Os primeiros negros - Virginia Quaresma

Os primeiros negros. 13 nomes que marcaram a história de Portugal

Os registos, a cultura e o legado negro têm sido apagados ou “embranquecidos” ao longo da história. Em Portugal, já existiam pessoas negras muito antes de D. Afonso Henriques, mas ainda assim, a sua identificação em períodos mais antigos é difícil de encontrar.

De forma a apagar o mito pós-salazarista de “segunda-geração”, em que os negros são vistos como estrangeiros ou imigrantes recentes, o Espalha-Factos fez uma lista de 13 personalidades que deixaram a sua marca no país. Estas pessoas, esquecidas ou pouco mencionadas, são exemplos muito relevantes na história portuguesa.

José Maurício Nunes Garcia (1767-1830)

O primeiro nome da lista, e o mais antigo, é José Maurício Nunes Garcia, o primeiro compositor principal negro da corte portuguesa. Foi-o no Brasil, tendo servido D. Maria I e D. João VI. Considerado uma das principais figuras do Classicismo nas Américas, tornou-se sacerdote e mais tarde foi nomeado Mestre da Capela Real.

Ganhou fama de músico de grande prestígio pelo seu estilo musical, influenciado por Mozart e Haydn. Nunes Garcia escreveu mais de 240 peças musicais, que sobreviveram até hoje, contudo pelo menos 170 outras foram consideradas perdidas. A maioria de suas composições são obras sagradas, mas também escreveu algumas peças seculares, incluindo a ópera Le due gemelle e a Sinfonia da Tempestade.

Nunes Garcia sofreu de racismo e foi afastado do cargo pela ação de um compositor inferior, de nome Marcos Portugal, exatamente por ser negro.

José Mauricio Nunes Garcia

Dr. Sousa Martins (1843-1897)

O legado negro segue-se com Dr. Sousa Martins, um notável médico e professor universitário da antiga da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Sousa Martins foi o primeiro médico mestiço português a ter uma estátua, em Lisboa, no Campo dos Mártires da Pátria.

Devido à sua caridade face aos mais desfavorecidos e ao seu trabalho, na maioria dos casos, gratuito, exerceu uma forte influência sobre os colegas de profissão, os alunos e os pacientes que tratou. Esta influência tornou-o um “santo laico”, não só na época, como também atualmente, já que ainda lhe é prestado culto. Quando morreu, o rei D. Carlos disse: “Apagou-se a mais brilhante luz do meu reinado. Era um português de origem africana.”

Dr. Sousa Martins

Virgínia Quaresma

Virgínia Quaresma foi a primeira mulher negra que exerceu a profissão de jornalista em Portugal, na acepção que hoje lhe é reconhecida. Carregava consigo o peso de inúmeras discriminações: era mulher (condição que por si só a empurrava para um lugar marginal), negra e lésbica.

Para além disso, Virgínia Sofia Guerra Quaresma foi uma das primeiras licenciadas no país, ao concluir, em 1906/07, o Curso Superior de Letras, ano em que entrou no mundo do Jornalismo, e que ingressou n’O Jornal da Noite. Com vários anos de carreira, ficou conhecida sobretudo pelas suas reportagens.

Outras mulheres ao longo da história colaboraram com jornais, mas nunca entraram numa redação para escreverem. Entre elas, salientam-se D. Maria Amália Vaz de Carvalho, Guiomar Torrezão e Alice Pestana (Caiel).

Virginia Quaresma

João de Castro (1887-1955)

João de Castro foi o fundador da JDDA (Junta de Defesa dos Direitos de África) e o presidente do Partido Nacional Africano. Ficou marcado na História, em 1918, como o primeiro deputado negro da Primeira República, eleito pelo Partido Socialista Português (que não tem relação com o PS atual). Este era o partido mais à esquerda no espectro político da Assembleia e João de Castro foi o único representante do movimento socialista, operário e sindical. Em intervenções no parlamento, identificava-se como representante “socialista e indígena”.

João de Castro

Ayres de Menezes (1889-1946)

Ayres de Menezes foi o primeiro editor de um jornal negro lisboeta. Intitulado O Negro, foi o primeiro jornal para o público africano em Portugal, publicado em 1911. Na altura era apenas para estudantes, mas depois criaram-se outros jornais, nomeadamente o Voz d’África, também em Lisboa, e de que Ayres de Menezes foi editor durante anos.

Embora fosse editor, a sua a área de especialidade era a Medicina. Ayres de Menezes foi ainda o primeiro médico negro em São Tomé e Príncipe e uma figura política proeminente no começo do século XX, no então arquipélago português. Trabalhou também em inúmeras organizações de defesa dos interesses das populações africanas colonizadas por Portugal, entre elas, a Junta de Defesa dos Direitos de África, a Liga Africana e a Liga dos Interesses Indígenas de São Tomé e Príncipe.

