Jessica Lange venceu um Óscar, mas grande parte do público parece desconhecer esse facto.
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Óscares. Os vencedores que o tempo esqueceu

Chegou a altura do ano preferida de qualquer amante de cinema. A cerimónia dos Óscares realiza-se este domingo, 25 de abril, e terá uma transmissão especial na RTP1. Mas antes, o Espalha-Factos preparou-te uma lista dos vários vencedores que ficaram esquecidos no tempo. 

A cerimônia, que acontece de forma anual, pretende premiar aqueles que se destacaram no mundo do cinema no ano transato, escolhendo de forma sensata, com base no mérito e na qualidade de cada nomeado. Contudo, isto nem sempre é o caso, e por isso mesmo, alguns vencedores de Óscares que acabaram esquecidos no tempo. O Espalha-Factos preparou uma lista de vários destes casos, que acabaram esquecidos por várias razões.

Jessica Lange (Melhor Atriz Secundária, Tootsie, 1983)

Jessica Lange na cerimónia dos Óscares de 1983 (IMDB)

Hoje em dia, Jessica Lange é mais conhecida no público mais jovem pela sua participação nas várias temporadas de American Horror Story e na primeira temporada de Feud, encarnando a poderosa Joan Crawford, mas em tempos, a atriz americana era uma das individualidades com mais potencial e popularidade da indústria, estando um pouco por todo o lado.

Em 1983, contra todas as probabilidades, acabou por vencer o seu primeiro Óscar pela sua participação na comédia, Tootsie, um filme onde ela… está apenas lá. Não há por onde se pegue na sua performance e acabou por roubar o Óscar a Glenn Close, algo que ainda nos atormenta hoje em dia. Acabou por ser nomeada mais cinco vezes, voltando a ter sucesso em 1995 com Blue Sky mas a triste verdade é que as vitórias de Jessica Longe nas cerimónias da Academia são desconhecidas por muitos. 

Dance With Wolves (Melhor Filme e Melhor Realizador para Kevin Costner, 1991)

Kevin Costner e os seus dois troféus
Kevin Costner e os seus dois troféus na cerimónia de 1991 (IMDB)

Sempre deu a ideia que a Academia, por algum motivo, nunca gostou muito de Martin Scorsese e a cerimónia de 1991 é um o principal exemplo disto. O famoso realizador chegou a esta cerimónia com a sua obra prima, Goodfellas, um daqueles filmes que ainda é falado hoje em dia com uma influência gigantesca em praticamente tudo o que é feito nos tempos correntes. Contudo, perdeu os prémios mais importantes para… Dance With Wolves

Kevin Costner, um ator veterano que se estreava aqui na cadeira de realização, acabou por ter o maior sucesso da noite vencendo Melhor Filme e Melhor Realizador, contra todas as expectativas. Afinal de contas, seria de esperar que um western épico de mais de 3 horas fosse mais apelativo que um filme de máfia onde nem se dá pelo tempo passar? Aparentemente sim, contudo, Dance With Wolves é um filme perdido que pouca gente ainda vê… o mesmo não se pode dizer de Goodfellas. 

Forrest Gump (Melhor Filme, 1995)

Forrest Gump continua a ser um dos filmes mais falados de hoje em dia, com a tocante performance de Tom Hanks a ser uma inspiração para muitos aspirantes a ator. Mas sabiam que, em 1995, acabou por vencer o Óscar de Melhor Filme e Melhor Realizador contra o poderosíssimo Pulp Fiction de Quentin Tarantino?

1994 é, para muitos, como o melhor ano do cinema nos tempos modernos e a categoria de Melhor Filme era um autêntico luxo: tínhamos Forrest Gump, The Shawshank Redemption, Quiz Show, Pulp Fiction e Four Weddings and a Funeral,  com o prémio a ser vencido pelo primeiro. Foi uma surpresa na altura e é uma vitória que acabou esquecida porque tanto Pulp Fiction como The Shawshank Redemption acabaram a ter derrotas que são muito mais lembradas. 

Shakespeare In Love (todos os prémios que venceu, 1999)

Os produtores de Shakespeare in Love e Gwyneth Paltrow com os seis Óscares obtidos na cerimónia de 1999. (Facebook)

Estamos em 1999 naquela que foi uma das mais polémicas cerimónias de todos os tempos. Neste ano aconteceu o começo da propaganda e do lobby que hoje se faz para tentar que certo filme vença contra todas as expectativas, numa campanha em massa conduzida por Harvey Weinstein. 

