Carey Mulligan em 'Promising Young Woman' | Fotografia: Divulgação

Porque todos temos de ver ‘Uma Miúda Com Potencial’

Em 2016, Brock Turner, na altura estudante da Universidade de Standford, foi acusado de violar Chanel Miller, uma colega, durante uma festa. Channel estava inconsciente. Foram precisos dois alunos para afastarem Brock, que foi levado à polícia e libertado na mesma noite, após pagar uma fiança no valor de aproximadamente 125 mil euros. Em várias reportagens e notícias, Brock Turner era apresentado como um “promising young man” (um rapaz com potencial) – o próprio pai do estudante questionou o porquê de o filho ter a vida estragada por 20 minutos de “ação”. Brock foi condenado a seis meses de prisão. Cumpriu três.

O título do filme de Emerald Fennell, Uma Rapariga Com Potencial, não é inocente. Nele, acompanhamos Cassie, uma jovem que passa as noites a fingir estar bêbada. O descuido das pernas abertas e a maquilhagem borrada servem de convite a lobos em pele de cordeiro. Os homens aproximam-se dela com pretensões falsas. Agasalham-na e oferecem um ombro amigo até casa (deles), onde as segundas intenções finalmente se levantam. E é aí que Cassie se revela. Sóbria, confronta os homens com a sua podridão. Um dia da caça, outro do caçador.

uma rapariga com potencial
Fonte: Focus Features

Só mais tarde é que percebemos a razão pela qual Cassie passa as noites a engodar homens em bares e discotecas. À semelhança de Channel, a sua melhor amiga de faculdade foi violada inconscientemente por não um, mas vários colegas de curso. Todas as ações da nossa protagonista acabam por servir vingança pelo crime cometido contra a sua melhor amiga. E tudo culmina num último ato aterrorizante, onde o que mais nos surpreende é a eficiência das forças policiais.

E é também chocante o quão difícil foi para Emerald Fennell conseguir vender o pitch de Uma Miúda Com Potencial a produtores. “Histérica, irrealista, demasiado moralista“. Foram algumas das críticas que Fennell ouviu sobre o seu filme. A personalidade dupla de Cassie, boa menina durante o dia, caçadora de predadores sexuais durante a noite não era suficientemente objetiva. Mas, de facto, talvez só com narrativas assim, “engraçadas” até não o serem, é que o murro no estômago é sentido com mais força. E não há outra maneira de encarar este tipo de narrativas, que mostram com uma crueza incomparável situações que rezamos para que nunca nos aconteçam connosco e com os nossos.

Uma Uma Miúda com Potencial chega aos cinemas a 29 de abril.
Foto: Divulgação

Depois do ocorrido, a melhor amiga de CassieNina Fisher, desiste da faculdade de Medicina, um dos seus maiores sonhos de infância e é levada a um trágico fim. Os créditos entram e o grande ponto de interrogação paira sobre a sala: porque é que a sociedade sacrifica com tanta facilidade todas as “raparigas com potencial” que perderam a oportunidade de verem os seus sonhos tornarem-se realidade, que tiveram de viver a vida toda com o peso gigante do trauma às costas – que nunca mais conseguiram confiar em ninguém. Porque é que violadores podem cometer estes “20 minutos de ação” e seguir em frente?

Em 2019, Chanel Miller saiu do anonimato e lançou um livro, Know My Name: A Memoir a descrever a sua história e as consequências de ter enfrentado o processo enquanto “pessoa anónima”. Narra o seu encontro com os dois estudantes que a ajudaram. Conseguiu juntar forças para enfrentar e contar a sua história, mas há muitas pessoas que não vivem para, ou simplesmente não querem partilhar o seu trauma. E é por todas elas que também lutamos. E é por isso que Uma Miúda Com Potencial é uma visualização imprescindível: mostra-nos o quão importante é continuar lutar por e com todas aquelas que ainda enfrentam o peso deste trauma. Para podermos continuar de cabeça erguida, a vivermos o nosso potencial ao máximo.

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