Norte, venham ao Sul passear”

Entre telemóveis modernos e familiares comboios da CP, somos convidados a entrar numa cooperativa do sul alentejano. Cada um chega com a sua própria história, à procura de um novo começo.

Há quem venha de longe, motivado por viver em terras lusas uma verdadeira revolução. Há quem regresse ao próprio país, pronto a viver a bonança depois da tempestade. Estrangeiros, exilados políticos, habitantes locais. À boa moda da banda sonora cantada na voz de Zeca Afonso, “cá nas nossas cooperativas há sempre mais um lugar!”.

Em Prazer, Camaradas!, narram-se histórias na primeira pessoa. Atores já visivelmente mais velhos identificam-se como jovens na casa dos vinte, trazendo um Portugal do passado ao tempo presente. Pouco existe de faz de conta, quando os que interpretam viveram. Tendo por base relatos orais, registos e diários, o argumento centra-se, assim, no trabalho da memória.

Prazer, Camaradas!
Fonte: Pedra no Sapato / Divulgação

“Os diários de José Rabaça e Eduarda Rosa chamaram-me à atenção. Eram verdadeiros registos antropológicos”, revela José Filipe Costa ao Espalha-Factos. Foram os episódios de partilha durante a apanha da azeitona e as aventuras passadas nas lides domésticas que despertaram a vontade de fazer nascer a obra – “e se eu dramatizasse isto?”

Excluindo algumas sessões de preparação, a essência do filme construiu-se sozinha. Prazer, Camaradas! nunca pretendeu ser uma reconstituição histórica, protagonizada por atores profissionais. Pelo contrário, os participantes foram encorajados a improvisar, tomando o seu passado como forma de empoderamento.

Gosto que [os atores] não sejam infantilizados, como às vezes são nos programas que se vê nas televisões generalistas. Há uma espécie de entrega de poder a estas pessoas para elas se divertirem”.

No fundo, a postura dos intervenientes fala por si. Nota-se que quem aparece diante da câmara fá-lo por gosto.

Democracia aos olhos do povo

A vida agrícola serve de palco para o espetador confrontar a política olhos nos olhos. Após quase meio século acorrentada à ignorância, conhecemos uma população disposta a aprender a viver de novo.

Aprende-se a ler, a entender o corpo humano, a participar em assembleias conduzidas por múltiplas vozes. A democracia recém-conquistada estende-se a todos os pontos da cooperativa, tornando-se fascinante contemplar os efeitos de uma revolução nacional a nível micro.

Prazer, Camaradas!
Fonte: Pedra no Sapato / Divulgação

De facto, a mudança não foi distante, nem operada apenas por políticos e eruditos. A revolução foi feita do povo para o povo e é no seu quotidiano que esta se reflete.

“É uma das coisas que gosto bastante no filme. De abrir horizontes e de perceber que a revolução não foi só uma mudança político-constitucional ou de regime”, afirma José. Nunca esquecer que o dia a dia, hoje encarado como normal, começou por ser disruptivo. E é bom que haja narrativas no grande ecrã dispostas a lembrar tal facto.

A falar é que se desconstrói o tabu

Além da política, a beleza é também encontrada nos momentos simples. Pela força do diálogo, surgem valiosas reflexões. O poder popular começa em algo tão elementar como dividir tarefas na nossa própria cozinha. Começa quando se discutem abertamente experiências sexuais no feminino.

O bater da roupa branca nas tábuas, o burburinho do sabão azul, desabafos que já ouvimos tantas vezes da boca de mulheres daquele tempo. De quando em vez, trocam-se certas palavras por “coiso”, de modo a poupar constrangimentos de maior. Mas é, sem dúvida, “gratificante, ver como elas se expõem com alguma dignidade ao mesmo tempo. Com autoironia, sem falsos pudores”, recorda José.

