O Ídolo
Imagem: Divulgação

Crítica. ‘O Ídolo’, um filme de Fernando Pessoa de se lhe tirar o chapéu

Fernando Pessoa é conhecido pelos seus vários heterónimos, sendo as mais conhecidas Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Embora não tenha sido reconhecido em vida e não tenha ganho nenhum prémio Nobel da Literatura, Pessoa é hoje reconhecido não só pelos portugueses e restantes países de língua oficial portuguesa, como também pelos estudiosos como Harold Bloom, que o inclui no cânone da literatura ocidental do século XX, ao lado de nomes como William Shakespeare, William Faulkner ou Franz Kafka.

Depois da sua poesia ter sido redescoberta pelos portugueses, a Samsung partiu em busca dos seus argumentos originais, chegando assim à produção de O Ídolo, o primeiro filme de Fernando Pessoa, uma curta-metragem realizada por Pedro Varela.

Baseado no argumento quase centenário de Pessoa, Note for a Thriller, or Film (“Apontamentos para um thriller, ou filme“), o realizador de Os Filhos do Rock e do remake de A Canção de Lisboa, foi quem adaptou estes escritos para a curta-metragem O Ídolo.

Note for a Thriller, or a Film” é composto por seis argumentos de Pessoa, publicados no livro Fernando Pessoa – Argumentos para Filmes, dos investigadores pessoanos Patrício Ferreira e Cláudia J. Fischer, lançado em 2011 pela Ática. Para a produção do filme, a produtora Blanche Filmes recriou a produtora Ecce Films, pensada por Fernando Pessoa, que iria produzir os seus argumentos e filmes.

A ação de O Ídolo remete para o ano de 1928, quando diversas personagens recebem a complicada missão de transportar um artefacto com valor inestimável – ou seja, o ídolo – a bordo de um navio que segue rumo a Southampton, vindo de Nova Iorque. Mas tal como em quase todos os escritos de Fernando Pessoa, há mais neste argumento do que parece. Numa curta-metragem com pouco mais de 20 minutos, Pessoa explora a natureza humana, numa história onde ninguém é quem aparenta ser.

O Ídolo
Tiago Felizardo em O Ídolo

Fernando Pessoa e Pedro Varela apresentam-nos um excêntrico leque de personagens: Augusto Sotto (Tiago Felizardo), um bon vivant, encarregue de fazer chegar o ídolo a Alberto Soares; Emily Nogueira (Ana Vilela Costa), escritora noiva de Sotto; Mr. Williams (Chris Murphy), um agente dos Serviços Secretos britânicos, disfarçado de empresário; Ofélia (Paula Magalhães), a amante de Sotto; Blanche Calloway (Soraia Tavares), cantora de jazz que traz para o filme a atmosfera dos Loucos Anos 20; Padre Thomas (Ivo Alexandre), um padre irlandês dedicado a espalhar a palavra do Senhor mas que, nem assim, consegue resistir ao ídolo; e Bernard (Mick Greer), fiel secretário do misterioso Alberto Soares.

A produção do filme levou apenas seis dias, entre Viana do Castelo, a serra de Sintra e, claro, Lisboa. A realização e a escrita do guião estiveram a cargo do realizador Pedro Varela e o filme foi totalmente rodado com o novo Samsung Galaxy S21 Ultra 5G.

O Ídolo
O realizador Pedro Varela, nas gravações de ‘O Ídolo’

Quem diria que seria a Samsung a trazer Fernando Pessoa para o ecrã?

O realizador Pedro Varela disse que filmar uma curta-metragem com um smartphone foi um desafio. No entanto, foi um desafio que o realizador conseguiu domar facilmente.

Visto que estava a gravar um filme com smartphone, o realizador encarou a curta como um vídeo que qualquer pessoa teria gravado com o seu telemóvel. Assim, Pedro Varela assume-se como um tripulante omnipresente no navio, que tudo vê e tudo sabe. O realizador é mais uma personagem, o que faz todo o sentido, tendo em conta o equipamento com o qual o filme foi gravado. Deste modo, a câmara nunca para quieta, sempre em movimento, o que lhe dá um tom cheio de adrenalina.

O realizador podia ter gravado O Ídolo de forma diferente, mais semelhante aos thrillers de Hitchcock, criando suspense até atingir o clímax da história, mas conseguiu ler as valências de fazer este filme de forma diferente.

Pedro Varela esteve também encarregue de adaptar os escritos de Pessoa para um novo argumento. “Criar personagens e dar-lhes voz, esse é o lugar onde sou feliz, e aqui senti que partilhei esse momento com alguém que sempre foi uma gigante influência na minha vida. Fazer justiça ao que o Pessoa teria na sua intenção original foi o meu único objetivo“, disse o realizador.

