Fotografia: Sophie Giraud/ Hulu

Crítica. ‘The Handmaid’s Tale’ e a incessante busca por liberdade, justiça e vingança

The Handmaid’s Tale está de volta. A partir desta quinta (29), a NOS Play disponibiliza os primeiros três episódios da nova temporada da série, que é a quarta. O regresso após dois anos de hiato. 

The Handmaid’s Tale é baseada no romance da autora canadiana Margaret Atwood, um livro que foi praticamente “usado” na totalidade nos episódios da primeira temporada. Posteriormente, o produtor da série, Bruce Miller, teve que “ultrapassar às páginas do livro” para poder dar continuidade à história.

O livro já vendeu milhões de cópias em todo o mundo, consagrando Atwood como uma das mais influentes escritoras da atualidade. Esta é uma história de intenso teor político que relata uma sociedade distópica, onde as mulheres perdem praticamente todos os seus direitos e se tornam “objetos”, vítimas de um regime machista e totalitário. Para a autora, a obra, que é considerada “ficção”, não fica nada distante da nossa realidade, apesar de estarmos no século XXI e o livro, que pode ser visto como “atemporal”, tenha sido lançado em 1985.

E o que é uma sociedade distópica?

“Um lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação”. Neste caso, a série retrata a privação e a opressão vivida por várias mulheres, ao serem desprovidas de seus direitos.

Seria então Handmaid’s Tale uma série que retrata um pouco a nossa realidade? Os dados comprovam que sim. De acordo com um recente estudo divulgado pela ONU, apenas metade das mulheres são donas do próprio corpo. O relatório da My body is my own, do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) diz que apenas 55% das mulheres não são alvos de violência ou coação.

A série de maior sucesso da Hulu tem, por isso, um papel importante para alertar para a urgência da luta feminista e fazer uma crítica direta ao sexismo. E tem o conseguido sendo uma das histórias mais surpreendentes atualmente em exibição na televisão mundial.

Os parágrafos que se seguem contêm informações relevantes sobre a ação dos primeiros quatro episódios da nova temporada, considerados spoilers para quem não os viu.

Como terminou a terceira temporada?

Fotografia: Divulgação/Hulu

A terceira temporada girou em torno de June Osborne (Elisabeth Moss) e sua resistência ao regime distópico e cruel de Gilead. O público torceu pela protagonista que, enfim, conseguiu conquistar um grande feito, mesmo que não totalmente, como se imaginava.

No último episódio, intitulado de “Mayday”, vemos June juntamente com várias Servas e Marthas, a chegar ao avião que iria transportar dezenas de crianças para o Canadá, para que assim possam “viver em liberdade”. Contudo, June e outras colegas de luta tiveram que distrair os guardas para que as crianças e algumas de suas amigas pudessem chegar em segurança ao avião e, só assim, conseguir o que tanto queriam.

Mas porque June não foi com elas? O que a prendia em Gilead? A sua filha mais velha, Hannah, e a sua batalha para libertar aqueles que ainda ficaram. Foi, de certa maneira, um final idealizado por muitos, ao mostrar que o esforço e as vidas perdidas serviram para um propósito maior: salvar aquelas crianças de um futuro de privações e maus-tratos.

O que podemos esperar da  quarta temporada? Luta. June vai dar continuidade à revolução de dentro para fora, à busca pela filha Hannah, e à salvação de muitos e dela mesma.

Liberdade, justiça e vingança são as palavras da quarta temporada

“Nolite te bastardes carborundorum – Não deixes os bastardos oprimirem-te”. Esta frase, encontrada no closet da personagem June, serve como força motriz da série, e não seria diferente nesta nova temporada. Ao conseguir atingir o seu objetivo, que foi de transportar, em segurança, as mais de 80 crianças para o Canadá, June e as suas amigas viram a luz no fim do túnel, daquilo que no início da série seria quase impossível.

Elas sabiam que esta atitude seria uma afronta da maior gravidade, mas não tiveram medo. Aliás, medo não tiveram mais e isso ficou explícito nos primeiros episódios. Toda a  opressão sofrida inicialmente levou a história a um rumo: vingança.

June que, no final da temporada anterior, se feriu gravemente ao ajudar com a fuga das crianças, é resgatada pelas amigas Handmaid´s  e, juntas, refugiam-se numa fazenda. Ao restabelecer-se, a protagonista retoma o seu posto de líder e começa a articular os próximos passos, mesmo sabendo que não será nada fácil.

Fotografia: Sophie Giraud/ Hulu

No centro de tudo, temos uma Tia Lydia (Ann Dowd) que não aceita, de forma nenhuma, ter perdido “as suas crianças” diante dos olhos de todos e da segurança, até então “impossível” de se quebrar, de Gilead. Além do mais, o casal Waterfords (Joseph Fiennes e Yvonne Strahovski) que estão sob custódia do governo canadiano, mostraram-se espantados com o feito de June.

Ao partir do princípio de que, nas primeiras temporadas, tivemos uma Gilead firme e ameaçadora, este ato de coragem por parte de June, as Handmaid´s e Marthas foi uma afronta. Inclusive, foi uma surpresa para todos os fãs. Mostrou-nos que a fortaleza que foi construída, na verdade, não era indestrutível.

Restabelecida, June retoma o seu plano de vingança, antes de se refugiar noutro lugar para que não fossem capturadas pela guarda de Gileard. Enquanto isso, o comandante Lawrence (Bradley Whitford), importante personagem que tem ajudado June, encontra-se preso e a tentar evitar sua sentença de morte, por tê-la acobertado.