Prazer, Camaradas!
Fonte: Divulgação / Pedra no Sapato

Pensamentos ocultos são ditos a medo. Contudo, o temor dá lugar à confiança, quando as experiências de uma batem certo com as de outra. Como é bom testemunhar a importância das amizades femininas. Sem julgamentos ou rivalidades, apenas compreensão mútua. São conversas onde a partilha de perspetivas mata o estigma, ainda perpetuado no contemporâneo.

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Não se romantiza, então, o período revolucionário e muito menos se menospreza a sua importância. “Essa foi outra das razões que me levaram a fazer o filme. Perceber a ideia de que naquele período havia uma linha de esperança que não chegou a ser cumprida. Houve coisas que não se chegaram a concretizar e muitas dessas coisas têm a ver com a moral sexual e os costumes. E essas coisas vêem-se hoje em dia”, refere.

Vêem-se nos preocupantes índices de violência doméstica, na desigualdade salarial, na dificuldade em aceder a cargos de chefia. Até no movimento #MeToo, que tem vindo a ganhar tração em território nacional.

Parti sempre da ideia de que o presente é importante. Mesmo quando se fala do passado, esse passado diz muito ao agora”.

Revolucionar pelo humor

Há espaço para falar seriamente de tópicos sérios. E há espaço para rir de tópicos levados demasiado a sério. Por trás do tabu sexual temido por tantos existe muito humor, refletido no lado fantástico da película. Desde frenéticas danças de fandango à assombração de três estrangeiras, o sonho febril e a realidade cruzam-se, em oposição ao tom orgânico predominante.

Se resulta sempre ou não, já será um aspeto mais divisório. Todavia, José Filipe Costa garante que não deixou estes segmentos ao acaso. “Tem a ver com a ideia de espelhar um lado efusivo, um lado fantasioso, muito ligado a estas questões de sexualidade e às imagens que se tinham dos que vinham de fora”.

Fonte: Pedra no Sapato / Divulgação

A brincar a brincar, troca-se as voltas à ideia da estrangeira promíscua que, segundo as más línguas, até passeava nua pelos palacetes convertidos em cooperativas. Também faz falta “um pouco de desopilanço ao enredo”. Afinal, vivia-se numa altura em que tudo podia acontecer. Porque não abraçar o fantasioso?

É certo que o espetador está longe de emergir em pleno na época de 1975. Os aparelhos tecnológicos, os toques surrealistas, o encarar direto das câmaras. Qualquer ilusão de realidade cai no esquecimento e, mesmo assim, um estrondoso cinema do real consegue emergir. Os anos fazem-se sentir nas pessoas, mas não nos cenários. O horizonte alentejano incute uma forte sensação de autenticidade, apenas realçada pela entrega emocional dos protagonistas. A janela está definitivamente aberta para outros tempos.

Sentirmo-nos reais

As instâncias finais da longa-metragem remetem a 1978, ano em que Sylvester lança o sucesso You Make Me Feel (Mighty Real). A euforia do disco faz-se ouvir num cenário de arraial de aldeia, escolha que não podia encaixar melhor. Prazer, Camaradas! é, de facto, um filme sobre sentirmo-nos reais. Sobre renunciar a rígidos papéis de género e dar voz a narrativas colocadas à margem.

Quis mostrar que estamos prontos a explorar estes lados mais escondidos ou menos visíveis da revolução. E que esses lados não estão tão longínquos. Estão no aqui e agora”, afirma o realizador.

E é no aqui e agora que se homenageiam tantas histórias pessoais de uma vez só. Até no Festival de Cinema de Locarno, onde o filme começou por estrear, uma espetadora fez questão de partilhar com José a sua própria experiência cooperativista. Por mais que revisionismos históricos tentem contradizê-lo, as histórias estão lá, “é uma questão de estarmos dispostos a vê-las”. Um cantor tão revolucionário quanto Sylvester ficaria orgulhoso.

Prazer, Camaradas!
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