Festa é Festa é a nova novela da TVI. Em cena, Inês Herédia e Pedro Teixeira
Fotografia: TVI / Divulgação

‘Festa é Festa’: Uma sitcom em formato de novela

Longe vão os tempos em que o horário nobre da TVI tinha apostas como os Os Batanetes ou O Prédio do Vasco. No entanto, esta segunda-feira à noite (26), a comédia regressou aos ecrãs do canal de Queluz com Festa é Festa.

Uma ideia original da TVI e escrita por Roberto Pereira, Festa é Festa é a mais recente aposta para destronar a hegemonia da ficção da SIC. Anunciada com pompa e circunstância, por Cristina Ferreira, como “o cruzamento entre a ficção e a realidade, um regresso à vida e ao pós-pandemia”, a trama acompanha a vida dos moradores da Aldeia da Belavida, na preparação da festa anual. Uma comemoração, que é de todos, e que representa todas as festividades que decorrem no nosso país e que foram impossibilitadas de se realizar, dado o contexto.

As novelas da estação sempre foram conhecidas pela carga emocional pesada e, mesmo Bem Me Quer, que tem uma abordagem jovem e fresca, acaba por ser uma comédia com o drama muito presente. Por isso, esta aposta numa telenovela em que a comédia tem o papel principal e se superioriza a qualquer outra característica, acaba por ser uma jogada de risco por parte do canal. Ao acompanharmos as situações caricatas do dia a dia das personagens e com recurso ao uso excessivo do humor, transmite-nos a ideia de estarmos a assistir a um episódio de uma sitcom, no qual só faltou a introdução dos risos gravados.  

Personagens em aprofundamento

Festa é Festa. Fernando (Manuel Marques) é chefe de uma família emigrante
Fotografia: TVI / Divulgação

Com um elenco recheado de caras conhecidas, que contempla alguns regressos à televisão e apadrinha a estreia de novas gerações, é importante realçar, que como acontece com qualquer personagem cómica, os atores vão precisar de mais algumas semanas para aprofundarem os seus personagens. À medida que os episódios e a história forem avançando, os chavões e as suas características mais acentuadas já vão estar identificadas e a fazer parte do nosso dia a dia. Pedro Alves, Manuel Marques, Sílvia Rizzo e Ana Guiomar têm especial destaque nesta questão e é possível que seja deste grupo que saiam os momentos mais hilariantes de cada episódio. 

Ainda assim, alguns atores em nada se assemelham à realidade de um habitante de uma aldeia. Uma vez mais, o problema da centralização do país nas grandes cidades, faz com que quando se queira representar aldeias de outras regiões, não se conheça a realidade ali vivida, acabando por ir ao exagero, tornando tudo muito teatral e caindo no ridículo.

Antes da estreia desta novela, muito se falou numa comparação a Amor Amor, da SIC. No entanto, apesar do cariz popular, estas são histórias muito diferentes e as semelhanças são muito poucas. A novela da SIC tem a música como pano de fundo e temáticas mais pesadas. Ao passo que a da TVI se desenrola à volta da preparação de uma festa e da choruda herança de uma quase centenária. 

No que toca aos aspetos técnicos, não há um cuidado extra com a realização, nem com os cenários. Neste capítulo, parece ser aquilo a que já estamos habituados, porém essa despretensão pode ser um ponto a favor neste caso concreto, trazendo simplicidade à novela. Já a banda sonora parece sair direta de uma festinha de aldeia e acaba por ser uma mais valia e um fator de complementaridade com a história. 

A partir deste parágrafo são introduzidos detalhes sobre a narrativa que podem constituir spoilers para quem não viu o primeiro episódio.

O primeiro episódio apresentou-nos várias personagens, com destaque para a quase centenária Corcovada (Maria do Céu Guerra), com um português abrasileirado peculiar e o seu ritual matinal, um shot de cachaça. Bem como, o presidente de todas as instituições da aldeia, o Bino (Pedro Alves) e ainda o casal de emigrantes (Manuel Marques e Sílvia Rizzo) de ‘Paris da França’ e os seus filhos Louis e Vuitton (Valdemar Brito e Beatriz Costa). 

Pela negativa, importa destacar que não houve uma preocupação por parte da produção em tornar Paris o mais próximo da realidade, sendo colocado apenas um letreiro em francês numa rua de Sacavém. A novela está repleta de clichés e todos eles estão representados de forma exagerada, com a menina rica que não se adapta ao interior (Beatriz Barosa), o galã trapalhão (Rodrigo Paganelli), a mulher (Ana Brito e Cunha) que tem um encanto pelo padre (Carlos Cunha), a secretária atiradiça (Ana Marta Contente) e o pombo correio da aldeia (Pedro Teixeira).

Ao contrário do que estamos habituados nas telenovelas portuguesas, este episódio não contou com saltos temporais, nem teve as habituais cenas dramáticas. Sem nenhum nascimento, nem anúncio de gravidez, o cliffhanger trouxe-nos um pequeno acidente, que acabou com litros de leite a voar. 

Se por um lado esta história popular pode funcionar, como o recordar das festas da aldeia, com o passar dos episódios e o habitual excesso de cenas em interior, a novela poderá perder essa característica e, como tal, a leveza que tanto apregoa. A somar a isto, a tentativa constante de fazer humor, acaba por ter o sentido inverso e torna muitas das cenas constrangedoras e embaraçosas.

Por outro lado, o propósito de fazer rir, de descontrair e esquecer os dramas habituais, diferente do que a concorrência oferece (comparação com tramas mais pesadas), pode ser um aliado muito importante. Resta esperar. Tem a decisão o público português.  

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