Lawrence não é o único que está a sofrer as consequências por ter ajudado June. Os seus amigos, que estão em Toronto, tentam restabelecer a vida das crianças que para lá foram enviadas, pois até então viviam sob as rédeas daquelas famílias que acreditavam ser suas. E, para completar, temos um Luke (O. T. Fagbenle) a lutar pela segurança de June, tentando intervir através do Consulado Americano, mesmo à distância e, ao mesmo tempo, tendo questionamentos acerca do que motivou a não vinda de June para o Canadá.

Contudo, mesmo com toda a ajuda que estava a receber, June acaba por ser capturada pela guarda e, para a satisfação de Tia Lydia e de muitos, sofre – e muito – nas mãos daqueles que a querem destruir. Não esperava ela que a máxima dor psicológica estaria por vir e a faria entregar os seus aliados, de vida e de luta.

Fotografia: Sophie Giraud/ Hulu

Não se dando por vencida, ela encontrará um jeito de fugir e, mais uma vez, ao lado daqueles que não largaram a sua mão, mesmo quando em vários momentos suas decisões custaram a perda de vidas, direitos e paz. A busca por vingança, pela justiça daqueles que sofreram e ainda sofrem nas mãos desses totalitaristas, não acabará tão cedo.

Elisabeth Moss, a protagonista, produtora e realizadora

A grande novidade dessa temporada fica a cargo de Elisabeth Moss que depois de trabalhar na produção da série, irá assumir a realização de três, dos dez episódios da quarta temporada. Ao The Hollywood Reporter ela falou, com ansiedade, da nova experiência: “Estou emocionada por ter essa oportunidade pelos meus parceiros Bruce Miller e Warren Littlefield e por ter o apoio de todos os nossos produtores, do Hulu e da MGM”.

Moss ressaltou ainda a gratidão, o quanto aprendeu durante estes anos e a responsabilidade da sua nova função: “Significa muito para mim e eu não assumo a responsabilidade levianamente. A liderança e a produção executiva desse programa nos últimos três anos foram uma alegria e eu tive o presente incrível de aprender tanto com os realizadores que tivemos. Mal posso esperar para trabalhar com meus colaboradores sob essa nova perspetiva, porque tenho a sorte de ter o melhor elenco e equipa do mundo”.

Fotografia: Sophie Giraud/ Hulu

Bruce Miller, o showrunner da série, encheu de elogios a atriz e acredita piamente no seu sucesso como realizadora: “Como produtora executiva do programa, ela promoveu um ambiente de apoio que permite aos artistas fazerem seu melhor trabalho. A própria Elisabeth agora está a beneficiar dessa atmosfera incrivelmente generosa e ambiciosa que ajudou a criar. Ela é um talento extraordinário, uma trabalhador incansável – tenho a certeza que ela vai arrasar com a sua estreia na realização”.

Elisabeth Moss trouxe a atmosfera da primeira temporada, que estava “adormecida”, ao mostrar o real sentido da série – ao procurar por justiça – que sentimos falta na segunda e terceira temporada.

A luta contínua das mulheres em busca de direitos

Esta nova temporada inflamou, ainda mais, a busca por igualdade de direitos das mulheres que, mesmo em países que se dizem “livres” e “igualitários” – como no caso da série, o Canadá – ainda são uma classe em desvantagem, quando procuram garantias. Em Gilead, todos os direitos das mulheres são privados e, o que mantém a série relevante é a união, a luta por justiça, mesmo no meio do caos, a busca por liberdade. A união estabelecida entre as Handmaid´s e as Marthas é bonito de se ver – a sororidade entre essas mulheres, a cumplicidade nos pequenos detalhes e os laços eternos daqueles que buscam algo em comum.

A liberdade também é uma construção interna e percebemos isso ao vermos, por exemplo, a personagem Rita (Amanda Brugel) que, mesmo ao conseguir a sua liberdade quando fugiu para Toronto com as crianças, ela depara-se com o medo, com a aceitação, com um lado dela que ela havia esquecido, mesmo ao restabelecer o seu direito de ir e vir, ela questiona-se se aquilo que está a fazer é o certo. É doloroso e real.

Ao mesmo tempo que vemos essa construção daqueles que estão “libertos”, deparamo-nos com a dura realidade de Gilead e o tratamento desumano, doloroso e aterrorizante sofrido por aqueles que ainda procuram pela liberdade, em todos os aspetos da palavra. A luta é contínua e acreditamos que o desfecho dessa história nos vai surpreender. The Handmaid´s Tale reencontrou sua identidade e provou que a dor e o sofrimento podem se transformar em força e busca por justiça.

Além de Miller, Littlefield e Moss, a produção executiva de The Handmaid´s Tale conta com Daniel Wilson, Fran Sears, Eric Tuchman, John Weber, Frank Siracusa, Sheila Hockin, Kira Snyder e Yahlin Chang. A série é produzida pela MGM Television e distribuída internacionalmente pela MGM. 

O elenco da série protagonizada por Moss, inclui ainda nomes como Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, Samira Wiley, Alexis Bledel, Ann Dowd, Max Minghella, Madeline Brewer, OT Fagbenle, Amanda Brugel e Bradley Whitford.

Depois de dois anos e muita expectativa dos fãs, a nova temporada vencedora de vários prémios Emmy, Globo de Ouro, entre outros, entra na sua quarta temporada. Em Portugal, a estreia está marcada para esta quinta-feira (29) na NOS PLAY, com os três primeiros episódios. Posteriormente, vão ser disponibilizados um episódio a cada semana. Podes também assistir às temporadas anteriores na plataforma.

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