Eurovisão
Fotografua: EBU/Andres Putting

Eurovisão. Como se organiza o maior festival de música do mundo durante uma pandemia

The Black Mamba, os representantes portugueses, estão a seguir um extenso protocolo de segurança durante a estadia em Roterdão.

Há um ano, falar em espírito eurovisivo tinha um sabor amargo. Com a edição de 2020 cancelada devido à rápida propagação da Covid-19 por todo o mundo, o Festival parou pela primeira vez na sua história para manter todos em segurança. Em 2021, mesmo que a batalha ainda esteja por vencer, o Festival Eurovisão da Canção volta a tomar de assalto o mês de maio, com 39 países a competir pela vitória – e a trazer um rasgo de normalidade a dias que ainda não o são.

A acontecer em Roterdão, nos Países Baixos, a edição deste ano toma precauções excecionais para garantir que a música continua em primeiro lugar e que aqueles que a tocam, cantam ou ajudam a embelezar estejam seguros num evento que costuma reunir milhares. Desta vez, esses números descem: as delegações de cada país são mais reduzidas, a audiência é menor e todos os acontecimentos relacionados com o festival foram cancelados ou modificados na cidade anfitriã.

A 65.ª edição da Eurovisão (a 52.ª em que Portugal participa) segue um dos quatro cenários criados para possibilitar a Eurovisão, que seriam aplicados de acordo com o evoluir da crise sanitária a nível global. Totalmente adaptada às restrições da pandemia, segue um extenso plano de segurança sanitária, criado em conjunto com o Instituto Nacional para a Saúde Pública e o Ambiente neerlandês e aprovado pelas autoridades de saúde nacionais e pela multinacional Société Générale de Surveillance (SGS).

As palavras de ordem: isolamento e testagem

Para a realização do festival, as emissoras organizadoras NOS/NPO/AVROTROS, em conjunto com a União Europeia de Radiodifusão (UER/EBU), garantem medidas de higiene e segurança alargadas. É obrigatório o uso de máscara protetora em deslocações no espaço, higienização das mãos e distanciamento social, existe ventilação apropriada no espaço e há capacidade de testagem extensiva, com regularidade de 48 horas no mínimo.

O passe de acesso à arena Rotterdam Ahoy, onde acontecem os espetáculos, funciona apenas com provas de um teste negativo a cada dois dias, expirando depois a sua validade. Para poder voltar a entrar, cada pessoa terá de fazer um novo teste no centro de testagem junto ao pavilhão; com um resultado negativo, o passe volta a ser ativado

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Centro de testagem junto à arena Rotterdam Ahoy | Fotografia: Nathan Reinds – NPO/NOS/AVROTROS

Todos os envolvidos que tenham vindo de fora dos Países Baixos, dos artistas à imprensa, tiveram e têm obrigatoriamente de testar negativo à Covid-19 com antecedência de pelo menos 72 horas em dois testes, um PCR e outro rápido. No caso de um teste positivo, são impedidos de viajar e, no caso dos representantes, teriam de participar à distância.

Por exemplo, a Austrália, apesar de não ter testado positivo, não viajou para os Países Baixos para seguir as regras de segurança do país; como tal, a sua participação acontece através de ligações em direto à arena e a atuação mostrada é uma versão previamente gravada para ser exibida nas galas, que foi pedida a todos os países a concurso para assegurar a realização da Eurovisão, mesmo no pior dos cenários.

Já em Roterdão, se tudo correu como esperado, as delegações nacionais e outras equipas são obrigadas a ficar no hotel em quase todas as ocasiões, exceto nos momentos em que se desloquem à arena para ensaios, entrevistas, atuação em direto e outras atividades.

A rotina dos The Black Mamba durante a estadia em Roterdão

A delegação portuguesa está a cumprir todos os protocolos designados. Instalados num hotel com vista para o canal Nieuwe Maas, que atravessa a cidade de Roterdão, os The Black Mamba e a equipa da RTP que acompanha os representantes nacionais ficam na bolha da delegação durante a maioria do tempo em que estão na cidade, onde chegaram a 10 de maio para os primeiros ensaios presenciais. A exceção são os momentos em que se deslocam à arena ou as visitas à cidade programadas em segurança.

“Nós saímos do hotel apenas para os ensaios e para uma tour organizada pela organização do evento, onde fomos num autocarro exclusivo para nós, em bolha. Aparte disso, não saímos. Tudo o que precisemos, até do supermercado, não podemos ir buscar e são os nossos voluntários [atribuídos à delegação] que tratam disso, que são testados diariamente”, explica Maria Ferreira, head of press da delegação nacional ao Espalha-Factos.

As rotinas são apertadas e têm de ter em conta todos os cuidados. A equipa não pode, por exemplo, comer em zonas comuns, apenas no quarto. Para convívio, há “uma sala exclusiva para nós onde podemos estar todos, a seguir todas as regras”.

A banda, porém, está a reagir bem ao isolamento. “Eles estão muito habituados a viver uns com os outros, o ambiente é ótimo entre nós e eles, então isso tem ajudado muito esta questão de estarmos fechados num hotel”, conta a chefe de imprensa da equipa portuguesa.