Acabou por vencer 7 estatuetas, incluindo: Melhor Atriz para Gwyneth Paltrow, numa categoria com performances de Cate Blanchett, Meryl Streep, Emily Watson e Fernanda Montenegro que ainda são celebradas hoje em dia; Melhor Argumento Original, levando de vencido La Vita è Bella, Saving Private Ryan e The Truman Show, três filmes que dispensam apresentações; e, o mais surpreendente de todos, Melhor Filme, contra Saving Private Ryan, The Thin Red Line, La Vita è Bella e Elizabeth. Todos eles acabaram por ser mais celebrados por terem perdido do que Shakespeare In Love por ter ganho, que acabou esquecido por todos. Para a história, fica a expressão facial de Harrison Ford, que não consegue esconder a frustração ao anunciar o vencedor do prémio de Melhor Filme.

Adrien Brody (The Pianist, 2003)

Chegamos à cerimónia de 2003, um ano que viu Martin Scorsese mais uma vez injustiçado, perdendo o prémio de Melhor Realizador para um Roman Polanski fugido da justiça e Melhor Filme para Chicago, ainda que seja mais ou menos merecido neste caso. No entanto, o destaque da noite foi para Adrien Brody.

O americano era um relativo desconhecido, sendo mais famoso por ter sido excluído quase na totalidade do filme The Thin Red Line e só ter descoberto na noite de estreia que, afinal, não era o protagonista do filme. Adrien chegava a esta cerimónia nomeado por The Pianist, um filme pesado sobre o Holocausto, e lutava contra quatro pesos pesados: Nicholas Cage, pela sua dupla performance lendária em Adaptation, Michael Caine, por The Quiet American, o favorito de todos Jack Nicholson, por About Schmidt, e Daniel Day Lewis, um dos melhores atores de sempre, por Gangs of New York.

Para espanto de todos, Adrien Brody sacou uma vitória histórica contra quatro lendas e beijou Halle Berry quando foi buscar o seu prémio, num momento que é mais lembrado do que a vitória em si. O ator acabou esquecido e foi posto numa lista negra metafórica porque, segundo dizem, “tentou subir alto demais” depois de conquistar o seu Óscar, sendo hoje um momento esquecido pela maior parte. 

Crash (Melhor Filme, 2005)

Não é que a vitória de Crash tenha sido esquecida porque o tempo assim o ditou. Simplesmente toda a gente fez o máximo de esforço possível para que esse acontecimento desaparecesse dos anais da história. 

Levando de vencido Brokeback Mountain, um filme importante por todos os motivos e mais alguns, Crash venceu um prémio contra todas as previsões e foi um momento de polémica que levantou muita poeira na altura. Hoje em dia ninguém fala do filme, sendo mais um caso em que o filme perdedor ficou com muito mais fama. Tal como Harrison Ford a anunciar Shakespeare In Love, é de salientar o desapontamento de Jack Nicholson a anunciar o vencedor.

Kate Winslet (Melhor Atriz, The Reader, 2009)

Kate Winslet a discursar depois de vencer o Óscar de Melhor Atriz em 2009 (Facebook)

Numa cerimónia emocional para muitos dos presentes, os Óscares de 2009 foram mais marcados pela vitória póstuma de Heath Ledger, algo que acabou por ofuscar boa parte dos vencedores desta noite. Conseguem lembrar-se de mais de 3 vencedores nesta noite? É mesmo difícil, e não é por falta de qualidade dos nomeados. 

Kate Winslet venceu principalmente um prémio que lhe foi escapando ao longo da carreira depois de interpretar mulher judia no filme The Reader. Infelizmente é uma vitória que ninguém sabe que aconteceu porque, mais uma vez, ninguém se lembra desta cerimónia. Slumdog Millionaire a vencer o Óscar de Melhor Filme? Tempos estranhos na Academia. 

The King’s Speech (Melhor Filme, Melhor Realizador para Tom Hooper, Melhor Argumento Original, 2011)

O início da década foi estranho para a Academia, onde boa parte dos perdedores acabaram por ser muito mais lembrados do que o vencedor. 2011 é o melhor exemplo disto. Na categoria de Melhor Filme temos Inception, Black Swan, Inception, Toy Story 3, True Grit, 127 Hours e The Social Network e o vencedor foi… The King’s Speech?