Ayres de Menezes

 

Almada Negreiros (1893-1970)

Almada Negreiros é um exemplo “embranquecido” do legado negro em Portugal, ou seja, como nunca se mencionou a sua cor, as pessoas assumem que ele era branco. No entanto, Almada Negreiros foi o primeiro artista negro modernista português. Além disso, foi um artista multidisciplinar que se dedicou a várias artes plásticas, tanto ao desenho e à pintura, como à escrita, fosse ela um romance, poesia, ou dramaturgia.

Almada Negreiros

Guilherme Espírito Santo (1919-2012)

Guilherme Espírito Santo, ou Pérola Negra, deixou o seu legado em Portugal por ter sido o primeiro atleta negro a jogar na seleção nacional do país, em 1937, num jogo contra Espanha. Representou a equipa das quinas oito vezes, mas era pelo Benfica que jogava, tendo marcado 147 golos nos 207 jogos que fez.

Desportista nato, ingressou também no atletismo, onde foi recordista nacional do salto em altura, comprimento e triplo salto; e no ténis, que praticou até aos 83 anos, sagrando-se campeão nacional em terceiras categorias.

Guilherme Espírito Santo

Sinclética Soares dos Santos Torres (1928-2009)

É preciso recuar até 24 de abril de 1974 para encontrar Sinclética Torres, a primeira deputada negra no parlamento português, no tempo do Estado Novo. Foi-o por Angola, tornando-se conhecida pelas suas intervenções sobre o consumo de drogas no país.

Nessa altura, Sinclética Soares dos Santos Torres era uma das quatro deputadas à Assembleia Nacional. As outras eram Custódia Lopes, Maria de Lourdes Filomena Figueiredo de Albuquerque e Maria Ester Guerne Garcia de Lemos. Depois dela, só em 2015 voltou a haver uma deputada negra no parlamento, Nilza de Sena, do PSD.

Sinclética Soares dos Santos Torres

Eduardo Nascimento (1943-2019)

Em 1967, Eduardo Nascimento tornou-se o primeiro negro a vencer o Festival da Canção e o segundo a pisar o palco da Eurovisão, enquanto representava o país. Com o tema ‘O Vento Mudou, composto por Nuno Nazareth Fernandes, o português foi o quinto concorrente a subir ao palco, na capital austríaca. Ainda assim, o cantor somou apenas três pontos, colocando o Portugal em 12.º lugar, numa prova em que participaram 17 países.

Eduardo Nascimento

Adriano Parreira

Nos anos 60, a equipa do Telejornal passou a contar, regularmente, com Adriano Parreira, vindo de Angola, onde fez rádio durante vários anos. Assim, numa época em que se lançava a propaganda de que o país ia do Minho a Timor, tornou-se o primeiro, e até hoje único, apresentador negro do principal noticiário da RTP.

Em 2008, Adriano Parreira foi também eleito o primeiro académico africano membro da Academia Portuguesa de História.

Adriano Parreira

José Mussuaili (1968-)

José Mussuaili iniciou a sua formação em rádio, mas acabou por ter a sua primeira experiência de televisão na equipa fundadora da TVI, em 1993. Nesse ano, tornou-se o primeiro repórter negro da TV nacional, e mais tarde, em 1996, o primeiro pivô negro da TVI.

Depois de passar pelo quarto canal, José Mussuaili continuou o seu trabalho na SIC, onde lançou o programa Etnias, e mais tarde como pivô na Banda TV, um canal de cabo angolano.

José Mussuaili

Conceição Queiroz (1974-)

Nascida em Moçambique, Conceição Queiroz foi a primeira mulher negra a assumir o estatuto de pivô na TVI24, em 2015. Antes disso, em 1999, já se tinha tornado a primeira repórter negra num canal generalista, também na estação de Queluz de Baixo.

Com 27 anos de carreira, Conceição passou pela Rádio Clube Português e pelo grupo Semanário, tendo posteriormente ficado desempregada. Foi aí que decidiu tentar a televisão. Depois de ser rejeitada pela RTP África e pela SIC, foi no quarto canal que construiu o seu legado.

Conceição Queiroz

Relembra:

Francisca Van Dunem (1955-)

Em 2015, Francisca Van Dunem tornou-se a primeira mulher negra a chegar a ministra. Procuradora há mais de 30 anos, é atualmente a líder da Justiça de Portugal. Antes deste cargo, foi, durante oito anos, procuradora-geral distrital de Lisboa, responsável pelo maior dos quatro distritos judiciais do país.

Francisca Van Dunem

  1. Este artigo mostra na perfeição o racismo e a visão identitária a que os Estados Unidos, o Brasil e o Reino Unido sofrem e que se quer importar para Portugal. E a frase que melhor demostra isto é: “Almada Negreiros é um exemplo “embranquecido” do legado negro em Portugal, ou seja, como nunca se mencionou a sua cor, as pessoas assumem que ele era branco.”. O que interessa se Almada Negreiros era branco, negro, asiático…? ZERO! O que interessa é se as pessoas são talentosas na arte que praticam, se são competentes no seu trabalho. Se começamos a trazer este discurso identitário, e numa altura em que a extrema-direita cresce infelizmente no nosso país, só estamos a criar divisões na sociedade onde elas não existem e que não dizem nada ao comum mortal.

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