Fotografia: TVI

Opinião. ‘Festa é Festa’ e novela… é novela?

Festa é Festa estreou e liderou. A nova novela da TVI prometeu fazer diferente e, desta vez, a promessa traduziu-se em resultados, talvez da forma mais expressiva desde que Cristina Ferreira assumiu o cargo de Diretora de Entretenimento e Ficção. Mas esta não é uma novela como as outras… ou é?

Assumidamente humorística, Festa é Festa deixa de lado os habituais dramas e tragédias de uma telenovela. No texto, aproxima-se mais de registos como os velhinhos Aqui Não Há Quem Viva!, Não Há Pai! ou Santos da Casa, ou não fosse Roberto Pereira o autor, que fez parte das equipas de guionistas de Os Contemporâneos, Desliga a Televisão ou dos mais recentes Ai a Minha Vida! e Patrões Fora.

A TVI apostou num autor de humor para enrolar e desenrolar as malhas de um novelo que, se nada se alterar, vai ter de tricotar as linhas do horário nobre até setembro. E, se os anteriores projetos do autor se revelaram moderados sucessos, os números da nova história do canal de Queluz têm somado pontos onde eles pareciam faltar até à última semana de um mês em que a SIC voltou a alargar a vantagem.

Mas com um autor que não é de novela, enredo e alguns atores que também não são de novela, é de uma novela que estamos a falar? Sim e não.

A trama é emitida diariamente, tem continuidade, não vive de episódios independentes, e as personagens vão crescer no ecrã ao longo dos próximos meses. A meio podem entrar novas personagens ou novos arcos narrativos, até pela eventual necessidade de a prolongar. E estas são caraterísticas que associamos a uma telenovela, por um lado.

Por outro, estas são personagens-tipo, caricaturas como ‘o presidente da junta‘, ‘o padre‘ e ‘o rapaz desastrado‘, mais próximos de um programa de sketches do que de uma telenovela, que partilham um mesmo espaço e ambiente, neste caso a aldeia, a “situação”, que associamos à de uma sitcom, e existe uma forte licença poética para tornar verosímeis situações que não o seriam numa história do quotidiano, sempre em prol de uma boa piada — como, por exemplo, ao termos dois filhos de emigrantes com os nomes Louis e Vuitton.

O encontro a meio caminho que se traduz em sucesso?

festa é festa
Foto: TVI/Divulgação

A proposta de Cristina Ferreira faz uma ponte entre a telenovela e a sitcom, mas deixa o espectador numa solução de compromisso. A linguagem visual é a da telenovela, aqui servida por uma edição mais rápida ou recursos visuais como balões, mas a história é a de uma sitcom, que é mais chamativa para um público que está desgastado pelo excesso de dramas (reais e ficcionais) e, ainda, para outros targets que preferem histórias mais ligeiras, consomem humor habitualmente e têm estado mais arredados das telenovelas.

Uma jogada de risco porque a trama, sendo menos densa, poderá ser vista com menor compromisso. Mas, ao mesmo tempo, esta é uma aposta em que também se optou pela segurança. Ao ser uma telenovela, e não uma sitcom pura, Festa é Festa reduz o potencial de rejeição ou estranheza por parte do público num horário ocupado, há mais de uma década, por telenovelas. Gota a gota, está a ser introduzida novidade, mas sem uma disrupção que possa assustar.

Na primeira semana da nova novela, Amor Amor, a aposta da SIC, ficou estacionada nos 13,6% de rating que tem de média anual — espectadores fidelizados, sem perdas de maior para a TVI. Então, de onde vieram os espectadores que permitiram ao canal de Queluz passar para o primeiro lugar?

Vieram do cabo, do streaming ou, ainda, de televisões que anteriormente não estavam ligadas. Numa altura em que se continuam a escrever histórias sobre o fim da televisão generalista, Festa é Festa trouxe entre 300 a 400 mil espectadores de volta à televisão generalista. O episódio mais visto da primeira semana teve, entre os espectadores dos 15 aos 34 anos, mais 100 mil do que o mais visto de Bem Me Quer, na semana passada.

E é precisamente nesta faixa etária que a vantagem sobre a concorrência é maior — na quarta-feira, 33,3% de share contra 19,1%. E isto faz sentido, ainda que à primeira vista possa parecer que não. Foi este o público que potenciou os conteúdos de humor no YouTube, no Spotify ou que, na ficção internacional, se viciou em How I Met Your Mother, The Big Bang Theory ou Brooklyn Nine-Nine. E, considerando a diferença de orçamento e qualidade entre as séries estrangeiras e esta telenovela, a verdade é que as séries de humor dignas desse nome têm sido uma ausência frequente nas apostas da SIC e da TVI. Até agora.

Se Festa é Festa se confirmar como um sucesso e mantiver os níveis da primeira semana ao longo de toda a sua duração, é possível que os stocks de gargalhadas se voltem a fazer ouvir no prime-time. Afinal, parece que O Futuro nos leva de volta ao tempo em que produtos como Os Malucos do Riso ou Os Batanetes eram o cinto de segurança numa grelha televisiva.

 

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