Foto: página oficial da Companhia Olga Roriz no Facebook

Olga Roriz: “A dança precisa de encontro, de toque, de aproximação”

No Dia Mundial da Dança, conversámos com a coreógrafa que está em contacto com este mundo há mais de 50 anos

Dia Mundial da Dança é celebrado esta sexta-feira, dia 29 de abril, com o objetivo de comemorar esta arte e a sua universalidade. De modo a marcar esta data, o Espalha-Factos conversou com a bailarina e coreógrafa Olga Roriz, que nos falou sobre a essência de uma forma de arte marcada pela fisicalidade, que a pandemia deixou “entre a espada e a parede”.

A dança é, como destaca Olga Roriz, uma “arte do coletivo” que precisa “de encontro, de toque, de aproximação, de uma fisicalidade forte”. A pandemia de Covid-19 que se instalou no mundo tirou-lhes algumas das coisas mais importantes para continuar a fazer o que mais gostam, para o qual é importante “estar em grupo, respirar uns para cima dos outros, não usar máscara”.

“Precisamos de espaço para poder mexer”

O vírus chegou e obrigou a fechar portas. Tal como todos os portugueses, os bailarinos tiveram de ficar fechados em “casas maiores ou mais pequenas, mas com muitas paredes, muito pouco espaço”, reflete a coreógrafa. A dança perdeu assim o seu fator coletivo, que Olga Roriz apresenta como um dos aspetos mais importantes para estes artistas. “Claro que podemos dançar a solo. Claro que podemos estar sozinhos, mas nós precisamos do coletivo, não só no sentido de estarmos juntos, mas precisamos de infraestruturas, precisamos de espaço para poder mexer”, revela. “Uma das coisas mais importantes para nós é o espaço, o tempo, o nosso corpo no espaço, o podermos libertar esse corpo e este confinamento tem-nos fechado”, acrescenta.

Olga Roriz Dia Mundial da Dança
Fotografia: página oficial de Olga Roriz no Facebook

Toda esta situação deixou os bailarinos “entre a espada e a parede”. Por um lado, a artista acredita que “toda a gente é consciente daquilo que se pode fazer”. No entanto, não é possível esconder, no momento em que vivemos, “o receio e a responsabilidade das próprias instituições”. “No fundo, nós todos não sabemos muito bem o que é que se está a passar”, afirma.

Para a Companhia Olga Roriz, o desafio foi ligeiramente facilitado pelo facto de terem três estúdios no seu espaço. “Nesse aspeto realmente somos privilegiados, eu tive a possibilidade de ter os bailarinos divididos por horários, cada bailarino a trabalhar no seu estúdio, e eu depois via os vídeos, o trabalho que foi feito diariamente”, revela a diretora artística.

“Não queremos estar nesse vazio”

O mesmo privilégio não esteve presente para muitas companhias, grupos e escolas de dança, que realmente tiveram de suspender a atividade. A falta de trabalho e as crescentes dificuldades trazidas pela pandemia deixaram em aberto a ferida já existente na dança e no setor cultual em geral. “Essa ferida já existia, mas será que sangrava? Talvez não sangrasse, não tinha essa abertura pública do mau estar, o que está mal vem agora eventualmente ao de cima. Isso são mudanças muito de base, não são básicas, nada é básico, mas são mudanças muito de base, realmente”, adianta Olga Roriz.

Olga Roriz Dia Mundial da Dança
Fotografia: página oficial de Olga Roriz no Facebook

A perda de trabalhos, as tentativas de ajudar financeiramente os bailarinos com “orçamentos curtos e limitados” e a confusão de não saber se os espetáculos vão para a frente ou ser cancelados aliam-se ainda a uma altura “de uma intensidade psicológica também muito forte”“Não é só o problema de não termos o nosso trabalho, que é uma coisa que nós gostamos, ainda por cima estamos a falar de artistas, que é a nossa respiração, a nossa alimentação é a criação, a execução, a interpretação, o pensamento, o estarmos juntos e o coletivo. Tudo isso nos põe num local onde não queremos estar. Não queremos estar nesse vazio”, explica a coreógrafa.

“O público não quer entrar numa sala e ouvir falar sobre a pandemia”

Depois de um segundo confinamento geral, a cultura em Portugal voltou a abrir portas no dia 19 de abril, ainda a tempo para celebrar este Dia Mundial da Dança. Esta celebração, adianta Olga Roriz, deve afastar-se, de certo modo, do “lado político e social que a arte tem de manifesto e de revindicação” e dar lugar ao prazer. “A sensação que eu tenho agora, às vezes, é que o público não quer entrar numa sala e ouvir falar sobre a pandemia ou ver qualquer coisa que tenha a ver com a pandemia. O público quer regozijo, acho que quer respirar fundo, quer estar numa sala grande, quer que feches as luzes e que o façam viajar, que o façam sonhar, que o façam ir para outro local”, declara a bailarina.

Agora é então o momento, assinala a artista que está a preparar uma nova criação que “é um rejubilar” que começou pelo erotismo, de “deixarmos as nossas introspeções para um pouco mais tarde, deixarmos perceber quando isto tudo acalmar que feridas é que deixou, que marcas é que nos deixou e, agora, estarmos um bocadinho mais libertos”“É, no fundo, como aqueles países cheios de pobreza, cheios de fome, e que cantam e dançam os rituais da primavera e não pensam em mais nada. Eu acho que é isso que nós precisamos agora, é que a dança nos possa trazer a beleza, a alegria e a poesia que não está a ser retirada diariamente”, reflete a coreógrafa.

“Tem que haver realmente uma grande mudança”

Num ambiente de para e arranca que assola todo o setor cultural, cria-se o espaço para a mudança. Para Olga Roriz, uma das mudanças necessárias no mundo da dança é a de criação de “mais condições para os bailarinos”“Os bailarinos não podem continuar a ter esta situação precária que têm, têm que ter contratos de trabalho, têm que ter outras condições. Eventualmente não um contrato de trabalho como nós o conhecemos, eventualmente de uma outra forma. Isso tem que acontecer. Não podemos continuar assim”, reflete.

Fotografia: página oficial de Olga Roriz no Facebook

Toda esta mudança para, segundo a artista, por um grande aumento no financiamento e de políticas culturais, que ajude a melhorar as programações e as redes de teatros equipados. Não quero dizer que a economia vai resolver o problema da Cultura, mas uma política de economia pensada como deve de ser, acho que poderia ajudar, porque com condições de trabalho as coisas depois acabam por acontecer”, afirma a coreógrafa.

Por outro lado, Olga Roriz destaca uma necessidade de mudança nas escolas e respetivas programações. “Não digo que, neste momento, já há 50% de escolas contemporâneas e 50% de escolas clássicas, porque não há. Sendo que nós só temos uma companhia de dança clássica no país, não faz muito sentido, ou não faz sentido nenhum”, declara. Para a diretora artística, seria importante criar “conservatório mesmo vocacionado para dança contemporânea e com uma outra programação completamente diferente, com uma outra visão da dança completamente diferente que não a que existe”.

A celebrar esta “arte do coletivo”, celebra-se também o seu papel na sociedade, as conquistas já feitas e as que ainda estão por vir. No entanto, este é um momento, finaliza Olga Roriz, de “tranquilizar e perceber que, se tivermos um bocadinho de calma agora, eventualmente as coisas correm bem. Se não tivermos calma, pode não correr muito bem. Já tivemos esse exemplo”.

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