No entanto, a pressão de adaptar um trabalho de Pessoa não se fez sentir em O Ídolo. As personagens, agora a cargo de Varela, foram levadas a sério, mas não com demasia. O cinema pode e deve ser divertido, assim como a literatura. Embora o filme funcione como um estudo da natureza humana – neste caso, acerca da ganância -, tanto Pessoa como Varela estavam cientes que, se tornassem este curto thriller num argumento maçudo e demasiado moralista, ninguém prestaria atenção ou estaria interessado em ver.

A curta flui de forma divertida, sem prestar atenção a tiradas moralistas, pois isso fica a cargo do espectador, que é quem tem a responsabilidade de julgar os atos das personagens. Este é um dos traços do modernismo, movimento em que se insere a poesia de Pessoa, e que Varela conseguiu preservar. De vez em quando, ouvimos alguns comentários moralistas de Alberto Soares, que nunca revela o seu rosto, mas ficamos por aí.

Um elenco que acompanha o tom do filme

O elenco d’O Ídolo está também de parabéns pela sua prestação nesta curta-metragem. É de salientar a interpretação de Tiago Felizardo, que deu graça e vida à personalidade manhosa do protagonista Augsuto Sotto. Tal como Pedro Varela, Felizardo percebeu bem a personagem: um trapaceiro à moda dos thrillers, que divide o seu tempo entre esquemas, champanhe e amantes. No clímax do filme, Felizardo deixa-se levar um pouco pelos clichés de um criminoso que se vê encurralado mas, de resto, encara a personagem de forma relaxada, sem se levar demasiado a sério, mas também sem se desleixar.

O mesmo pode ser dito da atriz Paula Magalhães, que interpreta Ofélia, a amante de Agusto Sotto. O seu papel é bastante pequeno na história, tanto que Ofélia é apenas uma muleta na história – ou seja, não é uma personagem com cabeça, tronco e membros, mas um traço de personalidade de Augusto Sotto. No entanto, a atriz consegue dar uma boa prestação, mesmo que interprete uma personagem que não adiciona nada ao enredo.

No entanto, a melhor prestação da curta-metragem é, sem dúvida, a da atriz Ana Vilela Costa, que dá vida a Emily Nogueira, esposa de Augusto Sotto. Todos os momentos de Vilela Costa no ecrã são deliciosos. Há uma cena partilhada entre Emily Nogueira e Américo Oliveira, interpretado por João Gaspar, que, embora breve, não deixa de ser uma das partes mais intensas do filme: Américo Oliveira leva Emily Nogueira até uma cabine para ela lhe autografar um livro, o romance A Breath of Life (um título incrivelmente modernista). Nesta cena, o olhar de João Gaspar ilumina a personagem desonesta que é Américo Oliveira, enquanto Vilela Costa mostra, de uma forma muito pura, as fragilidades de Emily Nogueira. A atriz consegue incorporar muito bem a angústia da personagem, embora ela seja bastante inútil para a história, tal como Ofélia – a única diferença entre as duas parece ser que Emily Nogueira aparece em mais cenas. Teria sido interessante ver mais cenas de Ofélia com outra personagem, sem ser Augusto Sotto, para a percebermos melhor e vermos mais da atriz Paula Magalhães.

Embora estas personagens sejam interessantes, não deixam de sucumbir a alguns clichés dos thrillers tradicionais. Teria sido interessante que Pedro Varela desse uma volta a algumas destas personagens mas, em vinte minutos, não é possível ver mais do que isto. A realização de Varela e o tom que o realizador dá à curta-metragem acaba por remediar estas falhas no argumento, mas seria possível juntar o útil ao agradável, dando continuidade ao tom e expandindo mais as personagens de O Ídolo.

Modernismo por trás de um smartphone

Algumas das obras mais importantes do movimento modernista são Na Minha Morte, de William Faulkner, e Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Ambas as obras fazem uso da técnica de narrativa de fluxo de consciência. É complicado trazer essa técnica para o cinema mas Pedro Varela, ao realizar o filme com uma câmara – neste caso, smartphone – em constante movimento, consegue adaptar o fluxo de consciência para o ecrã, e este é um dos grande aspetos positivos do filme e que, curiosamente, o torna tão divertido de ver, quando na literatura o fluxo de consciência consegue ser, por vezes, maçador e complicado de seguir e compreender.

Em suma, O Ídolo é uma curta-metragem divertida que toda a gente com vinte minutos livres deveria ver. Pegando em alguns clichés e tradicionalismos dos thrillers, Pedro Varela e o elenco de atores constroem o primeiro filme de Fernando Pessoa, deixando os espectadores desejosos por ver mais. Seria bom que a Samsung continuasse com este projeto, pois há mais cinco argumentos para trazer para o ecrã e acho que Pessoa não se importaria que estes fossem gravados com um smartphone – pois, assim, até tem mais graça.

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