Spiral
Fotografia: Divulgação

Crítica. ‘Spiral’ abre a porta a um futuro para lá de Jigsaw

Spiral é o nono capítulo dos filmes SAW. Realizado pelo veterano da saga Darren Lynn Bousman (SAW II, SAW III e SAW IV), mas com a visão de Chris Rock. O ator e comediante abordou o estúdio responsável pela franquia para trazer uma nova história à saga. O argumento é baseado no conceito de Chris Rock e é também ele o principal protagonista da narrativa.

A trabalhar sobre a sombra do seu pai, um conceituado veterano da polícia (Samuel L. Jackson), o impetuoso detetive Ezekiel “Zeke” Banks (Chris Rock) e o seu novo colega (Max Minghella) ficam encarregues duma terrível investigação sobre assassinatos que trazem memórias do passado horrível da cidade. Involuntariamente envolvido num mistério profundo, Zeke encontra-se no centro do jogo mórbido do assassino.

Será Spiral capaz de rejuvenescer a saga SAW? Ou esta nova aventura oferece apenas mais do mesmo? A resposta, talvez, esteja no meio.

Um mistério frenético, mas previsível

Todos os olhos estão em Chris Rock. Esta frase é verdade, em vários sentidos. Por um lado, este filme é um veículo para o ator interpretar um papel mais dramático e também experimentar o género de terror. É ele, claramente, que lidera esta produção e carrega a progressão da narrativa.

Por outro lado, a sua personagem, Zeke, é um detetive pouco convencional, contudo justo e íntegro, ao contrário do resto da esquadra em que trabalha. O protagonista tem de descobrir quem é o assassino que anda a matar polícias corruptos, sem poder confiar nesses mesmos polícias que o estão a ajudar com o caso.

Numa corrida contra o tempo e sem alguém em quem acreditar, é percetível a pressão sobre a personagem principal. Isto deve-se ao trabalho carismático de Chris Rock que, apesar de ter alguns momentos ligeiramente exagerados, entrega uma prestação sólida e que entretém o espetador ao longo de todo o filme.

Com uma hora e meia de duração, Spiral não dá tempo para respirar. Todas as cenas importam, cada momento pode resultar na morte de mais um polícia. A tensão está sempre no máximo e isso resulta numa experiência frenética que agarra o espetador até aos créditos finais.

Lê também: Eurovisão 2021. Portugal dispara nas apostas após primeiro ensaio

No entanto, se o ritmo do mistério é ótimo, o seu conteúdo é relativamente previsívelSpiral mantém sempre uma lista distinta de suspeitos, mas as tentativas de disfarçar o verdadeiro culpado não resultam inteiramente. É muito provável que antes da grande revelação já saibamos quem está por trás dos homicídios.

O argumento não é de todo subtil e os diálogos estão ao nível do resto da saga SAW – ou seja, muitos palavrões, muitos gritos e críticas sociais mais agressivas do que construtivas. Há, claramente, uma mensagem sobre a violência e impunidade policial, porém nada que já não tenhamos visto.

Já o final propriamente dito tem boas ideias, mas não será completamente satisfatório. É um “final à SAW“, mas sem o golpe final que costuma deixar o espetador agarrado à cadeira. Talvez para isto tenha contribuído um terceiro ato com pressa em encerrar tudo. Com um pouco mais de calma e tempo, o desfecho podia ter sido mais impactante.

Fotografia: Divulgação

Virar a página do livro de SAW

Depois de Jigsaw, seria curioso perceber a opção estilística de Spiral. O filme de 2017 apresentou uma estética distinta do que era habitual na saga, com uma cinematografia mais tradicional no cinema moderno. Houve, igualmente, um maior uso de efeitos especiais a computador, em vez da violência prática que definiu SAW.

Esta nova sequela regressa ao espírito original. Apesar de ter o melhor orçamento dos nove capítulos, Spiral não é tão “limpo” como Jigsaw. Trata-se de uma escolha deliberada em termos de jogo de cores e de caracterização dos cenários. Sentimos que estamos no mundo corrupto, imundo e impiedoso de SAW. Os cortes bruscos e sucessivos, para realçar o desespero das vítimas e das reviravoltas no enredo, também estão de volta.

As armadilhas são criativas e, sobretudo, extremamente violentas. Há um maior foco em efeitos especiais práticos, apesar de ainda se notar um embelezamento aqui e ali com CGI. É o SAW menos focado em armadilhas, com mais importância dada à investigação criminal. Mesmo assim, quando aparecem, deixam a sua marca e são memoráveis.

Fotografia: Divulgação

Mas se Spiral é, em partes, um regresso à normalidade, é também o primeiro filme da saga a seguir em frente da história original. Pela primeira vez, John Kramer (Tobin Bell), o assassino icónico que originou tudo, não aparece no filme nem está envolvido na narrativa. O boneco Billy, símbolo máximo de SAW, também fica de fora. Só as espirais das suas bochechas é que aparecem, ao longo do mistério, assim como a máscara de porco.

Esta decisão corajosa (tão pouco habitual no género do terror) de deixar o passado no passado e apresentar uma história nova é de louvar.  Spiral abre a porta a que a saga finalmente evolua para um novo formato, em que Jigsaw não seja mais o centro das atenções, apenas o símbolo que inspira e conecta outros crimes violentos.

Só futuras sequelas – está confirmado mais um filme e ainda uma série de televisão baseada em Spiral – é que vão permitir perceber se esta mudança é definitiva ou se, mais tarde ou mais cedo, vamos regressar ao passado outra vez.

Sem revolucionar a saga, Spiral é uma entrada sólida no legado de SAW. Chris Rock lidera com muito carisma uma investigação divertida e sangrenta, apesar de previsível. O argumento pouco desenvolvido e um final apressado impedem o filme de atingir outros patamares. Não obstante, os fãs que ansiavam por um novo capítulo destes jogos mortais vão ficar satisfeitos.

Spiral
Spiral
7
Mais Artigos
Quem Quer Namorar com o Agricultor? SIC
Opinião. Porque queremos namorar com agricultores?