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'O Pai' | Fonte: Distribuição

Crítica. ‘O Pai’ distorce espaço e tempo num retrato devastador da demência

O Pai, a mais recente longa-metragem de Florian Zeller tem dado o que falar. Baseado na peça com o mesmo nome, O Pai está nomeado para seis Óscares, incluindo o de Melhor Filme, e tem como protagonistas Anthony Hopkins (O Silêncio dos InocentesDois Papas) e Olivia Colman (A FavoritaThe Crown), que estão na corrida para receber a estatueta dourada para Melhor Ator Principal e Melhor Atriz Secundária. O filme poderá ser assistido nas salas portuguesas a partir do dia 6 de maio.

À primeira vista, a premissa do filme parece relativamente simples: Anthony é um homem de feitio difícil que, aos 81 anos, acha-se independente o suficiente para viver sozinho no seu apartamento, sem ajuda. Rejeita consecutivamente as enfermeiras que a sua filha, Anne, tenta contratar. Pelo menos é isso que os primeiros minutos do filme transmitem. Mas a vida de Anthony não é tão fácil assim. Na verdade, Anthony está cada vez mais débil, necessitando urgentemente de alguém que possa acompanhá-lo diariamente, ainda mais agora que Anne está apaixonada por um parisiense e pretende emigrar. O ambiente pacífico inicial descamba quando a possibilidade de uma Casa de Repouso é posta em cima da mesa. O resultado da conversa é inconclusivo.

Não sabemos quanto tempo passa até à próxima cena. Não sabemos sequer se é um momento futuro, passado, perdido. Mas há um homem estranho na sua sala. Nós não o conhecemos e, aparentemente Anthony também não. O homem apresenta-se como marido de Anne e não é certamente a primeira vez que o par tem esta conversa. Estamos tão confusos quanto Anthony, que crê que a filha estava de malas feitas, rumo a Paris. O resto do filme é igualmente meândrico – nunca sabemos ao certo se podemos confiar nas imagens à nossa frente, se as personagens são realmente quem dizem ser. Experienciamos a doença em primeira mão quando Anne não é Olivia Colman, mas sim Olivia Williams, o primeiro verdadeiro murro no estômago. A dor na cara do pai que não reconhece a própria filha é devastadora.

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Olivia Colman é Anne em ‘O Pai’ | Fonte: Distribuição
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O restante do filme é igualmente desconexo. Florian Zeller distorce, com uma sensibilidade incomparável, o espaço e o tempo. O Pai é um Cubo de Rubik sem resolução fácil. Toda a confusão que irrompe na cabeça de Anthony é sentida em primeira mão pelo espectador. As trocas de palavras são escorregadias – Anthony apalpa o terreno com classe cada vez que a memória lhe falha mas, no decorrer do filme, o desespero é cada vez mais aparente. Qualquer informação trocada entre as personagens é imediatamente evaporada na próxima cena, contribuindo para o ciclo vicioso que se cria no filme – o relógio que Anthony está constantemente a perder de vista, a sensação de dèjá vu que se repete vezes sem conta, a menção constante a Catherine, a outra filha de Anthony que nunca aparece, mas que é referida constantemente como a sua favorita são algumas das ferramentas narrativas que desconstroem ainda mais este declínio conduzido pela demência.

Uma ideia audaz que se apoia na simplicidade

O filme é inspirado na peça homónima de Florian Zeller, e há muito do teatro que migra para a Sétima Arte. O elenco principal é reduzido a seis pessoas, Anthony Hopkins, Olivia Colman, Olivia Williams, Mark GatissImogen Poots Rufus Sewell, cujas personagens que encarnam baralham-se a cada cena. O filme vive essencialmente das incríveis interpretações de cada um dos intervenientes, mas há quem arrisque em dizer que esta foi a grande atuação da carreira de Anthony Hopkins. A par de Riz Ahmed, protagonista de Sound of Metal, Anthony é uma das grandes apostas ao Óscar de Melhor Ator e, se ganhar a estatueta, será mais que merecido.

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Fonte: Distribuição

Os décors são outro aspeto onde, em O Pai, menos é mais. Os 97 minutos de filme são passados entre quatro paredes aparentemente idênticas, que estabelecem os espaços por onde acompanhamos Anthony. Algo que no teatro certamente resulta, mas que no grande ecrã deixa um pouco a desejar. As cores e os móveis podem mudar, mas a monotonia da disposição dos corredores e quartos acaba por extenuar. Mas tão rápida quanto é feita a crítica, pode ser contra-argumentada porque, de facto, é mais um relembrar de que a confusão que perfila a mente de Anthony está também em nós, e mostra-nos que, por mais parecidos, todos os espaços podem vir a ser traiçoeiros.

Florian Zeller faz magia. A complexidade do argumento apoia-se na simplicidade da história, que é contada sem floreados ou efeitos enganadores. Leva-nos num jogo psicológico intenso e deprimente, distorce o espaço e o tempo com delicadeza e fluidez.

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Anthony Hopkins e Olivia Williams | Fonte: Divulgação

O Pai é uma escada em espiral. Estamos constantemente a agarrar-nos ao corrimão e, de vez em quando, caímos com o protagonista. Nos últimos dez minutos de filme, estamos mesmo estatelados no chão. Não é um filme fácil de recomendar, tampouco fácil de ser revisto. O Pai é vertiginoso e devastador, mas também é belo.

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O Pai é vertiginoso e devastador, mas também é belo. 
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