Numa daquelas decisões que não cabe na cabeça de ninguém, a Academia deu praticamente todos os Óscares que podia dar a The King’s Speech, em vitórias que ainda hoje não são compreendidas por absolutamente ninguém. Claro que acabou esquecido, sendo apenas lembrado aqui e ali por ser um dos piores vencedores do Óscar de Melhor Filme de sempre, assim como uma das piores atribuições do Óscar de Melhor Realizador na história da Academia, vencido por Tom Hooper

The Artist (tudo o que ganhou, 2012)

Existem duas coisas certas na Academia: eles não gostam de Martin Scorsese e, acima de tudo, adoram dar Óscares a filmes sobre filmes. The Artist foi o primeiro a preto e branco a ganhar desde 1993, ano do poderoso Schindler’s List, e, por incrível que pareça, foi apenas o segundo filme mudo a vencer o prémio. 

Lutando contra projetos como Hugo, Moneyball ou The Tree of Life, The Artist levou para casa o prémio de Melhor Filme, Melhor Realizador, vencido por Michel Hazanavicius contra Martin Scorsese, Terrence Mallick e Alexander Payne, e Melhor Ator, conquistado por Jean Dujardin, um ator francês que competia contra George Clooney, Brad Pitt e Gary Oldman

The Artist conseguiu esta proeza de uma maneira que ainda hoje não é conhecida e nunca será conhecida, uma vez que ninguém se lembra sequer que esse filme existe. 

Argo (Melhor Filme, 2013)

No nosso roteiro pelos vencedores de Óscares que acabaram esquecidos do início da década passada, não nos poderíamos esquecer da vitória de Argo, um filme que até tem qualidade mas que acabou por ser esquecido por todos. 

Realizado e protagonizado por Ben Affleck, um nome pouco adorado por Hollywood, o que por si só já torna a vitória surpreendente, Argo venceu nomes que viriam a tornar-se filmes adorados por todos, muito mais do que Argo alguma vez será. A categoria continua nomes como Django Unchained, Life of Pi, Lincoln, Zero Dark Thirty ou Amour, filmes que perderam com a glória de um vencedor.

Spotlight (Melhor Filme, 2016)

Mark Ruffalo e Tom McCarthy a celebrar a vitória de Spotlight na categoria de Melhor Filme (Facebook)

Felizmente, a cerimónia dos Óscares de 2016 é uma daquelas onde nem nos podemos queixar muito. A vitória de Spotlight foi mais que merecida assim como boa parte dos vencedores de outras categorias… mas sendo assim, como é que acabou esquecido?

A matemática é simples. Spotlight, um filme calmo, frio, pouco agitado, venceu nomes como Room, The Revenant (o claro favorito na altura), Mad Max: Fury Road (já um dos filmes mais populares de sempre) e The Big Short. Infelizmente, Spotlight, com todas as suas qualidades, acabou por ser ofuscado apenas e simplesmente porque os seus opositores eram mais espetaculares, mas quem se lembra sabe que continua a ser uma das vitórias mais surpreendentes e corajosas dos Óscares nos últimos anos. 

The Shape of Water (Melhor Filme, 2018)

O elenco de The Shape of Water e a equipa de produção enquanto Guillermo De Toro discursa depois da vitória do Óscar de Melhor Filme (Divulgação)

De vez em quando, a Academia demonstra coragem e dá Óscares mais fora da caixa do que o normal. The Shape of Water, de Guillermo Del Toro, é um dos exemplos mais famosos disso, mas que, infelizmente, pela sua qualidade (ou falta dela) merecia ser mais lembrado do que é hoje em dia. 

Tal como muitos nomes nesta lista, o filme acabou esquecido porque boa parte dos seus opositores eram simplesmente melhores. 2018 teve um dos melhores lotes de nomeados para Melhor Filme de sempre, com Call Me By Your Name, Phantom Thread, Dunkirk, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, Get Out e Lady Bird, vencendo todos estes nomes contra todas as probabilidades. A vitória, na altura, foi surpreendente mas o tempo não perdoa e, como tal, três anos depois já está bem enterrado na memória de qualquer um. 

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