Numa entrevista ao EF, os membros da banda explicaram que, enquanto têm estado fechados no hotel, aproveitam para “relxar, descansar um bocadinho” e até gravar um videoclipe” para o novo singleCrazy Nando’, lançado esta quinta-feira (20) depois da atuação na segunda semifinal do Festival – e do qual revelaram um excerto do refrão em primeira mão ao nosso site:

Fora as deslocações para a arena, podem apenas “fazer alguns passeios higiénicos e fazemos questão de andar sempre de máscara de rua – alguns deles já deram uma volta de bicicleta, foram correr, mas não entramos em lado nenhum”. O objetivo é que o número de contactos seja o menor possível, senão mesmo quase inexistente, de forma a salvaguardar um teste negativo.

Os The Black Mamba e toda a equipa da RTP foram testados imediatamente à chegada, no dia 10, e repetem pelo menos de dois em dois dias, conforme o previsto. “Já não sabemos quantos testes fizemos, foram muitos, mas são testes rápidos e pelo meio alguns PCR” por precaução. Até ao momento, não há motivo para alarmes: “foram todos negativos”, refere Maria Ferreira.

Apesar das muitas medidas de segurança, “a organização do evento tem sido irrepreensível”, refere a head of press. “Não se imagina o que será organizar uma Eurovisão nestas condições – se já para nós em Lisboa foi como foi. Mas o acompanhamento está a ser impecável. Eles são muito rigorosos e ainda bem, porque nos sentimos muito defendidos por isso. Estão a toda a hora a alertar as pessoas para cumprir as regras”.

Com regras apertadas, o sentimento é de algum cansaço, mas o objetivo principal é a segurança e a representação do país no palco neerlandês. “Claro que já estamos todos um bocado fartos de não podermos sair, numa cidade convidativa. A nossa rotina não tem muito a ver com as rotinas eurovisivas normais, mas é o possível para tudo acontecer”, termina.

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The Black Mamba a caminho do primeiro ensaio na arena em Roterdão, a 11 de maio | Fotografia: Arlindo Camacho

Apesar das medidas de segurança, já houve alguns alarmes entre os participantes que, apesar de se terem sido controlados, mostram que a proteção nunca é demais e que as medidas são para ser aplicadas de imediato. Primeiro foi a vocalista da Ucrânia, que entrou em isolamento profilático por precaução, com o teste PCR a revelar-se negativo. Já na delegação polaca, um dos membros testou positivo ao vírus, levando toda a equipa, incluindo o cantor representante, a entrar em isolamento imediato e a realizar testes de emergência.

Também a delegação da Islândia teve um caso positivo, que colocou toda a equipa e artistas a seguir o mesmo protocolo. Por consequência, as representantes da Malta e da Roménia, em estadia no mesmo hotel que os islandeses, tiveram que entrar igualmente em isolamento e ficaram impedidas de ir à cerimónia de abertura, que decorria nesse dia, para despistar eventuais riscos de contaminação cruzada. Todos os casos estão sob controlo e não levantaram mais suspeitas de infeção entre todos os outros membros a concurso.

Audiência mais pequena e lugares reduzidos para a imprensa

De forma a reduzir o número de pessoas presente no local, a organização, em conjunto com o Governo dos Países Baixos, definiu que cada um dos nove espetáculos – seis ensaios, duas semifinais e a final – terão um máximo de 3500 espectadores no local em cada, menos de metade do número esperado para a edição do ano passado. Cada um dos espectadores tem que apresentar um teste negativo à Covid-19 antes de entrar na Rotterdam Ahoy.

A sala de imprensa também está mais vazia. Habitualmente com centenas de jornalistas e fãs vindos de todos os países da Europa e até de outros continentes, o press center no local pode receber, no máximo, 500 membros com distanciamento social e separados por acrílicos; os restantes 1000 jornalistas estão a acompanhar online (como é o caso do Espalha-Factos), através de uma plataforma especialmente desenhada para uma cobertura o mais aproximada do normal quanto possível.

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O centro de imprensa físico na Rotterdam Ahoy | Fotografia: Nathan Reinds – NPO/NOS/AVROTROS

O público presente não é obrigado a usar máscara durante os espetáculos, devido a todas as outras medidas postas em prática, nomeadamente a testagem, para garantir que não há infetados entre os presentes. Esta opção surge como parte do “laboratório de campo” do qual a Eurovisão faz parte, que estuda possibilidades para a realização de outros festivais desta dimensão de forma segura.

Uma iniciativa do executivo neerlandês com o setor do entretenimento e eventos do país, o Fieldlab Events exige regras estritamente obrigatórias para todos os que estão na audiência: existindo apenas uma plateia sentada, para limitar movimentos, o teste deve ser feito menos de 24 horas antes de cada espetáculo e o uso de máscara é obrigatório durante deslocações. Os espectadores recebem várias perguntas antes de se deslocarem para a arena, em horários definidos para não gerar multidões, para perceber se existe a suspeita de algum sintoma associado à Covid-19; à mínima dúvida, devem ficar em casa.

Lê também: Eurovisão 2021: Onde ver todas as galas em direto?

O Festival Eurovisão da Canção 2021 acontece a 18, 20 e 22 de maio em Roterdão, nos Países Baixos. Portugal é representado pela banda The Black Mamba e o tema ‘Love is on My Side‘. O Espalha-Factos continua a acompanhar todas as novidades da Eurovisão nas redes sociais e num podcast especial, o EFVisão.

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